Entrei no salão quando a noite já havia perdido o nome.
O lugar não existia em mapas, tampouco em lembranças comuns. Ficava em algum ponto entre o último arrependimento de um homem e seu desejo mais egoísta de continuar respirando. As portas eram altas, feitas de madeira escura, marcadas por queimaduras antigas, como se o fogo tivesse tentado entrar e desistido.
Lá dentro, as sombras descansavam.
Não se moviam.
Não tremiam com a luz.
Apenas observavam.
Foi então que eu o vi.
Sentado ao fundo do salão, diante de uma mesa de cedro enegrecida pelo tempo, estava o diabo.
Elegante demais para os contos religiosos.
Calmo demais para os monstros descritos pelos homens.
Ele sorriu quando me aproximei.
Um sorriso lento, quase educado.
E estendeu a mão.
— Me concede esta dança? — perguntou.
Havia humor em sua voz, como se ele já soubesse a resposta.
Ignorei a mão e me sentei diante dele.
— Se veio pela minha alma, chegou tarde demais.
O sorriso dele aumentou.
— Sua alma? — ele riu baixo. — Meu caro... sua alma foi negociada muito antes de você nascer.
Meu corpo gelou.
— Então o que quer de mim?
Ele deslizou um baralho sobre a mesa.
As cartas eram antigas.
Pesadas.
Amareladas.
Quando tocaram a madeira, produziram um som seco, semelhante a ossos sendo arrastados por um chão de pedra.
Foi então que percebi.
As cartas eram feitas de osso.
Humano.
— Hoje — disse ele calmamente — jogaremos por algo mais valioso.
— O quê?
Seus olhos brilharam como brasas morrendo.
— Tempo.
O salão inteiro ficou em silêncio.
Até o relógio pendurado na parede parou.
Nenhum ponteiro se moveu novamente.
Ele começou a distribuir as cartas.
Suas mãos pareciam esqueletos vestidos de pele fina.
Cada movimento levantava pequenas partículas de poeira, como se séculos fossem embaralhados junto ao jogo.
— Se você perder — disse ele — morre esta noite.
Olhei para minhas cartas.
Um par de valetes.
As figuras estampadas nelas vestiam uniformes militares antigos e tinham rostos apodrecidos.
Cadetes mortos.
Soldados esquecidos.
Levantei os olhos.
— E se eu vencer?
O diabo inclinou a cabeça.
— Você viverá para sempre.
A maioria dos homens teria comemorado.
Eu também quase comemorei.
Quase.
A partida durou horas.
Ou segundos.
Naquele lugar, o tempo havia deixado de obedecer às regras do mundo.
Quando a última carta foi virada, o ás de espadas caiu sobre a mesa.
Mas não era uma espada.
Era uma bala de chumbo.
Escura.
Perfeita.
Fatal.
O diabo olhou para mim em silêncio.
Depois sorriu.
— Parabéns.
Meu coração disparou.
Eu havia vencido.
Eu havia conquistado o impossível.
O mundo inteiro.
A eternidade.
Eu saí daquele salão acreditando ter derrotado o próprio inferno.
Levei anos para entender meu erro.
O prêmio era uma maldição.
Sempre foi.
Eu não envelhecia.
Minha pele permanecia intacta.
Nenhuma ruga.
Nenhum sinal do tempo.
Nenhuma decadência.
Enquanto todos ao meu redor desapareciam.
Vi meus amigos morrerem.
Vi cidades mudarem.
Vi impérios caírem.
Enterrei meu irmão.
Enterrei minha amada.
Enterrei filhos que deveriam ter me enterrado.
E cada funeral arrancava algo de mim que nunca voltava.
O tempo me esqueceu.
A morte me evita como se eu fosse uma dívida inconveniente.
Eu me tornei uma história contada em bares por homens bêbados demais para serem acreditados.
Uma lenda sem descanso.
Uma alma condenada a assistir o mundo desaparecer repetidamente.
E o pior de tudo...
as cartas continuam comigo.
Sempre no bolso do meu casaco.
Sempre esperando.
Toda noite eu as espalho sobre a mesa e imploro por uma derrota.
Imploro por um fim.
Imploro por silêncio.
Mas o baralho de ossos nunca mente.
E o jogo...
o maldito jogo...
se recusa a me deixar perder.