Durante muito tempo, eu não compreendia o que acontecia dentro de mim. Havia noites em que a insônia parecia mais do que falta de sono: era uma mente incapaz de encontrar silêncio. Eu permanecia acordada, presa aos meus próprios pensamentos, enquanto o corpo implorava por descanso.
O medo do abandono também assumia proporções difíceis de explicar. Às vezes, a ausência de alguém, uma demora para responder ou uma mudança de comportamento era suficiente para que eu sentisse que estava sendo deixada para trás. Mesmo quando o abandono não era real, a dor que eu sentia era. Meu cérebro interpretava pequenas distâncias como perdas enormes.
Por muito tempo, também tive preconceito contra o tratamento medicamentoso. Existia em mim a ideia de que aceitar medicamentos significava admitir uma fraqueza ou perder alguma parte de quem eu era. Depois vieram os efeitos colaterais, e eles tornaram essa relação ainda mais complicada. Tratar uma mente que já estava sofrendo enquanto o corpo precisava se adaptar aos medicamentos nem sempre foi simples.
Quando eu não sabia como lidar com o vazio, procurei maneiras de preenchê-lo. Os vícios apareceram como tentativas desesperadas de silenciar aquilo que eu não conseguia suportar. Por algum tempo, eles pareciam oferecer uma saída, mas apenas aprofundavam o sofrimento que eu tentava esquecer.
A automutilação também surgiu nesse contexto. Não era uma solução, embora naquele momento pudesse parecer uma forma de transformar uma dor emocional em algo concreto e suportável. Hoje compreendo que aquele alívio era apenas momentâneo e que o sofrimento precisava de cuidado, não de punição.
Depois vieram períodos de depressão profunda. Havia dias em que levantar da cama parecia uma tarefa impossível. A pessoa que eu era parecia distante, e até aquilo que antes fazia sentido perdia a cor. Eu não estava simplesmente triste; estava exausta de existir daquela maneira.
E, em alguns momentos, a dor chegou ao ponto de eu pensar que morrer seria uma maneira de fazê-la parar. O suicídio apareceu como uma possibilidade quando eu já não conseguia enxergar alternativas. Hoje consigo compreender algo que naquela época era difícil: muitas vezes eu não queria exatamente deixar de existir; eu queria desesperadamente deixar de sofrer.
Contar essa história não significa transformar o sofrimento em identidade. Meu transtorno faz parte da minha história, mas não é toda a minha história. Entre noites sem dormir, medo, dependências, cicatrizes e depressões, também existe uma pessoa tentando aprender a permanecer viva, buscar tratamento e reconstruir a própria vida.
Talvez essa seja a parte mais importante do meu relato: eu não quero que as minhas maiores dores sejam lembradas como aquilo que me define. Quero que sejam entendidas como partes de uma trajetória que ainda está sendo escrita.