Eu me casei cedo demais para compreender a mulher que estava me tornando. Tive um relacionamento e, pouco tempo depois, engravidei. Ele já era pai de uma menina de três anos e carregava consigo uma história mal resolvida com a ex-mulher. Nosso casamento nunca nasceu de uma decisão verdadeiramente livre e amadurecida. Não houve cerimônia, não houve o sentimento de que estávamos construindo uma vida juntos; houve, sobretudo, uma situação que nos empurrou para dentro de uma casa e nos fez chamar aquilo de casamento.
Ele foi infiel durante a relação. Até hoje é. Trabalhava, ganhava seu dinheiro e cumpria as obrigações materiais, mas muitas vezes fazia questão de me lembrar que aquilo era uma obrigação, como se cada coisa que comprasse para a casa se transformasse depois em uma dívida moral que eu deveria pagar com submissão.
As palavras dele também sabiam ferir. Havia arrogância, humilhação e violência psicológica. Certa vez, houve uma agressão física. E eu não fui embora. No dia seguinte, levantei, continuei minha vida e agi como se nada tivesse acontecido.
Hoje consigo olhar para aquela mulher e perceber que havia alguma coisa dentro de mim que eu ainda não conhecia. Eu tinha transtorno de personalidade borderline, mas não sabia. Não compreendia por que sentia tudo com tanta intensidade, por que certas dores pareciam maiores do que eu conseguia suportar, nem por que meus vínculos podiam se transformar tão rapidamente em lugares de medo, dependência, raiva e desespero.
Então nasceu meu primeiro filho.
Ele tinha uma doença genética e sua existência exigia de mim uma força que eu nem sabia possuir. Precisei estudar, aprender, observar sinais, compreender tratamentos, acompanhar crises e cuidar dele quando eu mesma estava exausta. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para mantê-lo vivo.
E fiz isso, em grande parte, com a ajuda dos meus parentes.
O pai gostava de festas. Trabalhava em outras cidades. Gostava da vida que existia longe das responsabilidades da casa e, naquele período, também procurava prostitutas. Eu ficava com a parte mais difícil: a criança doente, os cuidados, o medo, as noites sem descanso e a responsabilidade de continuar funcionando quando tudo dentro de mim já estava cansado.
Nós nos separamos várias vezes. E, pouco a pouco, comecei a me parecer com ele.
Fiquei arrogante. Fiquei fria. Fiquei violenta nas palavras. Aprendi mecanismos de defesa que confundia com força. Em algum momento, eu já não era apenas alguém sofrendo violência; também havia me tornado alguém capaz de ferir.
Em 2015, alguma coisa mudou. Ele mudou. Oficializou nosso casamento e eu engravidei do segundo filho.
Dos anos de 2015 a 2017, não tenho grandes queixas. Houve uma espécie de intervalo na nossa história, um período em que conseguimos viver como uma família sem que tudo parecesse uma guerra.
Mas o tempo passou.
Ele foi perdendo o encanto para mim. O casamento ficou morno. O que antes parecia uma promessa de vida começou a parecer apenas uma rotina. E, quando os sinais mais intensos da minha doença começaram a aparecer, as agressões verbais e psicológicas também voltaram.
Eu me separei.
Não foi simples superar aquele homem. Enquanto ele seguia a vida, eu permanecia mergulhada na criação dos meus filhos e em níveis de estresse que eu ainda não sabia nomear. Eu precisava cuidar das crianças, lidar com a doença do meu filho e, ao mesmo tempo, aprender a sobreviver àquilo que acontecia dentro da minha própria mente.
Foi nesse período que minha vida se aproximou das drogas.
Eu me envolvi com elas, mas existe uma coisa que nunca deixei de exigir de mim mesma: meus filhos não poderiam pagar pela minha doença. Nunca deixei faltar o necessário a eles dentro das possibilidades que eu tinha. E também cobrava fortemente a participação do pai, porque o tempo que ele oferecia às crianças era mínimo.
Até que um dia tentei tirar a própria vida.
E, naquele momento, ele não quis ficar com as crianças.
Eu precisei reaprender a viver. Não apenas para mim, mas porque havia crianças que dependiam de mim. Precisei reconstruir uma rotina enquanto ainda estava tentando entender a dimensão daquilo que havia acontecido comigo.
Quando os meninos cresceram um pouco, o pai começou um relacionamento.
A partir daí, as coisas ficaram ainda mais difíceis. As ajudas foram diminuindo. Restou a pensão. O restante parecia ter deixado de ser responsabilidade dele.
Foram muitas brigas para que ele aceitasse permanecer no hospital quando nosso filho especial tinha crises. Eu precisava que ele compreendesse que ser pai também significava estar presente quando a situação ficava difícil, não apenas quando era conveniente.
Então aconteceu uma coisa que, olhando hoje, consigo reconhecer como um alerta necessário.
Por causa de uma dívida relacionada às drogas, ele levou os meninos de mim.
