Carregando…

Capítulo 4: Quer Permanecer

aleroz
Pública 0 conversa 0 pensamento 32 votos positivos 0 voto negativo 1 série

A manhã chegou fria.

Em séries

In groups

Conteúdo da publicação

A manhã chegou fria.

Clarisse abriu os olhos devagar.

Ainda não estava acordada completamente.

O vento atravessava o quarto.

As cortinas batiam contra a parede em pequenos golpes secos.

Ela ficou alguns segundos ouvindo.

Vento.

Então percebeu.

A janela.

O som da chuva da noite anterior voltou na memória.

Ela pegou o celular.

06:05.

A tela iluminou seu rosto cansado.

Ela fechou os olhos novamente.

Por um instante, tentou voltar a dormir.

Até lembrar.

As rosas.

Clarisse levantou rápido demais.

Correu pelo corredor.

O chão estava molhado.

Seu pé escorregou.

Ela quase caiu.

Quando chegou à sala, parou.

O mundo ficou em silêncio.

A janela estava aberta.

A chuva tinha entrado.

A sala estava coberta de água e lama.

E no canto...

O vaso.

Caído.

As rosas espalhadas pelo chão.

Encharcadas.

Quebradas.

— Não...

Ela se aproximou.

— Não, não, não...

Pegou o vaso com as duas mãos.

Como se segurasse alguém.

— Minha plantinha...

Mas era tarde.

O barro escorria entre seus dedos.

O vaso escapou.

Caiu.

O som da cerâmica quebrando pareceu maior que a própria sala.

As rosas estavam ali.

Separadas.

Sem força.

Sem vida.

Clarisse caiu de joelhos.

Pegou uma delas.

— Não morre...

Sua voz tremia.

— Iago... Guillian... Anton...

Ela falava os nomes como uma oração.

Como se cada nome fosse uma raiz tentando prender aquilo no mundo.

Levou as rosas para a pia.

Abriu a torneira.

Tentou limpar.

Tentou salvar.

Mas quanto mais mexia, mais pétalas caiam.

Quanto mais tentava juntar, mais se desfazia.

Os espinhos entravam em sua pele.

Pequenas gotas vermelhas misturavam-se à água.

Ela apertou as rosas.

— Não...

Mais um espinho.

Mais dor.

Ela continuou.

— Burra...

Outro espinho.

— Burra...

As lágrimas começaram.

— Eu sempre estrago tudo...

Ela olhou para as próprias mãos.

Sangue.

Cortes.

As rosas destruídas.

Tudo aquilo que ela tentou proteger estava indo embora.

E pela primeira vez ela percebeu:

Os espinhos nunca odiaram ela.

Nunca quiseram machucá-la.

Eles apenas eram espinhos.

Ela caiu no chão da cozinha.

Abraçou as rosas quebradas.

O sangue escorria pelos dedos.

O frio da manhã entrou pela janela aberta.

E Clarisse gritou.

Os espinhos não julgam. Só machucam.


***

Na galeria.

Clarisse está sentada na mesa, rabiscando em silêncio.

As mãos estão enfaixadas.

Alguns arranhões vermelhos ainda aparecem entre os curativos.

Ela está séria, distante.

Linda se aproxima e coloca um café sobre a mesa.

— Obrigada, Linda.

Linda observa por alguns segundos.

— Quer conversar?

Clarisse continua olhando para o papel.

— Não.

A resposta sai seca.

Linda olha para as mãos dela.

— Mas essas marcas...

Clarisse tenta segurar.

Não consegue.

Os olhos enchem de lágrimas.

— Eu não consigo cuidar de rosas.

Silêncio.

— Se eu não sou capaz de cuidar de rosas... imagina ter filhos. Imaginar cuidar deles.

Linda não responde.

Apenas se aproxima e abraça Clarisse.

Nenhuma das duas fala.

Apenas ficam ali.

Depois de alguns segundos, Linda se afasta.

— Eu não vou te perguntar nada.

Coloca a mão sobre a mesa.

— Só toma o café que eu acabei de fazer.

Clarisse pega a caneca com as duas mãos enfaixadas.

A caneca do Garimpos Discos.

O presente de Anton.

Ela segura como se fosse algo frágil.

— Eu estou com um problema.

Pausa.

— Mas vou resolver hoje.

Linda observa.

— São os três?

Clarisse balança a cabeça.

— Não.

Olha para a caneca.

— Eles são demais...

Linda sorri levemente.

— Eu sei.

Ela olha ao redor da galeria.

— Mas não dá para esconder, sabe?

Clarisse olha para ela.

— A galeria inteira percebeu vocês. Não pelo que vocês falam... mas pelo jeito que vocês olham uns para os outros.

Linda se aproxima da janela.

Fica observando a rua.

— Às vezes eu sinto uma inveja absurda dessa juventude.

Clarisse escuta.

— Olha para vocês...

Linda aponta discretamente para fora.

— Cheios de sonhos, medo, erros, ansiedade...

Pausa.

— E eles três ainda estão procurando alguma coisa.

Ela respira.

— Mas, ao mesmo tempo, parecem ter encontrado algo que muita gente passa a vida inteira tentando achar.

Clarisse fica em silêncio.

— O que vocês têm...

Linda olha para ela.

— A maioria das pessoas nunca consegue.

Pausa.

— É tanto afeto falso, tanto carinho com açúcar, que uma hora enjoa.

Ela sorri triste.

— A gente passa a vida tentando ser amado. Fazendo o máximo. Dando tudo.

Olha novamente pela janela.

— E mesmo assim, às vezes, parece que não é suficiente.

Silêncio.

— Mas vocês três são diferentes.

Linda volta para a mesa.

— Só não esquece de uma coisa...

Ela toca a caneca.

— Até as coisas mais bonitas precisam enfrentar o tempo.

Pausa.

— O tempo vence todo mundo.

Clarisse abaixa os olhos.

Linda sorri.

— Ninguém muda. Só acrescenta.

— Mas, por enquanto... fica.

— Fica e suporta.

Clarisse olha para o relógio de ponteiros na parede.

Fica observando.

O movimento dos segundos.

Rápidos demais.

O tempo vence todo mundo.

Linda percebe.

— Quer folgar hoje?

Clarisse olha para ela.

— Você volta segunda-feira.

Clarisse respira fundo.

— Não precisa.

Pausa.

— Eu vou resolver hoje.

Linda sorri.

— Isso.

Ela pega a xícara.

— Coragem é isso. Seguir mesmo com medo.

Olha para Clarisse.

— Para o que der e vier.

Pausa.

— No fim, dando certo ou não, você ganha tempo. E quando resolve algo que estava preso dentro da gente... fica mais leve.

Linda se levanta.

— Eu não quero saber o que está acontecendo. É muito íntimo.

Sorri.

— Mas se quiser conversar... eu estou aqui, tá?

As duas riem.

***
Ainda na galeria.

Anton estava em sua loja.

Discos raros ocupavam as prateleiras e vitrines, cada um com sua história, sua poeira invisível, sua pequena mitologia.

Mas havia um que sempre roubava o silêncio do lugar.

Paêbirú (1975).

O disco mais raro e valioso do Brasil.

A cópia que pertencera ao pai de Anton já tinha aparecido na televisão, em reportagens, na internet. Gente de todo canto ia até a Garimpos Discos apenas para vê-lo.

