Ainda que meus versos morram
na virtude em vertentes à domínios,
ainda que uma flor murcha e inválida
descolorisse a dobra do fio vermelho,
errante e sem contraste,
sem a saturação necessária a se viver;
ainda que meus versos morram
no deitar da noite sombria e fria,
ou que nem chegasse a amanhecer,
pois cada verso composto
é o oposto verso da alegria,
em versos que não se julga, nem a cura,
nem em versos a perdurar mais um pouquinho,
nas estradas estreitas a vaguear sozinha,
onde suor quente é sacrifício em pele fria,
ou ir além do corpo gélido
e término ao fim da vida.
Pois ainda que inúmeras falas e feitos sejam o delito,
crime mesmo são as ocorrências
da insatisfação do mal julgo ou perjúrio,
do errante julgamento,
ao contrário a sábios vereditos.
Não sou o nome, o rótulo, o retrato,
nem cor que a carne imprime em vão espelho.
Sou mais que forma — sou o que me desfaço
no outro, que me vê, sem meu conselho.
Não sou a face, o gesto ou o formato,
sou o que em mim resiste ao tempo velho:
um sopro em meio ao mundo tão abstrato.
Amor a todos é saber-se inteiro,
e quando a paz parece coisa errante,
há um “ainda” que a esperança anseia:
flor que persiste, mesmo entre o distante.