Semanas se passaram.
A galeria continuava acordando cedo.
Às cinco da manhã, os zeladores trocavam de turno e as primeiras portas começavam a se abrir.
A primavera chegava devagar.
O frio paulistano já não era o mesmo, embora São Paulo insistisse em viver as quatro estações no mesmo dia.
Clarisse entrou na galeria como fazia todas as manhãs.
Algo chamou sua atenção.
Uma loja estava aberta.
Ou melhor...
Uma loja que ela jurava nunca ter visto aberta.
Era uma floricultura.
Ficava a poucos metros do ateliê.
"Será que sempre esteve aqui?", pensou.
Na vitrine, uma mulher organizava um arranjo.
Três rosas escarlates.
Vermelhas como sangue.
Ao lado delas, um pequeno broto recém-nascido.
A mulher ergueu uma tesoura.
Preparou-se para cortar o broto.
Mas sua mão parou no ar.
Ela começou a chorar.
Clarisse aproximou-se devagar.
— Olá... bom dia.
A mulher virou o rosto.
Os olhos estavam vermelhos.
— Bom dia...
— Está tudo bem? Precisa de ajuda?
A mulher olhou novamente para o broto.
A voz saiu quase num sussurro.
— Eu... perdi meu bebê.
A frase atingiu Clarisse como um soco silencioso.
Ela não encontrou nenhuma palavra.
Apenas segurou delicadamente o rosto da mulher, enxugou suas lágrimas e a abraçou.
Nenhuma das duas disse mais nada.
Naquele instante, Anton apareceu na entrada da galeria.
Ao perceber a cena, aproximou-se.
— Precisa de ajuda?
Clarisse levantou os olhos.
Anton reconheceu a florista.
Semanas antes, lembrava de vê-la passando pela galeria com a barriga já bem aparente.
Agora...
A barriga não estava mais ali.
Seu olhar passou pelas três rosas.
Depois pelo pequeno broto.
Por fim, pela tesoura ainda parada na mão da mulher.
Anton abaixou os olhos.
Não havia nada que pudesse dizer.
Algumas dores não diminuem com explicações.
Ele apenas permaneceu ali.
Em silêncio.
Às vezes, ficar é a única forma de dizer que ninguém precisa sofrer sozinho.
Clarisse deu um passo para trás.
Anton aproximou-se de Débora.
Abraçou-a com delicadeza.
Depositou um beijo em seus cabelos.
Nenhuma palavra.
Apenas o abraço.
Débora respirou fundo.
— Obrigada, Anton... você é demais.
Olhou para Clarisse.
— Vocês são demais.
Anton apenas sorriu.
Depois falou baixo:
— Débora... se precisar de qualquer coisa, estou aqui do lado.
Ela assentiu.
— Tudo bem...
Olhou para as rosas.
Para o pequeno broto.
Respirou fundo mais uma vez.
— A vida continua, né...
Naquele instante, o sistema de som da galeria começou a tocar "Amanhã", de Guilherme Arantes.
A música espalhou-se pelos corredores.
Débora voltou para dentro da floricultura sem dizer mais nada.
Anton e Clarisse permaneceram alguns segundos em silêncio.
Frente a frente.
Trocaram um olhar.
Anton quebrou o silêncio.
— Bom dia.
Ela sorriu de leve.
— Bom dia.
Ele apontou discretamente para a loja de discos.
— Quer tomar um café?
Clarisse olhou para o ateliê.
A porta ainda estava fechada.
Depois olhou para a barbearia de Iago.
Para o estúdio de Guillian.
As duas lojas continuavam fechadas.
Voltou os olhos para Anton.
— Linda ainda deve demorar um pouco...
Ele concordou com um gesto.
— Então?
Clarisse sorriu.
— Por que não?
Os dois caminharam em direção à loja de discos.
As chaves balançavam na mão de Anton, fazendo um leve barulho metálico.
Ele andava ao lado de Clarisse, com um discreto sorriso no canto da boca.
Parou diante da porta de aço.
Levantou-a.
Desligou o alarme.
Depois abriu a porta de vidro.
Deu um passo para o lado.
— Entra.
Clarisse entrou devagar.
Nunca tinha passado daquela porta.
Sentiu-se como Alice atravessando para outro mundo.
Anton sorriu, como se tivesse lido seus pensamentos.
— Siga o coelho branco.
Ela riu.
As luzes se acenderam.
A loja ganhou vida.
Anton ligou a cafeteira expresso.
— Escolhe uma cápsula. Tem vários sabores.