Olhar.

Ficar alguns segundos em silêncio.

E ir embora sem tirar uma única foto.

Havia algo quase sagrado naquele vinil.

Uma mística que nem Anton gostava de explicar.

Naquela tarde, entrou um cliente que ele já conhecia bem.

O tipo de pessoa que aparecia toda semana, mexia em tudo, fazia perguntas demais e nunca comprava nada.

O cliente parou diante do Paêbirú.

Observou a capa.

Depois olhou para Anton.

— Você acha que som de vinil é melhor que MP3?

Anton ergueu os olhos lentamente.

— Depende.

— Depende de quê?

— De quem está ouvindo. O vinil pode parecer melhor por causa da nostalgia, do ritual, da capa grande nas mãos. Tem o groove da agulha, os pequenos chiados, aquele ar artesanal.

O cliente cruzou os braços.

— Mas e o MP3?

— O MP3, o WAV, qualquer formato digital bem feito... é limpo. Não tem ruído, não tem estalo, não tem chiado. Às vezes, a gente estranha justamente porque nossa primeira referência emocional foi o vinil.

O homem franziu a testa.

— Então vinil não é melhor?

Anton deu de ombros.

— É pessoal. Imagina alguém que nunca ouviu um vinil na vida e cresceu ouvindo só música digital. Talvez essa pessoa odiasse o vinil por causa dos chiados.

O cliente ficou em silêncio.

Um silêncio curioso.

Como se um software antigo estivesse tentando atualizar uma informação que nunca tinha processado.

Anton sorriu por dentro.

Sabia reconhecer os chatonildos frustrados: aqueles que julgavam tudo porque tinham medo de permitir a si mesmos o direito de errar.

O cliente mudou de assunto.

— Você tem Grandmaster Flash?

Anton abriu os braços, apontando discretamente para a loja inteira.

— Ué, não entendi.

— Você sabe o nome da loja?

— Sei.

— Garimpos Discos.

O cliente assentiu, ainda confuso.

Anton sorriu.

— Então garimpe. Procure. É gostoso fazer isso.

O homem fungou, claramente contrariado.

Deu mais uma olhada no Paêbirú.

E foi embora sem comprar nada.

Anton saiu da loja com a sensação de dever cumprido. Não porque tivesse vendido alguma coisa, mas porque o cliente pentelho finalmente tinha ido embora.

Do outro lado da galeria, olhou para a Barbearia Augusto's.

Iago estava na porta, com uma expressão que dizia claramente: venha falar comigo, mas não toque nos meus espinhos.

Anton atravessou a calçada e parou na entrada.

— Por que essa cara de cu?

Iago ergueu uma sobrancelha.

— Cara de cu tem sua mãe!

Os dois ficaram sérios por um segundo.

Depois caíram na risada.

Anton balançou a cabeça.

— Pior que é verdade.

Iago apontou para dentro da barbearia.

— Bora conversar?

— Bora.

Iago mostrou a poltrona.

Anton sentou.

No segundo seguinte, Iago apertou o pedal.

A cadeira desceu rápido demais, dando pequenos solavancos.

Anton levou um susto.

Um frio na barriga.

— Iago! Você quer tomar um café, uma água ou vergonha na cara?

Os dois riram.

O riso durou pouco.

Iago passou a mão no rosto, como quem tentava organizar os pensamentos.

— Seu avô, né? Aquele escroto?

Iago assentiu.

— Sim.

Silêncio.

— Não sei por que me importo tanto com ele — disse Iago, olhando para o chão. — Acho que nessa parte eu puxei ele. Amo café sem açúcar.

Anton sorriu de canto.

— Sei. Você nunca precisou dele. E mesmo assim cuida dele.

Iago respirou fundo.

— Sim. O neto que ele mais odeia.

Pausa.

— Abandonado por quem ele mais amava.

Anton se levantou devagar.

Ficou de frente para o amigo.

— Você deu dignidade a ele, Iago. Isso importa.

Iago desviou o olhar.

— Sim... mas machuca.

— Eu sei.

Pela primeira vez, Anton viu Iago sem uma resposta criativa.

Sem piada.

Sem sarcasmo.

Sem uma saída elegante.

Só um homem cansado.

Anton colocou a mão no ombro dele.

— Ele talvez nunca entenda quem você é.

Iago fechou os olhos por um instante.

Anton continuou, baixo:

— Não dá pra mudar alguém de uma casa jogando ela pela janela.


***

Na floricultura no meio da tarde, Débora olhou para o tempo.

Olhou para a própria barriga.

Vazia.

Sem o filho que perdeu.

Não havia explicação.

Não havia culpados.

Ela seguiu todas as regras de um pré-natal.

Tomou as vacinas.

Cuidou da alimentação.

Respeitou a rotina de uma gestante.

Ela, que sabia mexer com plantas, sabia como elas cresciam.

Sabia quando davam frutos.

Quando floresciam.

Plantou a sua.

Arou a terra.

Colocou adubo.

Lançou sementes.

E esperou.

Cresceu.

Deu expectativas.

O tempo era bom.

Choveu.

E não deu.

O óbvio não deu certo.

Não era para acontecer.

Ninguém errou.

Mesmo tendo feito tudo o que era possível.

Débora lembrou de uma música.

“Pedaço de Mim.”

“Saudade é arrumar o quarto de um filho que já morreu.”

Ela fechou os olhos.

Fez todo o ritual.

Velório.

Enterro.

Despedida.

Mas a dor não obedecia a rituais.

Uma esperança não é uma semente.

É a força que nos move em busca de consistência.

Uma oportunidade perdida, um infortúnio, não tornam a terra infértil.

A terra continua fértil.

A esperança continua debaixo dos nossos pés, esperando novas sementes.

Linda apareceu na porta da floricultura.

— Oi, Débora. Bom dia.

— Oi, Linda...

— Quer conversar? Tomar um café?

— Não, obrigada.

Linda percebeu o peso no silêncio, mas não insistiu.

Débora ergueu os olhos.

— Linda, deixa eu te perguntar uma coisa.

— Diga.

— Você tem filhos?

Linda pensou por alguns segundos.

— Não tenho, infelizmente. Tive um tumor no útero e precisei retirá-lo.

Débora ficou em silêncio.

Linda sorriu, pequeno, quase triste.

— Não se preocupe. Eu nunca quis muito ser mãe. Me contento com minhas sobrinhas.

Débora abaixou os olhos para as flores.

— Às vezes, uma mãe ausente é melhor do que uma mãe ruim presente, né?

— Claro — respondeu Linda, com delicadeza. — A gente pode ter esse desejo, mas não como obrigação. Quando falta algo em nós, às vezes damos aos outros aquilo que gostaríamos de ter recebido: atenção, cuidado, carinho.

Ela sorriu de novo.

— É isso que faço com minhas sobrinhas.

Linda saiu em direção ao ateliê.

Débora ficou sozinha entre as flores.

E, pela primeira vez naquela manhã, percebeu que a terra ainda estava ali.

Esperando.



***

Anton, Guillian e Iago esperaram Clarisse aparecer.

Mas eles entendiam.

Talvez mais do que qualquer pessoa.

Eles não sentiam pena.

Eles não queriam salvá-la.

