17. O FOGO NA BARRIGA
Achava que era fome.
Mas não era fome de comida.
Era fome de vida.
Fome de pele, de toque, de presença.
Nasceu no fundo do estômago, subiu pelas entranhas,
tomando cada nervo, cada terminação,
como chama que se espalha pela mata seca.
Como ´´PJ Harvey`` em ´´Rid of Me``,
era um desejo que roía os ossos por dentro.
Como ´´Ani DiFranco`` cantando ´´In or Out``,
era uma pergunta que eu não sabia responder.
Não era dor, mas também não era paz.
Era inquietação, agitação, frio na barriga que queimava.
Passava o dia tentando apagar o fogo com distrações:
livros, estudos, tarefas.
Mas ele sempre voltava à noite,
quando a luz se apagava e o silêncio chegava.
Aparecia ao ver uma silhueta na rua,
ao ouvir uma risada do outro lado do muro,
ao sentir um perfume que passava perto.
Era um fogo que não pedia licença.
E me fazia perder a linha, o controle, a razão.
Tinha medo desse fogo, porque era verdadeiro.
Não era pensamento, era instinto.
E instintos não podem ser negados por muito tempo.
Ele queimava minha fachada de menina certinha,
e me mostrava que, por baixo de tudo,
existia uma mulher que queria existir.
Uma mulher cansada de apagar o próprio incêndio.
— NelleAziul