Clarisse abriu o pequeno organizador de cápsulas.
Passou os dedos pelas cores, lendo os nomes.
Escolheu um café de torra média.
Encaixou a cápsula na máquina.
A cafeteira fez um estalo metálico.
Logo o aroma começou a se espalhar pela loja, misturando-se ao cheiro de madeira, papel envelhecido e capas de vinil.
Enquanto o café passava, ela perguntou:
— Por que "Garimpo Discos"?
Anton colocou água na máquina.
— Era a loja do meu pai.
Ela levantou os olhos.
— E ele?
Anton sorriu com serenidade.
— Morreu.
Clarisse abaixou a cabeça.
— Desculpa... sinto muito, Anton.
Ele apenas deu de ombros.
— Tudo bem.
Sem perceber, começou a cantarolar baixinho a música que ainda ecoava da galeria.
— Amanhã será um lindo dia...
Clarisse permaneceu em silêncio.
Começou a caminhar entre as prateleiras.
Os dedos deslizavam pelas capas.
Parou.
Seus olhos brilharam.
— Nossa... você tem Sade!
Anton sorriu.
— Tenho.
— Linda...
Ela pegou o disco com cuidado.
— Parece que ela voltou a ficar em alta, né?
— É...
Anton encostou no balcão.
— Engraçado isso.
— Faz mais de dez anos que ela não lança um álbum.
— Verdade.
Clarisse passou os dedos pela capa.
— Dá uma nostalgia...
Anton sorriu.
— Sabe por quê?
Ela olhou curiosa.
— Por quê?
— Porque Sade não me lembra o passado.
Ela franziu a testa.
— Não?
Ele balançou a cabeça.
— Ela me lembra um momento.
Fez uma pequena pausa.
— Sabe quando você toma um banho demorado numa sexta-feira?
Clarisse apenas ouviu.
— Aí coloca aquela roupa que gosta...
Passa o perfume...
Respira fundo antes de sair.
Ainda nem chegou ao bar.
Nem encontrou ninguém.
Nem aconteceu nada.
Mas você sente que a noite inteira ainda é uma promessa.
Olhou para a capa do disco.
Sorriu.
— Isso é Sade pra mim.
Clarisse permaneceu em silêncio.
Anton concluiu, quase num sussurro:
— O melhor momento... é antes de tudo começar.
Clarisse e Anton permaneceram alguns segundos se olhando.
Sem pressa.
Sem desviar os olhos.
A cafeteira apitou.
Anton sorriu.
Pegou uma caneca nova da loja e colocou o café sobre o balcão.
— Seu café ficou pronto.
Clarisse segurou a caneca com as duas mãos.
Sentiu o calor.
Quando aproximou a borda dos lábios...
— Oi, Linda! Bom dia!
Ela levou um pequeno susto.
Virou-se.
Linda estava na porta do ateliê, olhando para os dois.
— Bom dia, Anton.
— Bom dia, Linda.
Ela sorriu para Clarisse.
— Vamos?
Clarisse fez um gesto afirmativo.
Foi nesse instante que Anton ouviu seu nome pela primeira vez.
— Clarisse... né?
Ela sorriu.
— Anton... né?
Os dois riram discretamente.
Anton apontou para a caneca.
— Pode levar. É cortesia da casa.
Clarisse olhou para a caneca.
— Ah... não precisa...
— Precisa, sim.
Ela acabou aceitando.
— Obrigada... pelo café... e pela caneca.
— Disponha.
Clarisse saiu ao lado de Linda em direção ao ateliê.
Anton não foi até a porta.
Permaneceu dentro da Garimpo Discos.
Apenas organizando algumas fichas de clientes, enquanto o aroma do café ainda permanecia no ar.
Anton organizava alguns discos distraidamente.
— Oi, booom dia!
Levou um susto.
— Calma... sou eu.
Era Iago.
Ele abraçou Anton por trás.
Anton sorriu.
Virou-se e deu um beijo na testa dele, seguido de um leve cheiro em seus cabelos.
Os dois apenas se olharam.
Silêncio.
Um cheiro de pão de queijo recém-assado invadiu a loja.
— Tô atrapalhando?
Era Guillian, parada na porta com um pacote de pão de queijo nas mãos.
Entrou sorrindo.
Abraçou os dois ao mesmo tempo.
— Bom dia!
Os três ficaram alguns segundos lado a lado.
Sem dizer nada.
Guillian foi direto para a cafeteira.
Ligou a máquina como se estivesse em casa.
— Ué... cadê as canecas novas?