Eles apenas estavam ali.

Porque eles também tinham suas próprias feridas.

E tinham uns aos outros.

No fim da tarde.

Iago estava na barbearia.

Limpava o balcão distraído.

A porta de entrada abriu.

Uma sombra apareceu.

Ele não percebeu.

Até olhar.

— Meu Deus, menina!

Ele solta o pano.

— Você está cuidando de uma onça em casa?

Clarisse fica parada.

Iago olha melhor.

As faixas.

Os arranhões.

O rosto cansado.

A expressão dele muda.

— Clarisse...

Ele se aproxima.

— Senta aqui.

Pega uma das cadeiras da barbearia.

Ela senta.

Iago aperta o pedal para abaixar a cadeira.

Ela desce lentamente.

Ele percebe o movimento estranho e começa a rir.

— Desculpa.

Ele segura o riso.

— Foi falta de sensibilidade minha.

Pela primeira vez naquele dia, Clarisse esboça um pequeno sorriso.

Iago apoia as mãos no balcão.

— Quer café?

Pausa.

— Água?

Outra pausa.

— Cerveja?

Olha para ela.

— Um incenso? Uma massagem nos pés?

Ele abre os braços.

— Mas fala, menina.

Clarisse olha para a porta.

Anton e Guillian estão ali.

Observando.

Iago percebe.

— Entra aí.

Eles entram.

— Fecha a porta.

Olha para os dois.

— Aconteceu alguma coisa com a Clarisse. Olha essas faixas.

Anton se aproxima devagar.

— Alguém fez isso?

Guillian fica imóvel.

O medo aparece no rosto dela.

Anton também muda a expressão.

Clarisse percebe.

— Não.

Ela balança a cabeça.

— Não foi isso.

Ela respira fundo.

Coloca as mãos sobre os joelhos.

Depois abre as palmas para cima.

As marcas aparecem.

— Eu preciso contar uma coisa.

Silêncio.

— Eu estou com um dilema.

Ela olha para os três.

— Eu vim para São Paulo tentando escapar de uma coisa que eu estava adiando.

Pausa.

— Tem uma pessoa que eu deixei para trás.

Ela engole seco.

— Eu dei um tempo. Fugi da conversa que precisava acontecer.

Anton baixa os olhos.

— Eu achei que estava poupando essa pessoa de sofrer...

Ela respira.

— Mas talvez eu só estivesse sendo covarde.

Silêncio.

— Eu fui egoísta.

As lágrimas começam.

— Eu não queria terminar por telefone. Seria falta de responsabilidade emocional.

Pausa.

— Eu não queria ser uma pessoa ruim.

Ela olha para as mãos.

— Mas eu também fui complacente demais.

Guillian olha para as faixas.

— Mas suas mãos...

A voz dela falha.

— Você brigou com ele?

Clarisse quase ri.

Uma risada triste.

Anton vira o rosto por um instante.

Como se aquela possibilidade tivesse machucado.

— Não.

Clarisse olha para as próprias mãos.

— Não foi ninguém.

Pausa.

— Foram rosas.

Os três ficam em silêncio.

— Hoje de manhã choveu.

Ela tenta respirar.

— A janela ficou aberta. A sala molhou inteira.

Olha para baixo.

— O vaso caiu.

A voz quebra.

— As rosas ficaram destruídas.

Silêncio.

— E eu...

Ela chora.

— Eu pensei...

Pausa.

— Se eu não consigo cuidar de uma planta...

Ela olha para eles.

— Como eu vou conseguir cuidar de filhos?

As lágrimas caem.

— Como eu vou conseguir cuidar de alguém?

Pausa.

— Eu sou um fracasso.

Guillian não espera.

Ela se ajoelha na frente de Clarisse.

Pega as mãos dela.

Coloca contra o rosto.

Uma lágrima cai sobre uma das feridas.

Arde.

Mas Clarisse não tira.

Guillian segura firme.

— Você mostrou seus espinhos para nós, Clarisse.

Ela chora.

— E mesmo com medo...

Sorri entre lágrimas.

— Você veio.

Clarisse lembra da voz de Linda.

"Coragem é isso. Seguir com medo."

Guillian beija delicadamente as mãos machucadas.

Clarisse desaba.

Anton e Iago se olham.

Não precisam dizer nada.

Eles entendem.

Não importa se era uma rosa.

Não importa se para outras pessoas parecia pequeno.

A dor de alguém nunca é pequena para quem sente.

Um coração ferido não se cura com julgamento.

Se cura quando alguém fica.

Os quatro se abraçam.

Clarisse chora como nunca havia chorado.

Mas pela primeira vez...

Não está tentando esconder suas feridas.

Anton olhou para Clarisse.

— Eu vou cancelar sua VIP. Você precisa pensar em você agora. Cuidar dessas feridas, descansar.

— Não! — respondeu Clarisse, seca. — Eu vou à De Leon.

Os dois se encararam.

Silêncio.

Guillian ergueu a mão, como se estivesse se voluntariando.

— Eu cuido de você!

Anton arqueou uma sobrancelha.

— Ah, vá.

— Eu cuido dela, sim. Não duvide.

Anton soltou um sorriso cínico.

Guillian avançou na direção dele.

— Eu consigo!

Iago segurou Guillian pela cintura.

— Ooooh, parô! — disse, tentando conter o riso. Depois se recompôs e olhou para os três. — Quem precisa da gente agora é a Clarisse, né?

Clarisse apenas acenou com a cabeça.

Anton se aproximou dela e tocou levemente seu ombro.

Guillian apontou o dedo para ele, como quem diz: “Você vai ver”.

Iago suspirou dramaticamente.

— Ainda mais hoje, que é sexta-feira. Não sextou pra mim. Estou arrasado.

Guillian olhou para ele.

— Não sextou? Por quê?

Anton e Iago trocaram um olhar.

Nesse momento, Clarisse se levantou. Ao se levantar, uma carteira de cigarros caiu no chão.

Ela se abaixou devagar e a pegou.

— De quem é isso?

O silêncio respondeu antes de qualquer um.

Todos olharam para Guillian.

Iago arregalou os olhos.

— Não é possível, Gui!

Guillian cruzou os braços.

— Foi só um.

Anton olhou para ela, sério.

— Gui.

Iago repetiu, incrédulo:

— Gui!

Ela desviou o olhar.

— Tá bom... foram só dois.

Os dois falaram juntos:

— Gui!

Guillian bufou.

— Tá bom! Foram quatro!

Anton pegou a carteira de cigarros da mão de Guillian.

Por um instante, pareceu que iria jogá-la fora.

Guillian o acompanhou até o banheiro, já preparada para reclamar.

Anton parou diante da porta.

Olhou para a carteira.

Depois olhou para ela.

Silêncio.

Então estendeu a mão.

— Toma.

Guillian ficou sem reação.

— Ué... você não vai jogar fora?

Anton balançou a cabeça.

— Não.

Ela pegou a carteira devagar.

— Como assim, não?

Anton respirou fundo.

— Porque eu não posso decidir por você.

Guillian abaixou os olhos.

Anton continuou, com a voz baixa:

— Isso também dói em mim, Gui. Mas eu prefiro que você escolha parar por você... não porque eu te obriguei.

Guillian ficou alguns segundos em silêncio.

