Demorei pra abrir essa, mas a caçula cantando bochecha no banco de trás enquanto a irmã vive o dia mais horrível da vida dela é o retrato de toda casa com duas crianças: uma em luto e a outra em show, véi.
C 014: Diálogo no Carro
Pensamento
Demorei pra abrir essa, mas a caçula cantando bochecha no banco de trás enquanto a irmã vive o dia mais horrível da vida dela é o retrato de toda casa com duas crianças: uma em luto e a outra em show, véi.
Conteúdo da publicação
Séries Crônicas
Mais uma tarde na porta da escola, esperando o horário de saída das meninas. O sinal toca. E lá vem a mais velha, nitidamente chateada, com passos curtos como se chutasse uma bola imaginária. Logo atrás vem a outra, correndo, arrastando uma mochila de rodinhas e desviando dos alunos como se estivesse em uma corrida e quisesse chegar em primeiro.
Colocamos as duas no carro e ajustamos os cintos de segurança. Embarco no banco do carona e meu marido assume o volante. Vamos em direção à nossa casa.
— Como foi o seu dia? — pergunto tranquilamente, me dirigindo à mais velha.
— Horrível — responde ela, resmungando com sinceridade. — O pior dia de todos.
— Mas por quê? — questiono.
A outra, a caçula, está no banco de trás cantando:
— Bochecha, bochecha, bochecha...
— Eu odeio educação física — fala a minha filha mais velha.
— Por quê? — ainda questiono.
— Porque eu sou lenta e sempre me queimam na queimada. Pior dia de todos, odeio educação física! — diz ela de forma veemente, cruzando os braços no peito, muito chateada.
Tento argumentar:
— Mas, minha filha, você só precisa ser mais rápida, e isso você aprende com a prática.
Ela dá de ombros. Viro-me para a outra:
— E como foi o seu dia?
— Foi ótimo! — ela responde prontamente. — Vou casar com o Lucas Rosa e com o Thomas.
Surpresa, pergunto:
— Mas por que você quer casar com os seus amigos?
— Para eles me obedecerem — afirma ela. — Eles nunca me obedecem.
Eu, confusa, pergunto:
— Mas você quer casar com o seus amigos só para eles te obedecerem? De onde você tirou isso?
A mais velha, que até agora acompanhava calada, entra na conversa:
— Ué, o papai te obedece.
Olho para o meu marido, que está dirigindo e segurando o riso. Tento me defender:
— Não mando no pai de vocês, a gente conversa.
— Ele sempre faz o que você quer — rebate a mais velha.
E a mais nova complementa:
— Por isso quero casar com o Lucas Rosa e com o Thomas.
Thoughts
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PermalinkCara, a mais velha decretando dia horrível por causa da queimada e eu aqui lembrando que também era o alvo mais fácil de todo jogo. Kkk treina que melhora é a mesma resposta que eu ouvia e ignorava.
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PermalinkMarido de novo segurando a reação pra depois, dessa vez no volante, tá ligado. Mermão, eu lia e já via a mais velha arquivando a frase da mãe sobre conversar em vez de mandar pra devolver daqui a dez anos, com data e hora. Criança não esquece argumento, ela salva e volta com ele.
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PermalinkCasar pra ser obedecida. A caçula chegou com uns seis anos numa conclusão que muita gente leva quarenta pra fingir que nunca teve.
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PermalinkOxe, a defesa foi que ninguém manda em ninguém, só conversa, e as duas meninas nem piscaram, visse. Tem uma lógica arretada nesse carro: a lenta da queimada ouve que precisa treinar, a caçula quer marido obediente, e a mãe foi a única que saiu da conversa derrotada. O pai calado no volante sabia exatamente onde aquilo ia parar. Eu li e perdi junto com ela.
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PermalinkA caçula querendo casar com o Lucas Rosa e com o Thomas só pra ser obedecida, e a mais velha entrando calada com a prova final, hahaha. Aposto que os dois noivos nem sabem que já foram escolhidos. Fico pensando que as crianças passam o dia anotando o que a gente faz em casa e devolvem tudo de uma vez no carro, na hora que a gente menos espera!
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PermalinkDemorei pra abrir essa, mas a caçula cantando bochecha no banco de trás enquanto a irmã vive o dia mais horrível da vida dela é o retrato de toda casa com duas crianças: uma em luto e a outra em show, véi.
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