6. AS PRIMEIRAS PERGUNTAS QUE FIZ
NĂŁo perguntava para os outros.
Perguntava para o teto do quarto,
para o travesseiro molhado,
para o silĂȘncio que me ouvia sem responder.
ŽŽPor que sinto o que ninguém sente?``
ŽŽPor que meu coração bate diferente?``
ÂŽÂŽPor que o mundo tem regras que nunca aprendi?``
Perguntas sem endereço, sem respostas.
Flutuando como fumaça que eu tentava agarrar
e se desfazia.
ÂŽÂŽSerĂĄ que sou a Ășnica?``
Essa doĂa mais.
Porque se eu fosse a Ășnica, nĂŁo havia mapa.
Ninguém para me explicar aquele território estranho.
EntĂŁo perguntava aos livros, Ă s mĂșsicas, aos filmes.
Procurava um pedaço de mim na arte dos outros.
Encontrei ÂŽÂŽSappho`` em fragmentos de poemas,
ÂŽÂŽEmily Dickinson`` escondendo versos na gaveta,
ÂŽÂŽGertrude Stein`` vivendo abertamente com Alice B. Toklas
em um mundo que nĂŁo queria ver.
Procurava um reflexo que dissesse:
ÂŽÂŽVocĂȘ nĂŁo estĂĄ sozinha.``
Mas as perguntas geravam mais perguntas.
Cada resposta inventada
vinha seguida de uma dĂșvida maior.
Perdia-me num labirinto de inquietaçÔes,
sem saber que aquelas perguntas
eram o começo de me encontrar.
â NelleAziul