Depois abriu a carteira, tirou um cigarro e o girou entre os dedos.

Ergueu os olhos para Anton, com um sorriso pequeno, quase desafiador.

— Quer fumar comigo?

Anton soltou um riso curto pelo nariz.

Aproximou-se dela.

Tirou o cigarro de sua mão.

Colocou de volta na carteira.

Fechou a tampa.

E a abraçou.

Guillian não resistiu.

Escondeu o rosto no peito dele, como se a provocação tivesse sido apenas um jeito torto de pedir colo.

Anton dá um beijo na testa de Guillian e, em seguida, sente o cheiro dela.

— Tenho que admitir... todos nós estamos cheios.

Guillian olha para os três.

— Bora sextar?

Anton balança a cabeça.

— Não, Gui. Iago está cansado, eu estou cheio... e você...

Guillian interrompe:

— Não somos inimigos do fim?

Iago sorri de leve.

— Hoje somos.

Iago abraça Clarisse e limpa as poucas lágrimas que ainda escorrem pelo rosto dela.

— Me dói ver você assim. Estamos aqui sempre.

Ele dá um beijo nos olhos dela.

— Sábado à noite vamos para De Leon. Anton vai passar nossa música!

Anton arregala os olhos.

— Como assim?

Iago ri.

— E eu vou ficar com uma bebida na mão e o dedinho para cima, com os olhos fechados.

— Não conte minha vibe. Ou, como dizem... vou farmar aura!

Clarisse franze a testa.

— Farmar aura? O que é isso?

Anton responde:

— Lembra dos posers? Eles tomaram poder.

Guillian entra na conversa:

— Eu sei farmar aura!

Anton olha para ela.

— Sim, eu sei como...

— Hã?

— Você sai dançando de olhos fechados quando toca "I Follow Rivers", com aquela cara de menina perdida na balada.

Clarisse sorri.

— Por causa do filme Azul é a Cor Mais Quente?

Guillian abre um sorriso.

— Amo!

Anton aponta para ela.

— Mas não é sua música. É só que, quando toca...

Iago completa:

— Essa música quase causou uma briga na balada. Um rapaz lindo se irritou com a Gui.

Guillian revira os olhos.

— De novo essa história? Eu odeio essa história!

Iago continua:

— Sorte que o segurança viu e expulsou o rapaz. Mas não importa. Acabou bem.

Guillian começa a cantar:

— I, I follow...
I follow you, deep sea, baby.

Anton olha para ela, rindo.

— Nem começou a música e você já está bêbada?

Guillian responde séria:

— Essa música tem teor alcoólico. Você não sabia?

Todos riem.

As risadas vão diminuindo aos poucos, deixando no ar aquela sensação de que, apesar das feridas, o grupo ainda sabia encontrar leveza.

Iago pega o celular do bolso e olha para Clarisse.

— Me passa seu WhatsApp?

Clarisse o encara, desconfiada.

— Pra quê?

Iago finge pensar por alguns segundos.

— Pra eu te mandar uma mensagem perguntando se você pode me passar seu WhatsApp.

Clarisse solta uma risada surpresa.

— Mas você acabou de pedir pessoalmente.

— Exatamente — responde ele, sério demais para a piada. — Imagina o quanto isso vai ficar mais prático pelo WhatsApp.

Anton balança a cabeça, rindo.

— Esse menino não presta.

Guillian aponta para Iago.

— Não presta mesmo. Mas a gente ama.

Clarisse pega o celular e troca contato com Iago.

Ele digita rapidamente e mostra a tela para ela.

— Pronto. Agora você já faz parte do meu círculo íntimo de pessoas que recebem memes ruins às três da manhã.

— Que honra — diz Clarisse, entrando na brincadeira.

Iago guarda o celular no bolso e levanta a caneca vazia.

— E assim a gente combina um esquenta antes da balada. Na De Leon, a gente só mantém o grau aos poucos.

Clarisse sorri.

Era estranho como um gesto tão simples podia deixá-la feliz.

Como se, aos poucos, ela estivesse sendo puxada para dentro de um lugar que ainda não entendia completamente.


***

Sábado.

No apartamento de Clarisse, o silêncio tinha cheiro de terra molhada.

Ela passou o sábado inteiro arrumando tudo.

Trocou o vaso quebrado por um novo, limpou a sala, secou o chão e organizou cada canto como se estivesse tentando colocar a própria vida no lugar.

Sobre a mesa, o notebook permanecia aberto.

Clarisse pesquisava no ChatGPT sobre cuidados com rosas escarlates, transplante de vasos, poda e recuperação de raízes.

Ao lado do computador, uma tesoura, folhas cortadas e pequenos galhos formavam um cenário de tentativa.

As flores mais antigas estavam envelhecendo com o tempo.

Mas o broto resistia.

Pequeno.

Verde.

Teimoso.

A roseira parecia sobreviver às adversidades do tempo.

E Clarisse, pela primeira vez desde a chuva, sentiu uma empolgação tímida.

Nem tudo estava perdido.

Talvez furar o teto da própria realidade fosse uma loucura necessária.

Quando terminou de arrumar tudo, sentou-se no sofá e pegou o celular.

Uma notificação apareceu na tela.

“Oie, Sasa... tudo bem? Você não me responde.”

Filipe.

Clarisse olhou para a mensagem e respirou fundo.

Digitou devagar:

“Oie... desculpa não responder. Estava muito ocupada com os trampos 💙💙”

Assim que enviou, percebeu o erro.

Corações azuis.

Amizade.

Distância.

Frieza disfarçada de carinho.

A resposta veio imediatamente.

“Sei... estava vendo aqui no meu Instagram as recomendações de amigos para seguir.”

Pausa.

“Quem são Iago e Anton?”

Outra pausa.

“Você é bem reservada. Seu perfil é privado, difícil de adicionar alguém... e você adicionou eles.”

“Só estou comentando. Só achei estranho.”

Clarisse sentiu a espinha gelar.

Respondeu rápido demais:

“São colegas da galeria.”

Ela conhecia Filipe.

Conhecia o jeito como ele transformava detalhes em perguntas.

E perguntas em suspeitas.

Ele ainda não sabia de Guillian.

Ou sabia?

A nova mensagem apareceu.

“Por que corações azuis?”

Foi como uma bola de boliche atingindo seu estômago.

Um nó se formou na garganta.

Clarisse jogou o celular para o lado.

Ainda faltavam muitas horas para a balada.

Na dúvida, não responda.

Não faça nada.

Só durma.

Ela fechou os olhos por um instante.

Depois abriu de novo e disse alto para si mesma:

— Foda-se.

Mais tarde, depois do almoço na rua, das compras feitas e do lanchinho da semana guardado na cozinha, Clarisse caiu na cama.

O celular continuou ali, silencioso.

Mas o silêncio agora pesava.


***

São 17h de sábado.

Clarisse acorda devagar.

Olha para o celular e vê as horas.

— Tenho que fazer isso sempre que tiver dúvidas: dormir.

Pela primeira vez desde a mudança para São Paulo, ela percebe o armário arrumado.

As roupas estão organizadas.

As caixas fechadas.

Os cabides alinhados.

Como se, aos poucos, o apartamento também estivesse aprendendo a respirar.

Ela abre o armário e começa a espalhar opções sobre a cama.