Anton nem olhou.
— Acabaram.
— Como assim?
— Você levou todas.
— Eu não roubo...
Ela fez cara de inocente.
— ...eu pego emprestado.
Anton riu.
— Dá uma olhada no seu estúdio. Deve ter uma coleção escondida no meio daquela bagunça.
Iago entrou na brincadeira.
— A Gui não é folgada...
Fez uma pausa.
— ...ela está de férias.
Guillian deu uma gargalhada.
— Errado ele não tá.
Anton apenas sorriu de canto.
Estendeu a mão.
— Vai... me dá um pão de queijo.
— Não.
Ela abraçou o pacote.
— Tem problema!
— E o meu? — perguntou Iago.
Anton pegou um pão de queijo, partiu ao meio e entregou metade para Iago.
Guillian fingiu indignação.
Enquanto procurava uma caneca, perguntou:
— Cadê o resto?
Anton respondeu naturalmente:
— A última eu dei pra Clarisse.
Os dois pararam.
— Quem?
— Clarisse?
Anton continuou organizando os discos.
— A nova funcionária da Linda.
Iago e Guillian trocaram um olhar.
— E aí... como ela é? — perguntou Iago, curioso.
— É interessante? — perguntou Guillian, ainda mastigando.
Anton deu de ombros.
— Convidei ela pra tomar um café.
— E...?
— Ela estava consolando a Débora, da floricultura.
Os sorrisos desapareceram.
— A Débora perdeu o bebê.
Os dois ficaram em silêncio.
— Como assim? A barriga dela já estava enorme... — disse Iago, passando a mão na cabeça.
Guillian abaixou os olhos.
— Precisamos passar lá.
— Sim... nem sei o que dizer.
Anton interrompeu com calma.
— Esperem mais um pouco.
Os dois olharam para ele.
— Ela ainda está tentando voltar à rotina. Depois do almoço a gente passa lá.
Iago concordou.
— Tá certo.
Terminou o café.
— Bem, meus lindos... vou abrir a barbearia.
Já na porta, olhou para Anton com um sorriso malicioso.
— E você... cuidado.
Anton arqueou a sobrancelha.
— Por quê?
— Conversando com a Clarisse sem a gente...
Anton apenas balançou a cabeça.
Enquanto isso, Guillian encontrou uma caneca escondida no armário.
— Achei!
Preparou o café para ela mesma.
A cafeteira apitou.
Ela pegou a caneca, o pacote de pão de queijo e caminhou até a porta.
— Seu cretino... tomou café com ela sem a gente.
Saiu rindo.
Levando, mais uma vez, uma caneca da Garimpo Discos.
Anton observou a cena.
Suspirou.
Sabia que, no fim do dia, aquela caneca provavelmente nunca voltaria.
No ateliê.
— Nossa, esse Anton é fogo, hein?
— Que isso, Linda? Ele só foi simpático.
— Ah, tá...
Clarisse fica vermelha.
— Tô com inveja.
As duas riem.
— Tenho algumas sugestões do cliente sobre a coleção. Serão cinquenta peças, mas calma... sem pressa.
— As pesquisas estão me cansando. Estou há meses no Pinterest, parece que tudo ficou igual. Nem uso mais.
— Eu tenho outro site de referências, mas é pago. Só posso postar cem ideias por mês.
— Hum... deixa eu ver.
— Te mando no WhatsApp.
Clarisse pega a caneca da Garimpos Discos.
Dá o último gole.
O café já estava quase frio, mas ela olha para a caneca novamente e sorri.
Linda percebe.
— Tá vendo?
— Para, Linda!
O celular vibra.
Uma notificação.
Anton começou a seguir você no Instagram.
Clarisse olha surpresa.
Por alguns segundos, fica apenas observando a tela.
Então aperta:
Seguir de volta.
***
Aquela manhã passou devagar.
Clarisse olha pela janela do ateliê.
Lá fora, o jarro de flores.
As rosas escarlates.
O broto pequeno, mas vivo e forte.
Atrás delas, outras flores colocadas por Débora.
Ela pensa no filho que ela perdeu.
Que coisa triste.
Algo que nunca chegou a ser conhecido, mas que já fazia parte da vida de alguém.
A vida tinha dessas contradições.
Um broto nascendo.
Uma vida partindo.
Não existe como se proteger completamente do mundo.
Em algum momento, é preciso se jogar nele.
As três rosas vermelhas.
Anton.
Iago.
Guillian.
Tão intensos.
Tão delicados.
Talvez esse fosse o charme deles.
