Tenho pensado sobre como reunir muitas pessoas com transtornos psicológicos em uma mesma rede social pode ser, ao mesmo tempo, uma fonte de acolhimento e um ambiente potencialmente prejudicial.
Historicamente, pessoas com determinadas doenças eram afastadas da sociedade por medo do contágio. Hoje sabemos que transtornos mentais não funcionam dessa maneira. Não existe “contaminação” psicológica simplesmente por conviver com alguém que sofre. Pelo contrário: encontrar pessoas que compreendem uma experiência que parecia solitária pode produzir identificação, pertencimento e alívio.
Eu mesma já participei de grupos assim. Conheci pessoas interessantes, encontrei compreensão e, em alguns momentos, senti que finalmente alguém entendia determinadas experiências que eu não conseguia explicar.
Mas existe um problema: identificação não é sinônimo de tratamento.
Um grupo pode acolher uma pessoa e, ao mesmo tempo, reforçar comportamentos que deveriam ser questionados. Pode transformar sintomas em identidade, sofrimento em estética e comportamentos destrutivos em algo romântico, inevitável ou até desejável.
No transtorno de personalidade limítrofe (nomenclatura que prefiro e sobre a qual explicarei melhor em outro texto) Isso merece atenção especial. A instabilidade da autoimagem pode fazer com que aquilo que consumimos, as pessoas com quem convivemos e as narrativas que encontramos nas redes sociais tenham um peso significativo sobre a maneira como nos percebemos.
Você pode estar relativamente estável, construindo uma identidade mais saudável, e encontrar uma publicação que desperta uma lembrança, uma identificação ou um comportamento. De repente, aquilo que parecia distante volta a ocupar todo o espaço mental.
E existe uma diferença fundamental entre validação e reforço.
Validar alguém significa reconhecer que sua dor existe e que seus sentimentos fazem sentido dentro da experiência daquela pessoa. Não significa dizer que todo comportamento produzido por essa dor é saudável, inevitável ou deve ser mantido.
Às vezes, dizer “eu entendo por que você se sente assim” é acolhimento. Dizer “você é assim mesmo, isso faz parte de quem você é” pode ser justamente o contrário daquilo que alguém precisa para mudar.
A identidade também é construída pelas histórias que repetimos sobre nós mesmos.
Por isso, aquilo que consumimos importa. As comunidades das quais participamos importam. As pessoas que admiramos importam. As narrativas que transformamos em espelho também importam.
Não precisamos nos isolar de outras pessoas que sofrem. Precisamos aprender a escolher ambientes que não apenas reconheçam nossa dor, mas também favoreçam nossa recuperação.
Nem todo espaço que nos compreende nos ajuda a melhorar.
Às vezes, cuidar de si também significa sair de um lugar onde nossa dor é constantemente alimentada.
Não abrace a sua dor como se ela fosse toda a sua identidade. Conheça-a, compreenda-a, trate-a, mas não permita que ela seja a única história que você conta sobre quem é.