Vestidos.

Blusas.

Calças.

Jaquetas.

Olha para cada peça com atenção exagerada.

Indecisa.

Ansiosa.

Empolgada demais para a noite na De Leon.

De vez em quando, pega o celular.

Nenhuma mensagem de Iago.

Provavelmente fariam um esquenta antes da balada.

Comer alguma coisa.

Beber.

Conversar.

Rir até perder a noção do tempo.

Ela sorri sozinha.

Depois abre a caixa de joias e bijuterias.

Coloca colares, brincos e anéis sobre a cama, testando combinações como quem monta uma pequena exposição.

Uma notificação aparece na tela.

Filipe.

Clarisse olha por dois segundos.

Ignora.

Aquilo não tinha peso agora.

— O chato está a 1.469 km daqui.

Ela se olha no espelho, segurando uma blusa contra o corpo.

— Não posso fazer nada até conversar pessoalmente.

Prende alguns grampos no cabelo.

Faz caretas.

Muda o penteado.

Desfaz.

Tenta de novo.

— Tenho que escolher um bom perfume, arrumar o cabelo, fazer as unhas...

Ela para diante do espelho.

— Meu Deus, como eles são cheirosos.

Ri de si mesma.

— Iago tem gosto pra tudo. Gui tem uma pele linda, aquelas tatuagens fininhas... Anton... Anton gosta do conjunto.

Fica em silêncio por um instante.

Observa o próprio reflexo.

— Será que sou tão linda assim?

A dúvida vem baixa.

Quase tímida.

Então ela se lembra.

Cada um deles a chamou de linda.

Não como enfeite.

Não como elogio vazio.

Mas como presença.

Como alguém que ocupava o espaço.

Quando as pessoas no Jabuticaba olhavam para os quatro, não era só desejo.

Era curiosidade.

Era magnetismo.

Era a sensação de que aquele grupo carregava uma história que ninguém entendia direito.

Como se todos quisessem oferecer lugar em suas mesas.

Mas eles escolheram o meio-fio.

Clarisse sorri.

— Nossa... eu devo uma rodada para eles.

Clarisse se joga no sofá, ainda cercada de roupas, colares e perfumes.

Por alguns segundos, fica encolhida, abraçando as próprias pernas.

Um delírio bom.

Daqueles que sacodem o corpo sem machucar.

Então se lembra de Anton dizendo, na noite anterior, enquanto falavam de música:

“O melhor momento de ouvir Sade é antes de tudo começar.”

Ela sorri sozinha.

Ainda deitada, chama pela Alexa:

— Alexa, toque as melhores da Sade.

A voz eletrônica responde:

— Um momento... Tocando Sade — Melhores músicas.

Os primeiros acordes enchem o apartamento.

Clarisse fecha os olhos.

— Nossa, que demais... Né que o danado tem razão?

Ela levanta.

Começa a dançar pela sala.

Dança com a Alexa.

Dança com o vaso de planta.

Canta usando a escova de cabelo como microfone.

Gira no corredor.

Ri sozinha.

Por alguns minutos, o apartamento deixa de ser um lugar de solidão.

Vira palco.

Vira festa.

Vira promessa.

Depois toma banho demorado.

Faz as unhas.

Arruma o cabelo.

Escolhe a roupa.

Não estava apenas se preparando para sair.

Estava realizando um ritual.

As horas passam.

Tudo fica pronto.

Clarisse passa o perfume no pescoço, nos pulsos, atrás das orelhas.

Respira fundo.

A sensação é estranha.

Como se aquela noite prometesse mais do que uma simples esperança.

O celular vibra.

Mensagem de Iago.

“Oie... minha linda, vamos nos encontrar no Epiceno. Barzinho chiquitoso, gostoso, confortável, cheio de guloseimas leves. O lugar é um charme. Te esperamos. Um beijo 😘”

Abaixo da mensagem, várias fotos.

A localização.

O teto coberto por um emaranhado de luzinhas, como estrelas de Natal presas ao escuro.

Paredes rústicas.

Móveis industriais.

Quadros antigos e coloridos dos anos 60.

E uma foto da mesa onde eles estavam sentados: cerveja gelada e canapés de salame com cream cheese.

Na mesma hora, o estômago de Clarisse roncou.

Ela digitou rapidamente:

“Eu te odeio 😡”

Iago respondeu em segundos:

“E o pior: eu sei disso. Chega aí...”

Clarisse riu alto.

Guardou o celular na bolsa.

E, pela primeira vez em muito tempo, saiu de casa não para fugir de alguma coisa.

Mas para ir ao encontro de algo que desejava.

Clarisse ficou contemplando o momento e a resposta de Iago.

22h15.

Ela chamou um Uber.

Saiu pela porta do apartamento e respirou fundo.

O ar da noite tinha cheiro de cidade molhada e promessa.

Seu perfume ainda estava fresco, como se tivesse acabado de sair do banho.

Clarisse cantarolava Sade baixinho.

Confiança sem arrogância.

Sem julgamento.

Era ela mesma.

Quando o Uber parou em frente ao Bar Epiceno, ela olhou para o letreiro iluminado e sorriu.

Gente bonita.

Música boa.

Conversas altas.

Um lugar com cara de noite que vale a pena lembrar.

Iago a viu primeiro.

Levantou a mão e chamou:

— Clarisse! Aqui!

Todos já estavam na mesa.

Ela se aproximou e sentou ao lado de Iago.

Por um segundo, os quatro ficaram em silêncio, olhando para ela.

Iago foi o primeiro a falar.

— Meu Deus... você está divina.

Todos na mesa olharam para Clarisse.

Guillian abriu um sorriso enorme.

— Uau... arrasou! Eu e você na balada hoje vamos causar.

Anton inclinou a cabeça, observando-a.

— Nossa... como você mudou de vibe.

Clarisse se lembrou imediatamente do que Linda havia dito:

“Ninguém muda. Só acrescenta.”

Guillian bateu palmas discretamente.

— Farmou aura!

Iago se aproximou para cumprimentá-la com um beijo no rosto.

Quando sentiu o perfume dela, fechou os olhos por um instante.

— Nossa... você vai ficar do meu lado a noite inteira, né? Que perfume bom.

Clarisse riu.

Iago continuou, dramático:

— Mas assim, não quero falar mal do seu perfume. Ele é maravilhoso. Só que eu quero te dar um da minha escolha.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Ah, é?

— É. Porque eu não quero te possuir como minha... ou talvez eu só queira uma desculpa para te dar um perfume.

Clarisse fingiu pensar por alguns segundos.

Depois sorriu, com o olhar travesso.

— Difícil, hein... acho que aceito ser possuída.

Fez uma pausa teatral.

— Ops. Quer dizer... aceito o perfume!

A mesa explodiu em risadas.

Clarisse olhou para os canapés sobre a mesa.

— Posso pegar um?

Iago abriu os braços, exagerado.

— Pode pegar todos!

Guillian encheu o copo de Clarisse com cerveja da garrafa que já a aguardava.

Clarisse pegou um canapé de salame com cream cheese.

Mordeu devagar.

A textura macia, o sabor leve e salgado, o pão delicado... tudo parecia combinar com o clima do Epiceno.

Ela sorriu.

Depois ergueu o copo.

— Um brinde?