Rosas não são maçanetas de portas.
Você não segura uma rosa com força.
Você toca com cuidado, como quem respeita algo que não quer machucar.
Os espinhos estão ali.
Não precisam avisar.
São rosas.
Elas têm espinhos.
Somos jovens.
Estamos perdidos.
— Linda, você está sabendo da Débora, da floricultura?
— Não. Só sei que ela sumiu por algumas semanas.
— Ué, mas a floricultura está aberta.
— Nossa... nem reparei. Mas me conta, o que aconteceu? Sempre que começa assim é alguma morte?
Clarisse hesita.
— Ela perdeu o bebê.
Linda fica paralisada.
— Meu Deus... como assim? A gente fez até chá de bebê na galeria.
— Por isso o Anton falou com a gente. Parece que ele já conhecia ela há bastante tempo.
Linda leva a mão ao peito.
— Nossa... preciso tomar alguma coisa.
— Quer que eu faça um café? Uma água?
— Um café... não, água. Não... os dois.
Clarisse levanta.
Vai até a pequena pia e abre o armário onde ficam os cafés e os refis.
— Fiquei perdida com essa notícia.
— É... eu também. Foi um choque.
— Eu nem sabia o que dizer. Mas fiquei admirada com a forma como o Anton tratou ela.
— Como?
— Ele só abraçou. Ficou em silêncio. Não tentou falar alguma coisa para consertar. Apenas ficou ali.
Linda observa Clarisse.
— Ele é assim.
Faz uma pausa.
— No velório do pai dele, ele nem foi. Não queria encontrar a mãe.
Linda percebe o que acabou de dizer.
— Ops... contei uma fofoca.
— Tudo bem. Uma notícia dessas assusta.
Clarisse recebe mais uma informação que não veio da boca de Anton.
Primeiro, a perda da Débora.
Agora, a dor dele.
Anton parecia carregar espinhos grandes demais.
Sua melancolia assustava.
Mas também fascinava.
Porque, por trás daquele silêncio, havia algo que tocava as pessoas.
— Clarisse, não conta que eu falei isso.
Linda abaixa a voz.
— Eu odeio fofoca... faço às vezes, mas essa é pesada.
Ela olha para a porta da galeria.
— Pobre Anton.
A cafeteira apita.
Clarisse serve o café para Linda e coloca um copo de água ao lado.
— Como é difícil permanecer em algo que também nos causa feridas... — diz Linda, olhando para a floricultura de Débora.
Ela fica alguns segundos em silêncio.
— Acho que precisamos ser como as rosas. Mostrar nossos espinhos sem perder a beleza.
Ela fala mais para si mesma do que para Clarisse.
Clarisse fica pensativa.
Passa os dedos pela caneca que ganhou de Anton.
Linda toma um gole de café e depois bebe a água, ainda confusa com tudo.
Clarisse apenas observa enquanto pesquisa referências no notebook.
Ela se espreguiça e olha ao redor do ateliê.
Alguns manequins cobertos.
Outros com retalhos e tecidos de referência.
Uma prancheta de desenhos.
No canto, uma mesa digitalizadora com uma caneta.
Lá fora, um burburinho cresce na galeria.
Uma garota entra.
Era Ela.
Vai direto para a barbershop.
— Ela? Meu Deus... por favor, não quebra nada! — diz Iago, assustado.
Ela olha para ele.
— Não, Iago. Eu não vim brigar. Vim entender vocês.
Iago respira aliviado.
Pega uma cadeira.
— Ufa... senta. Quer um café? Uma água? Um suco? Sei lá... uma massagem?
Ela ri um pouco, mas a ansiedade ainda está no rosto.
— Vou chamar o Anton e a Guillian. Tudo bem?
— Tudo bem.
Iago sai como uma flecha em direção à loja de discos.
Entra na Garimpos Discos.
Anton leva um susto.
— Venha comigo agora.
— Como assim?
— E fica quieto.
Anton franze a testa.
— Iago...
Mas ele já estava puxando ele.
***
Na barbershop.
Anton vê Ela.
— Ela... tudo bem?
Ela olha para ele com os olhos marejados.
Abraça Anton.
Ele segura ela com cuidado e limpa uma pequena lágrima do rosto dela.
Iago observa.
— Vou buscar a Gui.
Faz uma pausa.
— Mesmo que eu tenha que derrubar aquele estúdio.
Iago sobe as escadas.
— Por que ela não tem uma loja no térreo? — reclama.
Bate na porta do estúdio.
Nada.
Bate novamente.