Foi correto naquele momento. Eu estava doente, envolvida com drogas e vivendo uma situação que colocava minha maternidade em risco. Aquilo precisava provocar uma interrupção. Precisava me fazer parar.
Mas a forma como tudo aconteceu também me fez piorar.
As visitas começaram a ser dificultadas. Eu queria ver meus filhos e encontrava barreiras. Minha doença respondia àquele afastamento com ainda mais sofrimento.
E havia uma coisa que meus filhos não sabiam.
Eles não sabiam que aquela mãe que estava ausente estava doente.
Não sabiam que, anos antes, aquela mesma mulher havia passado noites acordada cuidando deles, estudando a doença do irmão, procurando tratamento, brigando para que nada lhes faltasse. Não sabiam que havia uma história antes da droga.
Eles cresceram ouvindo que eu era drogada, que eu não ajudava em nada e que não os visitava.
Talvez algumas dessas coisas fossem verdadeiras em determinados períodos. Eu não quero apagar meus erros. Eu errei. Adoeci. Usei drogas. Tomei decisões ruins. Houve momentos em que não consegui ser a mãe que gostaria de ter sido.
Mas uma pessoa pode estar doente sem que toda a sua história seja reduzida à doença.
Visitar meus meninos na casa do pai era especialmente difícil. Eu entrava naquele ambiente já sabendo que precisava controlar tudo o que sentia. Muitas vezes saía de lá em crise.
Foi também nesse período que engravidei dos meus gêmeos.
A vida continuava acontecendo enquanto eu ainda tentava juntar os pedaços da vida anterior.
Hoje penso no que poderia ter sido diferente.
Se o pai deles tivesse conversado com os meninos de maneira honesta, sem transformar minha doença em uma sentença sobre quem eu era, talvez eles tivessem crescido entendendo que a mãe deles havia adoecido, mas também havia lutado por eles.
Talvez soubessem que, muito antes das drogas, houve uma mulher que acordava todos os dias para cuidar deles.
Talvez soubessem que eu errei, mas que também tentei.
Talvez soubessem que algumas ausências não nasceram da falta de amor.
Nasceram da doença.
Eu não posso voltar ao passado e obrigar ninguém a contar essa história de outra maneira. Também não posso exigir que meus filhos compreendam imediatamente tudo o que aconteceu. Eles têm o direito de sentir raiva, confusão, tristeza e até distância.
Mas existe uma coisa que aprendi e que gostaria de deixar como advertência para qualquer pai ou mãe que esteja se separando:
Crianças escutam o que os pais dizem um do outro.
Elas absorvem as palavras que deveriam morrer entre os adultos e transformam essas palavras em memórias sobre si mesmas.
Por isso, se você está separado do pai ou da mãe dos seus filhos, não faça da criança testemunha da guerra.
Não diga que o outro é inútil, irresponsável, louco, vagabundo, desamoroso ou qualquer outra coisa que a coloque no meio do conflito.
Conte a verdade de maneira compatível com a idade da criança.
Se o outro pai ou mãe estiver doente, explique que está doente.
Se tiver errado, não esconda que houve erros.
Mas não transforme uma fase da vida de alguém na definição de toda a sua existência.
Porque os filhos crescem.
E um dia eles podem olhar para trás e descobrir que passaram anos odiando alguém com base em uma história que nunca ouviram por inteiro.
Eu gostaria que meus filhos tivessem conhecido a história completa.
A mulher que adoeceu era a mesma mulher que um dia os carregou no colo.
A mulher que caiu também foi a mulher que tantas vezes lutou para que eles permanecessem de pé.
E existe uma última contradição que ainda me dói.
Quando eu estava naquela luta diária pelas crianças, quando era eu quem corria atrás de tratamento, enfrentava crises, estudava a doença do meu filho, cuidava, insistia, cobrava, acordava cansada e continuava mesmo assim, eu era apenas uma mãe fazendo aquilo que, aos olhos dos outros, uma mãe deveria fazer.
Hoje, depois de tudo o que aconteceu, ele não precisou fazer metade do que eu fiz para que a história parecesse diferente.
Hoje ele é o pai presente.
Hoje ele é o responsável.
Hoje ele é o herói.
E eu não escrevo isso para tirar dele o direito de ser reconhecido pelo que faz pelos nossos filhos. Escrevo porque também gostaria que um dia alguém reconhecesse aquilo que eu fiz quando ninguém estava me chamando de heroína.
Eu era apenas uma mãe.
Uma mãe doente, imperfeita, muitas vezes perdida, mas que lutou pelos filhos com as forças que tinha.
E talvez essa seja a parte da minha história que mais desejo que meus filhos conheçam: antes de eu ser a mulher que adoeceu, antes de ser a mulher que caiu, antes de ser lembrada pelas drogas e pelas ausências, eu fui a mãe que esteve ali.
E uma mãe também merece que sua história inteira seja contada.