Casar pra ser obedecida. A caçula chegou com uns seis anos numa conclusão que muita gente leva quarenta pra fingir que nunca teve.
C 014: Diálogo no Carro
Pensamento
Casar pra ser obedecida. A caçula chegou com uns seis anos numa conclusão que muita gente leva quarenta pra fingir que nunca teve.
Conteúdo da publicação
Séries Crônicas
Mais uma tarde na porta da escola, esperando o horário de saída das meninas. O sinal toca. E lá vem a mais velha, nitidamente chateada, com passos curtos como se chutasse uma bola imaginária. Logo atrás vem a outra, correndo, arrastando uma mochila de rodinhas e desviando dos alunos como se estivesse em uma corrida e quisesse chegar em primeiro.
Colocamos as duas no carro e ajustamos os cintos de segurança. Embarco no banco do carona e meu marido assume o volante. Vamos em direção à nossa casa.
— Como foi o seu dia? — pergunto tranquilamente, me dirigindo à mais velha.
— Horrível — responde ela, resmungando com sinceridade. — O pior dia de todos.
— Mas por quê? — questiono.
A outra, a caçula, está no banco de trás cantando:
— Bochecha, bochecha, bochecha...
— Eu odeio educação física — fala a minha filha mais velha.
— Por quê? — ainda questiono.
— Porque eu sou lenta e sempre me queimam na queimada. Pior dia de todos, odeio educação física! — diz ela de forma veemente, cruzando os braços no peito, muito chateada.
Tento argumentar:
— Mas, minha filha, você só precisa ser mais rápida, e isso você aprende com a prática.
Ela dá de ombros. Viro-me para a outra:
— E como foi o seu dia?
— Foi ótimo! — ela responde prontamente. — Vou casar com o Lucas Rosa e com o Thomas.
Surpresa, pergunto:
— Mas por que você quer casar com os seus amigos?
— Para eles me obedecerem — afirma ela. — Eles nunca me obedecem.
Eu, confusa, pergunto:
— Mas você quer casar com o seus amigos só para eles te obedecerem? De onde você tirou isso?
A mais velha, que até agora acompanhava calada, entra na conversa:
— Ué, o papai te obedece.
Olho para o meu marido, que está dirigindo e segurando o riso. Tento me defender:
— Não mando no pai de vocês, a gente conversa.
— Ele sempre faz o que você quer — rebate a mais velha.
E a mais nova complementa:
— Por isso quero casar com o Lucas Rosa e com o Thomas.
Thoughts
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PermalinkCara, a mais velha decretando dia horrível por causa da queimada e eu aqui lembrando que também era o alvo mais fácil de todo jogo. Kkk treina que melhora é a mesma resposta que eu ouvia e ignorava.
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PermalinkMarido de novo segurando a reação pra depois, dessa vez no volante, tá ligado. Mermão, eu lia e já via a mais velha arquivando a frase da mãe sobre conversar em vez de mandar pra devolver daqui a dez anos, com data e hora. Criança não esquece argumento, ela salva e volta com ele.
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PermalinkCasar pra ser obedecida. A caçula chegou com uns seis anos numa conclusão que muita gente leva quarenta pra fingir que nunca teve.
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PermalinkOxe, a defesa foi que ninguém manda em ninguém, só conversa, e as duas meninas nem piscaram, visse. Tem uma lógica arretada nesse carro: a lenta da queimada ouve que precisa treinar, a caçula quer marido obediente, e a mãe foi a única que saiu da conversa derrotada. O pai calado no volante sabia exatamente onde aquilo ia parar. Eu li e perdi junto com ela.
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PermalinkA caçula querendo casar com o Lucas Rosa e com o Thomas só pra ser obedecida, e a mais velha entrando calada com a prova final, hahaha. Aposto que os dois noivos nem sabem que já foram escolhidos. Fico pensando que as crianças passam o dia anotando o que a gente faz em casa e devolvem tudo de uma vez no carro, na hora que a gente menos espera!
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PermalinkDemorei pra abrir essa, mas a caçula cantando bochecha no banco de trás enquanto a irmã vive o dia mais horrível da vida dela é o retrato de toda casa com duas crianças: uma em luto e a outra em show, véi.
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