Um barulho vem de dentro.
A porta abre.
Guillian aparece.
— Tá maluco? Tá doidão?
— Cala a boca. Vai descer agora.
Ela muda a expressão.
— Ela está aqui.
Guillian fica séria.
— Não. Não vou.
— Você tem que encarar também.
— Iago...
— Nem que eu tenha que te carregar até lá.
Guillian faz uma expressão de medo.
Mas cede.
***
Na barbershop.
Anton olha para Ela.
— O que aconteceu?
Ela respira fundo.
— Eu nem sei o que dizer.
Pausa.
— Eu não sou inocente, Anton. Eu também tenho responsabilidade nisso.
Anton abaixa os olhos.
— Sim.
Ela encara ele.
— Você assustou todo mundo. A gente gosta de você, mas o grupo ficou abalado.
— Mas eu pensei que...
— Eu sei.
Anton olha para ela.
— Poderíamos.
Silêncio.
— Mas você forçou.
Ela abaixa a cabeça.
— Eu saí ferida.
Anton fica em silêncio por alguns segundos.
— Foi como aquela planta que roubamos da praça porque você queria.
Ela olha para ele.
— Ela morreu quando tiramos de onde pertencia.
Ela abraça Anton.
***
Iago entra com Guillian.
Ela vê Ela.
Guillian para.
Dá um passo para trás.
Iago segura sua mão.
— Desculpa, Guillian.
Ela olha para ele.
— Eu não deveria ter feito aquilo.
Guillian permanece em silêncio.
— Não deveria ter te ameaçado com aquele estilete no estúdio.
O rosto de Guillian muda.
Ela lembra.
Aquilo poderia ter acabado muito mal.
Era uma situação para polícia.
Iago conduz Guillian devagar.
Ela ainda está com medo.
Mas vai.
Abraça Ela.
— A culpa também foi minha.
Pausa.
— Eu fui uma moleca.
Ela tenta responder.
Guillian coloca a mão no rosto dela com cuidado.
— Não fala nada. Passou.
Iago abraça as duas.
Anton continua parado.
Observando.
Iago olha para ele.
— Vai ficar olhando?
Anton suspira.
— Tá...
Ele se aproxima.
Os quatro se abraçam.
***
Na porta da barbershop, Clarisse e Linda observam a cena.
Elas tinham saído para almoçar.
Linda olha para Clarisse.
Faz uma expressão como quem pergunta:
"Como eu vim parar no meio disso?"
Clarisse sente o peso daquele momento.
Parece que uma parte dela queria ficar ali.
Mas havia algo pesado no ar.
Elas se afastam em silêncio.
Ela enxuga as lágrimas.
— Por que vocês são assim?
Os três se entreolham.
Iago dá de ombros.
— Nem eu sei.
Ela sorri de canto.
— Iago... eu preciso pagar o prejuízo da barbershop.
— Não precisa. A gente deu um jeito.
— Mas...
— Não fala mais nisso. Eu não guardo rancor...
Olha para Anton.
— Só ele.
Anton faz uma cara feia.
Guillian ri.
Até Ela ri, ainda chorando.
Respira fundo.
— Por que vocês ainda são tão amáveis comigo... depois de tudo o que eu fiz?
Iago responde primeiro.
— Porque a gente também erra.
Silêncio.
— O Anton é chatão.
Guillian sorri.
— Eu sou muito legal...
Olha para Guillian.
— E a Gui... é a Gui.
— Ah, vai! — Guillian empurra o braço dele.
Eles riem.
A tensão diminui.
Mas Ela continua séria.
— Eu não consigo me perdoar.
Anton olha para ela.
— Não se torture.
Faz uma pausa.
— Eu também não me perdoo por muita coisa.
Ela abaixa os olhos.
— Eu entendo.
Anton sorri de leve.
— A diferença é que algumas das minhas não têm solução.
Guillian imediatamente segura a mão dele.
— Não fala assim.
Olha firme nos olhos dele.
— Divide esse peso comigo.
Iago coloca a mão no ombro de Anton.
— Com a gente.
Ninguém diz mais nada.
Os quatro saem da barbershop.
No centro da galeria havia um banco de madeira cercado por um pequeno jardim.
Os três caminham lado a lado, abraçados.
Ela para alguns passos atrás.
Observa aquela cena como quem olha um quadro.
Imperfeito.
Marcado.
Mas bonito.
Sorri entre as lágrimas.
— Nem somos amigos...
Faz uma pausa.
— Nem inimigos...
Outra pausa.
