Em um texto anterior, contei como, durante um período muito difícil da minha vida, destruí boa parte dos vínculos que tinha construído com a minha família. Falei também que, em determinado momento, cheguei a ficar em uma casa de apoio. Naquele texto, porém, mencionei esse lugar apenas de passagem.
Neste, quero contar como foi viver ali.
Eu estava fazendo tratamento no CAPS AD quando minha mãe me expulsou de casa. Naquele momento, minha família estava indignada comigo. Todos se recusaram a me ajudar. Eu havia chegado a um ponto em que, para eles, talvez fosse mais fácil fechar as portas do que continuar tentando me acolher.
Lembro de um dia de chuva. Coloquei minhas poucas roupas dentro de uma trouxa improvisada com um lençol e fui para o CAPS. Eu não tinha exatamente um plano para o que aconteceria depois. Tinha apenas a necessidade de encontrar algum lugar onde pudesse ficar.
Foi de lá que fui encaminhada para uma casa de apoio.
A casa tinha uma organização que, naquela época, me impressionou. Havia uma área destinada às mulheres e outra aos homens. Os quartos tinham beliches e banheiro. No quarto em que fiquei inicialmente, havia também uma moça com um bebê. É curioso lembrar daquela cena hoje: pessoas que haviam chegado ali por caminhos completamente diferentes dividindo, por algum tempo, o mesmo espaço e a mesma necessidade de recomeçar.
Meus medicamentos passaram a ficar sob a tutela da equipe. Eu não precisava mais administrar sozinha aquilo que, naquele período, eu talvez não estivesse em condições de administrar. Também recebi roupas e materiais de higiene: escova de dentes, shampoo e outras coisas básicas que, naquele momento, tinham um significado muito maior do que o valor que possuíam.
Alguns dias depois, chegou outra moça com o filho. Ela havia trabalhado como empregada doméstica na casa de uma família, mas fora demitida e ficara sem ter para onde ir. Sua própria família morava na Bahia e estava tentando encontrar uma maneira de recebê-la novamente.
Dias depois, conseguiram.
A prefeitura da minha cidade, por meio do serviço social, providenciou e pagou as passagens para que ela e o filho pudessem voltar para a Bahia. Vi aquela partida e compreendi que aquela casa não era apenas um lugar para onde pessoas eram mandadas quando não tinham para onde ir. Para algumas, era uma ponte entre uma vida que havia acabado e outra que ainda precisava ser reconstruída.
A rotina era simples e organizada. Tomávamos café da manhã e, depois, higienizávamos nossos quartos e os banheiros. Havia uma equipe acompanhando os moradores: cuidadores, uma enfermeira, um advogado que também era o diretor da instituição, cozinheiras, porteiro e uma assistente social.
A assistente social tinha uma função especialmente importante. Ela ajudava a resolver questões relacionadas à moradia, à situação financeira e aos caminhos que cada pessoa poderia seguir depois dali. Não era apenas manter alguém alimentado e abrigado; havia também uma tentativa de descobrir para onde aquela pessoa poderia ir quando deixasse a casa. Fiz muitas amizades por lá.
E havia comida. Todas as refeições eram oferecidas e, para minha surpresa, eram deliciosas. Em meio a tantas coisas que eu havia perdido, sentar-me para comer uma refeição preparada por alguém talvez parecesse uma coisa pequena. Mas não era. Quando uma pessoa está sem casa, sem família ao lado e sem saber o que acontecerá no dia seguinte, ter um prato de comida servido regularmente devolve uma pequena parcela de estabilidade ao mundo.
Eu não sei se, naquela época, compreendia completamente tudo o que estava acontecendo comigo. Hoje consigo olhar para aquele período com outros olhos.
Eu havia chegado ali depois de perder quase tudo: a confiança da minha família, a minha casa e boa parte da autonomia que antes eu tinha. Mas também encontrei pessoas que, sem conhecer toda a minha história, cuidaram de mim durante um período em que eu precisava ser cuidada.
Depois de algum tempo, meu avô se arrependeu de me deixar naquela situação e foi me buscar. Voltei para a casa dele e, desde então, estou lá até hoje.
Às vezes penso que aquela casa de apoio foi uma espécie de intervalo na minha vida. Eu não pertencia mais à casa de onde havia saído, mas ainda não sabia qual seria o lugar para onde iria. Fiquei entre uma família que havia desistido de mim naquele momento e um futuro que eu ainda não conseguia enxergar.
Hoje, quando lembro daquela trouxa de roupas feita com um lençol e daquele dia de chuva em que fui ao CAPS sem saber exatamente onde dormiria, percebo que aquela não foi apenas uma lembrança de abandono.
Foi também uma lembrança de que, quando eu não tinha para onde ir, existiu uma porta que se abriu.
E eu aprendi para um ser humano endereço é documento.