OS MISTÉRIOS DO ACASO
CAPÍTULO 6:
A PAIXÃO DE NARCISO O POETA EM RITMO DE JAZZ
Assim que Helena Dolly recebeu aquele verdadeiro compêndio de quatro poemas na recepção, ela abriu um sorriso largo, deu um cheiro nos manuscritos, agradeceu com a doçura que lhe era habitual e guardou aquelas folhas com absoluto zelo em seus pertences. Narciso, com a alma em festa mas o corpo tenso, despediu-se temporariamente e foi cuidar dos seus afazeres profissionais. O expediente correu dentro das normalidades, mas a mente do escritor estava fixada no balcão da entrada, completamente ansioso pelo feedback da sua musa.
Horas mais tarde, quando o destino finalmente permitiu um novo encontro reservado entre os dois nos corredores da empresa, o cenário mudou. Os olhos negros de Helena Dolly brilhavam intensamente, parecendo dois cristais lapidados refletindo a luz do sol. Havia uma admiração nítida, legítima e escancarada na expressão dela. Sem conseguir conter o entusiasmo, ela aproximou-se do Poeta e começou a conversar com a voz embargada de emoção:
— Narciso do céu... Que coisa mais linda é a sua arte! Você sabia que nunca, em toda a minha vida, ninguém havia escrito para mim dessa forma? Eu estou tendo o privilégio puro em ter um poeta escrevendo exclusivamente para mim!
Narciso sentiu um calafrio muito bom, subir pela sua espinha. Olhou nos olhos dela e respondeu com toda a fidalguia de sua alma apaixonada:
— Se você não sabia, minha querida Helena? Saiba agora que é um grande prazer escrever para você. A verdade nua e crua, é que eu gosto de você e gosto muito…
— Narciso, você é a primeira pessoa no mundo que me escreve essas coisas maravilhosas. Acho tudo tão perfeito e profundo que, de verdade, eu nem tenho palavras suficientes para te agradecer! — confessou ela, tocando de leve no braço dele.
O coração de Narciso, neste exato momento, derreteu por completo. Ficou parecendo manteiga fresca exposta ao sol do meio-dia. Não havia mais defesas, não havia mais armaduras, o Poeta ficou de joelhos.
Quando o Poeta sentava para escrever naquelas folhas de rascunho, ele o fazia de forma empolgada, entregando o coração sem economizar os sentimentos. Ele escrevia para o seu maior sonho de consumo, e fazia isso revestido de uma realeza muito clara, de uma dignidade que só os homens genuinamente apaixonados conseguem ostentar. O cara estava perdendo o juízo por amor. Tanto que, mesmo após alguns dias, quando parava a sós para reler os seus próprios feitos literários, o próprio Narciso ficava impressionado com a potência do que saía de sua caneta:
— Nem acredito que fui eu mesmo quem escreveu tudo isso... — sussurrava para si mesmo, com certo espanto mas orgulhoso.
E era de fato lindo o modo como Narciso entoava e dava vida aos seus poemas. Ele possuía uma voz própria, uma cadência direta, sincera e contundente, sem jamais copiar o estilo ou a métrica de nenhum outro autor. Seus feitos eram originais, vinham da carne. E, no fundo, só a própria Helena Dolly seria capaz de traduzir em palavras o turbilhão que sentia no peito cada vez que recebia uma daquelas poesias manuscritas.
A ternura e a paixão que a presença dela despertava no escritor cresciam a cada amanhecer, tornando-se algo nítido e transparente para quem quisesse ver. Narciso, às vezes, tentava racionalizar, buscando entender o motivo exato de ter se amarrado tão rápido e tão profundamente àquela mulher, mas a verdade nua e crua é que não existiam respostas lógicas: ele estava mega apaixonado por ela.
A cada hora que passava, o Poeta se pegava sonhando acordado com aquele corpo angelical de cintura de pilão. Para ele, Helena era uma miragem viva caminhando pelos tapetes da empresa. Nas suas fantasias mais confessas, ele fechava os olhos e implorava mentalmente por pelo menos um beijo daqueles lábios bem desenhados. Desejava aquela boca linda sendo beijada e beijando o Poeta de volta. Que maravilha seria esse encontro!
Enfim, as horas giravam, a tarde caía e o começo da noite anunciava o encerramento de mais um dia de expediente. Chegava a hora de cada qual seguir para o seu respectivo destino e encarar a realidade de suas vidas separadas. O ritual de despedida na recepção guardava uma cortesia quase dolorosa para quem queria o mundo: três beijinhos rápidos no rosto, um sorriso contido e um tchau protocolar. Mas o coração de Narciso não aceitava o fim da cena. Ele permanecia estático, seguindo os passos dela com o olhar, vigiando cada movimento daquela silhueta soberana até que ela cruzasse a porta de vidro e sumisse definitivamente de vista na penumbra da rua.