— Só estranhos que compartilham memórias.
Ninguém responde.
Porque todos sabiam.
Aquele grupo não duraria para sempre.
E justamente por isso, cada lembrança importava.
Ela acena discretamente.
Vai embora.
Doía deixar aquele lugar.
Mas, às vezes, maturidade não era insistir em permanecer.
Era reconhecer quando o carinho precisava continuar sem posse.
E seguir em frente.
Linda e Clarisse seguem pela Rua Augusta.
Param no sinal.
— Deixa eu te contar... quem estava na barbershop era a Ela.
— Nossa... eu vi. Que olhos...
O semáforo abre.
As duas atravessam a faixa.
Um rapaz entrega panfletos de um novo empreendimento imobiliário.
Linda pega um.
Clarisse também.
Linda olha o folheto e sorri de lado.
— Agora virou moda comprar casarões antigos da Augusta e levantar prédio novo.
Clarisse observa a imagem.
— Jardim vertical...
— Dizem que diminui o impacto ambiental.
Ela vira o panfleto.
— Três quartos em sessenta metros quadrados.
— Área gourmet.
Linda ri.
— Paredes mais finas... gaiolas individuais.
Clarisse sorri.
— Mas parece bonito.
Linda olha os prédios antigos da rua.
— Bonito até é.
Faz uma pausa.
— Só que tudo está mudando.
Respira.
— Se a Augusta não existisse, metade de São Paulo ainda seria virgem.
Clarisse ri.
— Mas a Augusta também já não é mais a mesma.
Entram no Restaurante Beco.
O garçom ajeita a mesa.
As duas se sentam.
— Vou querer um omelete com fritas e uma água sem gás.
— Para mim, filé de frango e água com gás.
— Já trago para vocês.
O garçom se afasta.
Linda sorri.
— Gostei desse "para vocês". Antes era "moço"...
As duas riem.
Clarisse apoia os braços na mesa.
— Agora conta da Ela.
Linda suspira.
— Não é fofoca.
Faz uma pausa.
— Eu vi tudo.
— O que aconteceu?
— Ela andava com eles direto.
Olha pela janela.
— Era bonito de ver.
Sorri.
— Juventude...
Clarisse espera.
— Só que ela pareceu não entender a dinâmica entre eles.
— Como assim?
— Ela entrou no estúdio da Guillian completamente alterada.
Dizia que amava os três.
Anton.
Iago.
Guillian.
Clarisse franze a testa.
— E depois?
— A Guillian se assustou.
Ela pegou um estilete para se defender furar Gullian.
A galeria inteira entrou em pânico.
Nesse momento o garçom chega com os pratos.
Coloca tudo sobre a mesa.
— Bom apetite.
— Obrigada.
O garçom se afasta.
Clarisse olha para Linda.
— Continua.
— A Guillian correu para o meu ateliê.
Entrou desesperada.
Nós trancamos a porta.
A Ela gritava do lado de fora.
Parecia fora de si.
Os olhos...
Linda balança a cabeça.
— Nunca vou esquecer aqueles olhos.
— Que medo...
— Eu ia chamar a polícia.
Clarisse fica em silêncio.
— Mas o Anton e o zelador da galeria conseguiram acalmar ela.
Anton me pediu para não ligar.
Disse que eles resolveriam aquilo entre eles.
— E resolveu?
Linda corta um pedaço do omelete.
— Resolveu...
Dá um sorriso discreto.
— Mas ninguém ali saiu inocente.
As duas ficam em silêncio por alguns segundos.
Clarisse olha para o prato.
Linda quebra o clima.
— Agora chega.
Sorri.
— Vamos comer antes que esfrie.
Após a despedida de Ela, o silêncio dura apenas alguns segundos.
Anton quebra o clima.
— Bora comer?
Guillian abre um sorriso.
— Pizza!
Iago levanta a mão.
— Bora!
Os três seguem pela parte baixa da Rua Augusta.
Passam por brechós.
Casas noturnas ainda fazendo faxina.
Bares recebendo caixas de bebidas e mercadorias.
O cheiro das chapas já anuncia os primeiros sanduíches.
Garçons gritam pedidos.
A Augusta desperta.
A calçada estreita obriga os três a caminharem quase lado a lado.
O sol do meio-dia é forte.
Mas basta entrar na sombra dos prédios para sentir um friozinho típico de São Paulo.
Cartazes de lambe-lambe cobrem os muros.
Guillian observa uma fachada de balada fechada.
— É estranho ver as baladas de dia, né?
Abraçada em Iago, ela continua olhando a rua.
