Passei anos à deriva, vendo a vida acontecer enquanto eu tentava apenas sobreviver aos meus próprios dias. Aos poucos, fui me afastando de coisas que antes faziam parte de mim, até que retomar uma atividade simples passou a parecer uma tarefa enorme.
Existe uma estranheza dolorosa em voltar. Eu lembro de quem eu era antes e comparo aquela pessoa com quem sou agora. Às vezes, sinto que perdi habilidades, ritmo, confiança e até o direito de me considerar capaz.
Mas talvez eu esteja exigindo de mim a mesma velocidade de quem nunca precisou parar. E eu precise entender que recomeçar depois de tantos anos não é voltar ao ponto de onde parei. É aprender novamente, com uma história que antes eu não tinha.
Talvez a incapacidade que sinto hoje não seja uma sentença sobre quem eu sou. Talvez seja apenas o desconforto de uma pessoa que está, finalmente, tentando colocar os pés no chão depois de muito tempo à deriva.