Os quatro brindaram.

— À sorte! — disse Guillian.

Clarisse deu o primeiro gole.

Fez uma careta imediata.

A cerveja era horrível.

Amarga.

Gelada.

Estranha.

Mas havia algo divino naquela amargura.

A sensação de beber algo que o corpo rejeita no primeiro segundo e, logo depois, espera ansiosamente pelo efeito.

A reunião.

As risadas.

A mesa.

Os amigos.

Quando a cerveja desceu, Clarisse fechou os olhos por um instante.

Esperando a sensação chegar.

Ela abriu os olhos com uma expressão de sofrimento prazeroso.

— Nossa... realmente. É um amargo delicioso. Parece café sem açúcar.

Anton a encarou, indignado.

— Você é maluca!

Deu um gole na própria cerveja.

Guillian apontou para ele.

— Imagina como deve ser o coraçãozinho dele. Só tem sangue e café.

Iago levou a mão ao peito, fingindo ofensa.

— Como vocês são maldosos! Mas, falando sério... como vocês tomam cerveja, se ela é amarga?

Anton respondeu imediatamente:

— Por causa do álcool!

Guillian riu.

— Sei lá... a vida já é amarga demais pra tomar café sem açúcar, né?

Iago fingiu pensar.

— Acho que vou começar a colocar conhaque no meu café.

Olhou para Clarisse.

— E você, Clarisse? Com ou sem açúcar?

Ela respondeu, orgulhosa:

— Sem açúcar.

Guillian arregalou os olhos.

— Mentira!

Iago levou a mão ao peito, fingindo indignação.

— Vocês que não prestam. Tá vendo? Tem alguém aqui com sensibilidade para apreciar um café!

Riu no final, satisfeito por ter encontrado uma aliada.

Anton riu e apoiou o cotovelo na mesa.

— Vai abrir uma IURD do café?

Iago ficou pensativo por dois segundos.

— Nunca pensei nisso! Como seriam os Dez Mandamentos?

Guillian levantou a mão, como se estivesse em uma aula.

— Não tomarás café sem açúcar!

Iago apontou para ela.

— Herege!

Guillian continuou, entrando na brincadeira.

— Não tomarás café sem ser tomado na hora!

Clarisse riu e completou:

— Tomarás café em canecas e xícaras de porcelana!

Anton ergueu o dedo, sério demais para a piada.

— Não tomarás “cafezes” gelado!

A pronúncia errada saiu tão absurda que a mesa inteira explodiu em risadas.

Anton tentou se defender.

— É difícil quando você fala errado e depois não consegue parar de achar graça.

Guillian bateu na mesa, rindo.

— Fora os memes que vêm depois!

No Epiceno, o tempo passava sem pedir licença.

As cervejas diminuíam.

Os canapés desapareciam.

As conversas mudavam de assunto sem esforço.

Clarisse observava os três e sentia uma vontade absurda de morar naquele instante para sempre.

Ser ela mesma.

Sem amarras.

Sem precisar explicar nada.

O lado leve e livre daquela noite a fazia esquecer, por alguns minutos, o peso do quase término que ainda devastava seu peito.

Mas ela não queria pensar nisso agora.

Não podia controlar o passado.

Não podia controlar a distância.

Não podia controlar as mensagens de Filipe.

Só podia controlar aquilo que estava ao seu alcance.

E, naquele momento, o que estava ao seu alcance era simples:

rir com eles.

Beber mais um gole.

E deixar o Epiceno guardar, por algumas horas, a melhor versão de si mesma.


***

Do lado de fora do Epiceno, os quatro caminharam pela calçada da Augusta.

A noite estava cheia de pessoas estranhas e esquisitas, cada uma carregando sua própria história, seu próprio mistério.

Anton tirou um pacote de balas de menta extra forte do bolso e ofereceu a todos.

O burburinho da Augusta parecia falar por si só.

Entre eles, havia silêncio.

Mas um silêncio cheio de risos e olhares.

Quase como uma câmera lenta.

Como se uma música imaginária tomasse conta do quarteto.

Quando chegaram à De Leon, a fila era enorme.

Dava volta no quarteirão.

Clarisse sentiu uma pontada de preocupação.

Mas um dos seguranças pareceu reconhecer Anton.

Eles passaram pela entrada VIP.

Nomes conferidos.

Identidades.

Pulseiras.

A balada.

Sem dizer nada, Anton colocou seu Ray-Ban Wayfarer preto e ajeitou a jaqueta preta sobre os ombros.

Era quase a hora de ele tocar.

Antes de entrar na multidão, fez um aceno com dois dedos.

Guillian e Iago repetiram o gesto imediatamente.

Clarisse os imitou, ainda sem entender completamente.

Os três riram.

Anton se virou.

E desapareceu entre as luzes e as pessoas.

A música já pulsava.

As batidas do DJ atravessavam o peito.

Gente dançando.

Gente linda.

Uma guerra de perfumes no ar.

Luzes estroboscópicas.

Fumaça.

Uma noite de pessoas dançantes e transantes.

O simulacro da liberdade.

Homens, mulheres e quem quer que fosse.

Todos pareciam felizes.

Ou pelo menos fingiam muito bem.

A música continuava.

E agora éramos três: Guillian, Iago e eu.

Dançávamos juntos.

Sensuais.

Leves.

Caras e bocas.

Toques sutis.

Rostos colados.

Vi Iago com o dedinho para cima, apontando para o nada, de olhos fechados.

Guillian, quando tocou “I Follow Rivers”, ficou completamente perdida na balada.

Bebidas.

Mais bebidas.

E eu estava tão leve.

Tudo aquilo que Anton odiava, eu amava ver.

No fundo, era pura pirraça.

Óbvio.

As pessoas olhavam para nós e se confundiam.

Guillian me provocava com a mão no meu corpo, suave.

Iago dançava com os quadris próximos aos meus.

E era gostoso ser desejada.

Ser tocada sem vulgaridade.

Os olhares dos outros machucavam mais porque tentavam nos dar rótulos.

Mas, naquela noite, eu estava livre deles.

As trocas aconteciam sem serem anunciadas.

Apenas um saía.

Outro entrava.

O trio entendia.

De repente, Anton apareceu no palco.

Os três gritaram ao mesmo tempo.

Iago soltou um assovio tão alto que atravessou a música.

Guillian respondeu com outro ainda mais alto.

Clarisse riu.

Que inveja.

Queria saber assobiar assim, alto, como um maloqueiro de verdade.

Anton estava misterioso no palco.

De óculos escuros.

Jaqueta preta.

Concentrado.

As luzes piscavam sobre ele enquanto as pessoas dançavam.

Garotas levantavam os celulares, gravando para o Instagram.

Clarisse pegou o próprio celular.

Aproximou-se de Guillian e Iago.

Tirou uma selfie dos três.

Sorriu.

Mesmo sabendo que aquilo poderia desencadear problemas com Filipe.

Postou assim mesmo.

Em segundos, vieram as curtidas.

Os comentários.

As mensagens.

“Seja livre!”

Ela leu.

E soube.

Óbvio que Filipe tinha visto.

Mas não queria pensar nisso.

A playlist de Anton estava perfeita.

As batidas pareciam conversar com o corpo das pessoas.

Garotas cercavam o palco com intenções visíveis.