— A luz revela quem somos de verdade.
Iago sorri.
— Nossa... tá poética.
Olha para ela.
— Quer que eu tatue essa frase?
— Quem sabe um dia.
Os dois encostam os narizes e riem.
Anton apenas segue caminhando.
Em silêncio.
Iago olha os letreiros das casas noturnas.
— De Leon...
Outra.
— Blitz...
Mais à frente.
— Sarajevo...
Olha para Anton.
— Quando você toca na De Leon de novo?
— Talvez essa semana.
Dá de ombros.
— Ou na outra.
— Aí eu quero entrada VIP.
Anton ri.
— Vou ver. Nem recebi o e-mail do promoter ainda.
— Mas você vai tocar aquela música que eu gosto, né?
Anton olha para ele.
— Iago... não se pede música para DJ.
Guillian entra na brincadeira.
— Mas você não é um DJ.
Faz pose.
— Você é o DJ.
Anton lança um olhar cínico.
— Se eu fosse tatuador, também não deixava a Gui tatuar qualquer coisa.
Guillian solta um grito exagerado.
— Dããã!
Anton ri.
— E você...
Olha para Iago.
— Só não vai levantar o dedinho pra cima, olhando para o teto, segurando um drink.
Iago coloca a mão no peito.
— Mas eu sinto a música.
— Eu arrepio inteiro.
Guillian ri.
— Eu sei.
Põe a mão no braço dele.
— Porque eu arrepio junto.
Os três entram na pizzaria.
Sobem para o mezanino.
Lá de cima, a Augusta parece outra.
A rua continua barulhenta.
Mas dali, tudo parecia acontecer um pouco mais devagar.
Os três fazem o pedido.
Uma pizza grande para dividir.
Enquanto esperam, Anton permanece distante.
Iago percebe.
— Tá quieto, Anton.
Ele suspira.
— A manhã foi cheia.
— A Débora...
Guillian abaixa os olhos.
— Perder um bebê...
Iago completa.
— E ainda teve a Ela.
Anton faz um pequeno sorriso.
— E vocês esqueceram da Clarisse.
Guillian ri.
— Verdade.
— Gostei dela.
— Curiosa.
O silêncio volta por alguns segundos.
Iago quebra o clima.
— Ainda fiquei pensando na Débora.
— É injusto.
Anton concorda.
— Nove meses cultivando uma vida dentro de você...
Ninguém sabe o que dizer.
Anton olha para Guillian.
— Você pensa em ter filhos um dia?
Ela sorri de canto.
— Não sei.
Olha para os dois.
— Mal sei cuidar de mim.
— Vocês já cuidam de mim.
Iago sorri.
— E sua mãe?
— Continua uma fofa.
— Sendo mãe em tempo integral.
Anton abaixa os olhos.
— Tenho inveja de você, Gui.
O silêncio pesa.
Os três conheciam a relação difícil que Anton tinha com a própria mãe.
Guillian segura a mão dele sobre a mesa.
— O cuidado que faltou para você...
Ela aperta de leve a mão dele.
— Você deu para nós.
Anton apenas sorri.
Nesse instante, a garçonete chega equilibrando uma pizza.
— Com licença... a pizza de vocês.
Ela coloca sobre a mesa.
Iago olha.
— Acho que não foi essa que a gente pediu.
A garçonete empalidece.
A respiração acelera.
— Meu Deus... desculpa... eu...
Ela tenta falar, mas falta ar.
Guillian percebe imediatamente.
Levanta um pouco da cadeira.
— Moça...
Sorri com delicadeza.
— Senta um pouquinho.
Ela hesita.
— Sua ansiedade atacou, não foi?
Anton empurra um copo de água em direção à garçonete.
Sem dizer nada.
Ela aceita.
As mãos tremem.
Iago sorri.
— Relaxa.
Olha para a pizza.
— A gente fica com essa mesmo.
— Não precisa trocar.
A garçonete encara os três.
— Tem certeza?
— Claro.
Iago dá de ombros.
— Quem nunca errou?
Sorri.
— Ainda mais errando com pizza.
A garçonete ri pela primeira vez.
A tensão desaparece.
— Obrigada...
Ela respira fundo.
— De verdade.
Anton pega o primeiro pedaço.
— Agora senta não...
Olha para a pizza.
— Porque ela vai esfriar.
Os quatro riem.
A garçonete volta ao trabalho um pouco mais leve.
Na galeria.
Débora segura o vaso.
As três rosas escarlates.
O pequeno broto.