No dia seguinte, alimentado pela saudade que a noite causara, Narciso chegou bem cedo ao trabalho trazendo um novo poema dobrado no bolso. Aproximou-se do balcão com o peito estufado e saudou a sua musa:
— Bom dia, Helena! Tudo bem contigo?
— Oi, Narciso! Bom dia! Por aqui está tudo ótimo! — respondeu ela, iluminando a manhã.
— Tenho algo muito especial guardado para você hoje — anunciou o Poeta, estendendo a mão.
Ele entregou a Helena aquela folha manuscrita, banhada com o amor puro da inspiração da madrugada e com a satisfação genuína que uma criança sente quando reencontra a mãe depois de um dia de saudades. Helena recebeu o papel e, com os olhos atentos, leu rapidamente a poesia.
As linhas daquele novo texto mencionavam a Espera. Era o desabafo de um homem que se sentia um tanto afoito e impaciente com a demora dos acontecimentos, alguém que ardia de urgência para que o romance de fato engrenasse. Na verdade, o conceito geral do texto trazia uma grande verdade filosófica: para Narciso, fazer alguém esperar no vazio, deixar o outro aguardando sem a menor satisfação ou norte, era uma profunda falta de consideração, de respeito e, acima de tudo, de educação.
Todavia, esse julgamento pesado não cabia na questão chamada Helena Dolly. Narciso estava, sim, esperando uma decisão definitiva da parte dela e encontrava-se extremamente afoito, só que as engrenagens do destino não giravam na velocidade que ele gostaria. Com Helena, as coisas precisavam acontecer bem devagar, em fogo brando. Havia a necessidade de construir primeiro uma compatibilidade sólida, uma cumplicidade de silêncios e, o mais importante: uma paixão recíproca precisava rolar. Do lado do Poeta, esse sentimento já estava totalmente garantido, carimbado e certo.
Ele escreveu Espera com um entusiasmo vibrante porque desejava aquela linda mulher ao seu lado mais pela força da paixão legítima do que por qualquer tipo de pressão. Como o próprio escritor costumava definir, Helena Dolly era um encanto completo, o equivalente a um excelente e raríssimo perfume guardado dentro de um frasco deslumbrante. Ela era a inspiração em pessoa. Perto ou longe, aquela mulher causou um impacto de tamanha magnitude na vida de Narciso que o fez enxergar, pela primeira vez em anos, o que significava um amor de verdade, daqueles que arrebatam o corpo e a alma juntos. O Poeta tinha a certeza absoluta de que ela ficaria registrada para todo o sempre em seu coração e na sua mente.
E os versos que ele entregou a ela naquela manhã diziam assim:
A ESPERA
A espera
Altera o comportamento,
Martela o pensamento
De certa forma
Acerta, acelera
A espera
Alerta, um sim ou um não
Apreensivo ou compreensivo
De um amor,
Que é só você
E quem pode decidir,
Dividir ou desistir
A complicada,
E aplicada tarefa do entender
A espera
Que fadiga,
Maltrata, destrata e descarta
É cansativa,
Mas Só a paixão tem cacife
Como cacique para lutar
Pois
O maior inimigo da espera
É o tempo,
O pensamento
E o momento
Imprescindível, invisível e imprevisível
Que tortura
E tritura a base
Só a paixão pode vencer
Fazer e acontecer
Sem medo de gelo
Porque a espera
Supera, mas altera
Suprime,
Exprime e deprime
É uma droga
Sozinho falo comigo
Sozinho rasgo contigo
Sozinho me acerto por nós
Será que é certo?
A espera vale a pena?
Esperar,
Deveria ser como o Jazz?
Rápido e gostoso
Cheio de suspense,
Charme dance
Só a paixão vence
E convence
Estou aqui,
Mas estou ai
Parafuso, confuso
Assim deduzo
Jamais pensei
Que em milhas
E milhas rodadas
Iria ficar estagnado
Certo ou errado,
Está dedicado
Um tanto adocicado
Mas,
Sem perder o gingado,
Muito Obrigado…
Ass. Narciso "O Poeta"
O Autor.
*Os leitores gostando do romance Os Mistérios do Acaso? Fale um pouco sobre o Narciso e da Helena Dolly.
…. No próximo capítulo o Narciso o Poeta, vai fazer uma delicada revelação para a Helena, referente ao seu ex casamento.
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Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.
@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
opoetalk520.substack.com
pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com
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