Clarisse observava Anton lá em cima e pensava:

“Todos acham que ele é só um boy bonito.”

Mas ela já sabia.

Ele era muito mais humano do que muita gente.

Duas horas passaram sem que eles percebessem.

Bebidas.

Mais bebidas.

Risadas.

Dança.

Clarisse queria mais.

Guillian estava completamente na vibe.

Ou, como ela dizia:

“Farmando aura.”

Iago desapareceu por alguns minutos.

Clarisse sentiu um pequeno susto.

Guillian se aproximou do ouvido dela e gritou, por causa da música:

— Ele foi comprar água pra gente!

Clarisse sorriu aliviada.

As duas continuaram dançando.

A balada parecia pequena de tão livres que estavam.

Dois rapazes se aproximaram delas.

Guillian, sutilmente, conduziu Clarisse para o lado.

Tão natural que ela nem percebeu.

Quando Iago voltou, estava com garrafas de água nas mãos.

O som ainda era alto demais para qualquer conversa.

Eles beberam.

Riram.

Se refrescaram.

E Clarisse olhou para Iago, segurando a garrafa de água como se fosse um tesouro.

Iago.

Cuidando da gente.

Anton voltou do palco ainda usando os óculos escuros.

Algumas meninas o cercaram, pedindo seu Instagram, sorrindo alto demais para serem ouvidas por causa da música.

Ele respondeu com educação, mas parecia mais leve quando se aproximou da mesa.

Clarisse foi até ele.

Ficou perto do seu ouvido e disse, quase gritando por cima das batidas:

— Você não dançou comigo!

Anton tirou os óculos escuros lentamente.

Antes que ele pudesse responder, Clarisse pegou os Ray-Ban de sua mão e os colocou no próprio rosto.

Anton ficou olhando para ela, sorrindo.

Um sorriso pequeno.

Encantado.

Clarisse saiu correndo de volta para Guillian, rindo.

Guillian a puxou pela cintura e as duas ficaram abraçadas no meio da pista.

Anton e Iago se aproximaram.

Os quatro se encontraram novamente no centro das luzes.

A música mudou.

Guillian segurou o rosto de Clarisse com as duas mãos.

E a beijou.

Um beijo doce.

Quente.

Cheio de coragem.

Anton olhou para Iago.

Como quem já sabia.

Como quem não precisava pedir permissão.

Iago sorriu.

E Anton o beijou.

Um beijo antigo.

Íntimo.

Daqueles que carregam histórias que ninguém de fora entende.

Por alguns segundos, o mundo pareceu diminuir.

A batida continuava.

As luzes continuavam.

Mas havia algo entre eles que não precisava ser explicado.

Iago se afastou devagar.

Olhou para Clarisse.

Ela ainda estava sorrindo, ainda tentando entender a intensidade daquele momento.

Então ele se aproximou.

Tocou seu rosto com cuidado.

E a beijou.

Um beijo leve.

Curioso.

Como uma descoberta.

Como se ele quisesse perguntar algo sem usar palavras.

Anton observou os dois por um instante.

Depois virou-se para Guillian.

Ela sorriu antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.

Anton segurou sua mão.

Aproximou-se.

E a beijou.

Um beijo cheio de cumplicidade.

De carinho.

Como se os dois soubessem exatamente onde estavam naquele instante.

Então Anton estendeu a mão para Clarisse.

Ela segurou.

Os dois começaram a dançar.

Próximos.

Rindo.

Girando devagar no meio da multidão.

Clarisse sentia o cheiro da jaqueta preta, do perfume, da menta que ainda restava no hálito dele.

Anton aproximou o rosto do dela.

E a beijou.

Naquele instante, a De Leon desapareceu.

As luzes.

A fumaça.

As pessoas.

Os celulares.

Tudo ficou distante.

Restaram apenas os quatro.

E a música.

Ambos cansados se olharam.

Foram para uma sala de cor vermelha, iluminada apenas por luzes vermelhas.

Havia puffs espalhados pelo lugar para descansar.

Sentaram e começaram a conversar.

Entre uma frase e outra, trocavam olhares e carinhos sem malícia.

Era apenas a presença um do outro.

Guillian olhou para os amigos.

— Bora beber, Hell Flames!

Anton balançou a cabeça.

— Não, Gui. Bebemos demais.

Iago riu.

— Ainda cabe mais.

Anton olhou para os três.

— Não, gente...

Clarisse ergueu as sobrancelhas.

— Hell Flames?

Guillian abriu um sorriso.

— Hell Flames!

Anton percebeu que estava derrotado.

Odiou admitir.

Mas concordou.

Guillian puxou Clarisse pelo braço em direção ao bar vermelho.

Iago segurou Anton pelo ombro.

— Vamos.

Anton foi arrastado, derrotado.

No bar, Guillian levantou a mão.

— Garçom, quatro Hell Flames, por favor!

Ela olhou para os três.

— Gente, quando acabar a labareda, bebe de uma vez. Rápido!

O garçom colocou quatro copos sobre o balcão.

Misturou bebidas fortes, com alto teor alcoólico.

Depois jogou um líquido por cima e ateou fogo.

As chamas subiram.

Clarisse se assustou ao ver as labaredas dançando sobre os copos.

Pouco depois, o fogo cessou.

Todos pegaram suas doses.

E beberam rapidamente.

A bebida desceu rasgando a garganta.

Forte.

Amarga.

Alcoólica demais.

Guillian nem fez careta.

Apenas sorriu.

Os quatro voltaram para os puffs.

Sentaram.

Se olharam.

Não disseram nada.

Apenas sentiram a presença um do outro.

Abraçaram-se.

Ficaram assim por cinco minutos.

Cinco minutos sem precisar explicar nada.

Depois levantaram.

Era hora de ir embora.

A bebida começou a fazer efeito rápido.

Clarisse parecia estar no automático.

Anton olhou para Iago.

— Iago, vamos embora. O editor de vídeo da vida dela sumiu...

Iago riu.

— O meu está quase indo também.

Guillian segurou Clarisse.

— Eu cuido dela!

Anton olhou sério para ela.

Um olhar de aviso.

Guillian percebeu.

— Eu cuido. Eu cuido, cuido, cuido, cuido!

Anton segurou o riso.

— Então vamos para o meu apartamento. É perto daqui.

Ele olhou para os três.

— Amanhã vocês resolvem isso. Ninguém tem condição de continuar.

Anton pegou o celular.

02:40 da madrugada.

Na frente, saiu Guillian conduzindo Clarisse.

Atrás, Anton e Iago caminhavam ainda inteiros.

Do lado de fora da De Leon.

Ainda havia muita gente chegando.

A fila continuava crescendo.

Pessoas entravam animadas, enquanto outras saíam pela calçada conversando alto.

Clarisse estava no automático.

Guillian também parecia quase chegando nesse estado.

Anton olhou para as duas.

— Fiquem aqui. Vou ali comprar água. Vocês estão altas demais.

Iago encostou na parede, tentando se manter acordado.

— Nossa... volta logo. Tô quase lá.

Guillian e Clarisse riam, felizes.

— Nossa, adorei dançar com você! — disse Guillian.

Clarisse olhou para ela com os olhos perdidos.

A mente longe.

— É... hum...