Ela ergue a tesoura.
Respira.
Tenta cortar.
Mas para.
Atrás dela.
Iago.
Guillian.
Anton.
Iago sorri.
— Trouxe uns doces pra você.
Guillian abre os braços.
— E um abraço.
Débora sorri pela primeira vez naquele dia.
Iago a abraça.
Guillian abraça logo em seguida.
Chora por ela.
Anton observa alguns segundos.
Iago estende a mão.
— Vem, Anton.
Ele se aproxima.
Os quatro permanecem abraçados.
Sem pressa.
Nenhuma palavra.
Só o perfume dos três jovens misturado ao cheiro das flores.
Débora não chora.
Guillian chora por ela.
O abraço parece dizer tudo o que ninguém conseguia colocar em palavras.
Alguns metros dali.
Clarisse presencia a cena.
Fica imóvel.
Os quatro juntos.
Havia algo difícil de explicar.
O jeito silencioso de Anton.
A alegria de Iago.
A espontaneidade de Guillian, chorando sem vergonha.
Era bonito.
Mas também doía.
Como uma rosa.
Ela percebe a tesoura ainda na mão de Débora.
Quase sem pensar, diz:
— Débora...
Todos olham para ela.
— Não corta o broto.
Faz uma pausa.
— Eu quero esse vaso.
Débora olha para as flores.
Sorri de leve.
— Eu embalo.
Passa os dedos pelas pétalas.
— Essas rosas não me deixam em paz.
Ela entra na floricultura.
Anton cruza o olhar com Clarisse.
Um aceno quase imperceptível.
Guillian se aproxima dela.
Curiosa.
Como uma criança.
Olha nos olhos de Clarisse.
Sorri.
— Oi...
Clarisse sorri de volta, sem jeito.
Iago também se aproxima.
— Obrigado por ter ficado com a Débora nessa manhã.
— Foi de coração.
Clarisse sente os três ao redor.
Não como um cerco.
Mas como um acolhimento.
Era estranho.
Ela se sentia vista.
Sem precisar provar nada.
Pensou, pela primeira vez:
"Meu Deus... como é bom ser notada pelo que eu sou."
Débora volta com o vaso cuidadosamente embalado.
— Pronto.
Entrega para Clarisse.
— Pode levar.
Sorri.
— Depois você me paga.
Olha para o broto.
— Elas vão sobreviver ao transporte.
Clarisse segura o vaso com cuidado.
Como quem segura alguma coisa muito maior do que flores.
— O-obrigada... Débora.
Anton olha para Clarisse.
Sem rodeios.
— Quer sair com a gente?
Clarisse sente a boca secar.
Por um instante, nenhuma resposta aparece.
Iago entra no silêncio.
— Vai ser bom.
Sorri.
— Ou o mais perto disso que a gente consegue.
Guillian já se anima.
— Vamo!
Bate palmas baixinho.
— Vamo, vamo, vamo!
Clarisse permanece imóvel.
Como se alguém tivesse acabado de ler um desejo que ela nunca contou para ninguém.
Guillian percebe.
— O Anton vai tocar na De Leon.
Abre um sorriso.
— Bora com a gente?
Iago se aproxima um pouco.
— Só não fala "não", tá?
Faz cara de drama.
— Tenho trauma de levar bolo.
Ainda mais de gente bonita.
Clarisse ri pela primeira vez.
Respira fundo.
— Sim.
Guillian solta um gritinho.
— Perfeito!
Ela abraça Iago.
Os dois comemoram como crianças.
— Ela vai!
— Ela vai!
Anton apenas sorri.
Discretamente.
Cada um segue para sua loja.
Clarisse permanece parada por alguns segundos.
Na cabeça dela passam imagens soltas.
O apartamento de janelas grandes.
O Mefi.
O violão.
Os discos.
Os pufes espalhados pela sala.
As conversas.
As noites.
Respira.
"Meu Deus..."
"Tô perdida."
Ela se vira em direção ao ateliê.
Linda havia deixado a chave com ela.
Caminha devagar.
Sem olhar para trás.
O celular vibra.
Uma notificação.
Ela desbloqueia a tela.
Iago começou a seguir você.
Logo abaixo.
Guillian começou a seguir você.
Clarisse para.
Olha para trás.
Anton já vai alguns passos à frente.
Nem percebe.
Iago e Guillian ainda estão na porta.
Os dois acenam.
Mandam um beijo no ar.
Clarisse abaixa os olhos por um segundo.
Sorri.
Aceita as duas solicitações.
E continua caminhando.