Meu nome é Álvaro. Mas já fui Fernando. Pessoa. O poeta. O fingidor. Descobri isso numa terça-feira, às 3h da manhã, enquanto traçava o mapa astral de um cliente que nunca apareceu.
Sou astrólogo. Não por fé, mas por precisão. Os astros mentem menos que os homens. Trabalho num cubículo no centro do Rio, entre uma loja de celulares e um camelô que vende incensos. Atendo gente quebrada, gente rica, gente perdida. Cobro caro. Falo pouco. Nunca erro.
Naquela noite, algo mudou. O mapa que tracei não era de ninguém. Era meu. Sem querer, inseri minha data, minha hora, meu lugar. E ali estava: Lua em Leão, Sol em Gêmeos, ascendente em Escorpião. Um padrão que reconheci. Um padrão que estudei. Excetuando Urano, Netuno e Plutão, seria o mesmo de Fernando Pessoa. Não parecido. Igual.
Fiquei em choque. Fui até a estante. Peguei “Livro do Desassossego”. Abri numa página qualquer. Li: “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e passa porque morre.” Chorei. Não por emoção. Por confirmação.
Nos dias seguintes, os poemas vieram. Sem esforço. Escrevia como se psicografasse. Assinava com nomes que não eram meus: Ricardo, Caeiro, Reis. Acordava com versos na cabeça. Dormia com rimas nos olhos. Comecei a falar sozinho em português arcaico. Passei a beber vinho do Porto. Comprei um chapéu.
Mas o mundo não liga para reencarnações. O aluguel venceu. A luz foi cortada. Um cliente me procurou: um político. Queria saber se devia concorrer à prefeitura. Disse que sim. Ele perdeu. Disse que ia me matar. Achei que era bravata.
Não era.
Na sexta-feira, ele voltou. Com um revólver. Entrou no cubículo. Trancou a porta. Disse:
— Você me fodeu.
— Os astros não mentem.
— Você mentiu.
— Você não ouviu.
Ele apontou a arma. Eu respirei. Lembrei de um verso: “A morte é a curva da estrada.” Sorri. Ele atirou.
Mas a bala parou no ar.
Literalmente. Flutuou. Como se o tempo tivesse engasgado.
Ele gritou. Tentou correr. A porta não abriu. O cubículo escureceu. As paredes tremiam. O teto sumiu. E ali, no meio do nada, apareceu Fernando. Pessoa. Em carne, chapéu e óculos.
— Não era sua hora — disse ele.
— Mas era minha bala — retrucou o político.
Fernando olhou para mim. Sorriu. Tocou meu ombro. E desapareceu.
A bala caiu no chão. O político desmaiou. A porta destrancou. A luz voltou.
Desde então, não sou mais Álvaro. Nem Fernando. Sou outro. Um que escreve sem saber. Um que lê sem entender. Um que vive entre mapas e crimes. Um que sabe que o surreal não é fuga. É retorno.
Dois dias depois, um delegado bate à porta do cubículo. Terno amarrotado, olhar pirrônico.
— Álvaro Mendes?
— Sim.
— Recebemos uma denúncia. Tentativa de homicídio. Um político. Diz que você parou uma bala no ar.
— E vocês acreditam?
— Não. Mas ele está internado, em choque. Repetindo seu nome. E o de Fernando Pessoa.
O delegado olha em volta. Vê livros, mapas, velas. Um poema escrito à mão sobre a mesa.
— O senhor é médium?
— Sou astrólogo.
— E poeta?
— Não por escolha.
O delegado pega o poema. Lê em voz baixa. Franze a testa.
— Isso aqui é bom.
— Não é meu.
— De quem é?
— De um homem morto. Que vive em mim.
O delegado suspira. Guarda o papel. Vai embora. Mas antes de sair, adverte:
— Se eu fosse você, tomava cuidado. O surreal atrai o perigoso.
Na semana seguinte, um grupo começa a se reunir em frente ao cubículo. Gente estranha. Gente vestida de preto. Gente que recita versos em voz alta. Dizem que Álvaro é o retorno do poeta. Dizem que ele é um portal. Dizem que ele é um milagre.
Ele tenta ignorar. Mas os versos continuam vindo. Agora em línguas que não conhece. Latim. Grego. Árabe. Escreve compulsivamente. Os papéis se acumulam. Os olhos ardem. O corpo treme.
Uma mulher do grupo entra. Sem pedir. Sem bater.
— Ele quer falar com você.
— Quem?
— O próximo.
— Próximo o quê?
— Próximo poeta. Próximo crime.
Ela entrega um envelope. Dentro, um mapa astral. De um homem que ainda não nasceu.