Perto deles, dois rapazes fumavam.

A fumaça passou pelo rosto de Guillian.

Ela tentou resistir.

Olhou para o cigarro.

Depois desviou.

Mas o cheiro ficou.

A vontade venceu.

Ela se aproximou.

— Me dá um cigarro?

Iago, quase apagado, viu a cena.

Não disse nada.

Apenas observou.

Nesse instante, Clarisse ficou sozinha.

Sem perceber direito o que fazia, começou a caminhar pela calçada.

Deu alguns passos.

Atravessou a rua.

Anton voltou com as garrafas de água.

E viu tudo.

Viu Guillian com o cigarro na mão.

Viu Clarisse atravessando a rua movimentada.

O barulho dos carros.

As luzes dos faróis.

A noite acontecendo ao redor.

Do outro lado da rua, Clarisse chegou à calçada.

Andou mais alguns metros.

E, cansada, deitou-se perto de um grupo de pessoas em situação de rua.

Anton ficou parado.

Por um instante, tudo pareceu congelar.

Não era apenas a bebida.

Não era apenas o cigarro.

Era a sensação de que ninguém estava prestando atenção.

Ele olhou para Guillian.

O cigarro ainda entre os dedos dela.

A expressão de Anton mudou.

O rosto endureceu.

Foi tomado pela raiva.

Guillian percebeu.

Olhou para ele.

E congelou.

Pela primeira vez naquela noite, ela pareceu completamente sóbria.

Domingo.

10 horas da manhã.

Clarisse começou a acordar.

Ainda de olhos fechados, sentiu duas pessoas ao seu lado.

Com cuidado, estendeu as mãos e tocou seus rostos.

Ela sabia quem eram.

Iago.

E Guillian.

Um sorriso apareceu no rosto dela.

Então sentiu um peso sobre o peito.

Algo quente.

Respirando devagar.

E ronronando.

Abriu os olhos.

Era Mefi.

O gato de Anton.

Dormindo tranquilamente sobre ela.

Clarisse acordou com uma recepção calorosa.

Um miado baixo.

Um olhar curioso.

E o cheiro de café recém-passado vindo de algum lugar da casa.

Havia pão sobre a mesa.

Ela não levou um susto.

A sensação era estranha, mas familiar.

Parecia estar no quarto de Anton.

Mas não estava.

Levantou devagar.

Saiu do meio dos dois.

Infelizmente, acordou Mefi.

O gato abriu os olhos e soltou um miado de bom dia.

Clarisse saiu do quarto.

Então viu o apartamento.

O mesmo apartamento que tantas vezes tinha imaginado enquanto observava o Instagram deles.

Só que agora ela estava ali.

De verdade.

Caminhou pelo lugar.

Mefi foi atrás.

Como um pequeno anfitrião.

Cada miado parecia dizer:

"Seja bem-vinda."

Na mesa, um café da manhã estava preparado.

Café.

Leite.

Presunto.

Frutas.

Sucos.

Clarisse pegou uma caneca da Garimpos Discos.

Colocou um pouco de café.

Só então percebeu que estava usando a camisa de Anton.

Um moletom largo.

Aquecendo suas mãos na caneca quente, deu um gole.

Por alguns segundos, apenas ficou ali.

Em silêncio.

Guillian apareceu.

Também usando uma camisa e um moletom.

Com os pés apoiados nos puffs.

Olhou ao redor.

— Cadê Anton? Nossa... vontade louca de fazer xixi.

Clarisse olhou para si mesma.

Para as roupas.

Para o apartamento.

Ainda confusa por estar ali.

Não sentia vergonha.

Sentia cuidado.

E, ao mesmo tempo, uma pequena surpresa.

Era estranho.

Mas não havia medo.

Iago apareceu logo depois, bocejando.

Sentou-se na cadeira.

Apoiou as mãos na cabeça, com os cotovelos sobre a mesa.

Ficou alguns segundos em silêncio.

Então murmurou:

— Hell Flames...

Olhou para as duas.

— Ele expulsou o nosso editor de vídeo da vida!

Guillian pegou uma caneca.

Serviu-se de café.

Depois sentou-se com as pernas encolhidas no puff.

Ficou alguns segundos olhando para a mesa.

Então perguntou:

— Alguém lembra de alguma coisa?

Clarisse balançou a cabeça.

— Nada. E você, Iago?

Iago levou as mãos até a boca.

Ficou parado.

Olhou para Guillian.

Assustado.

O silêncio tomou conta da cozinha.

Guillian percebeu.

— Fale, homem... assim você me assusta.

Iago desviou o olhar para a mesa.

Respirou fundo.

— Guillian...

Ela olhou para ele.

— Ele te viu fumando.

Uma pausa.

— Mas o pior não é isso...

A caneca escorregou da mão de Guillian.

Caiu no chão.

Quebrou.

Ela ficou imóvel.

Como se tivesse levado um golpe.

A culpa veio antes das palavras.

— Clarisse...

A voz falhou.

— Desculpa...

Os olhos começaram a encher.

— Me perdoa!

Clarisse percebeu a fragilidade dela.

A mesma Guillian que horas antes parecia invencível, puxando todos para a pista, agora parecia pequena.

Assustada.

Ferida.

Ela se aproximou e a abraçou.

— Como assim, Gui?

Segurou ela com cuidado.

— Eu não sei do que você está falando.

Iago passou a mão pelo rosto.

— Agora eu entendo por que Anton não está aqui...

Olhou para as duas.

— Ele está possesso.

Uma pausa.

— Tem tanto ódio dentro dele que parece que não cabe naquele apartamento.

Guillian começou a soluçar.

O choro veio forte.

Descontrolado.

— I-i-iago...

Ela mal conseguia falar.

— Fala com ele!

Clarisse olhou para Guillian.

Era estranho ver aquela pessoa que sempre parecia tão cheia de energia.

Tão viva.

Agora parecendo uma criança perdida.

Sozinha.

— Gui...

Ela segurou seu rosto.

— Gui, olha para mim.

Guillian tentou.

— Respira.

Mas o desespero aumentava.

— N-não...

Ela puxou o ar com dificuldade.

— Não me deixa sem Anton, Clarisse...

As lágrimas desciam pelo rosto vermelho.

— Fala com ele...

A voz quebrou.

— Por favor...

Clarisse segurou o rosto dela com delicadeza.

— Iago...

Olhou para ele.

— Você sabe onde Anton foi?

Iago ficou parado.

Como se tivesse voltado para a realidade.

— Oi?

Piscou.

— Sim... sim, eu acho que sei onde ele está.

— Onde?

Iago levantou rapidamente.

Pegou suas coisas.

— Num lugar tão grande que talvez caiba o ódio dele.

Olhou para Guillian.

Depois para Clarisse.

— Fica aqui.

Apontou para Guillian.

— Cuida dela.

Uma pausa.

— Porque agora... está difícil.

Iago saiu.

A porta fechou.

Guillian continuou chorando.

— Clarisse...

A voz saiu pequena.

— Me perdoa.

Clarisse passou a mão no cabelo dela.

— Como eu posso perdoar você sem nem saber o que aconteceu?

Fez uma pausa.

— Eu nem lembro.

Guillian tentou responder.

Mas a respiração falhou.

A crise aumentou.

Clarisse nunca tinha visto aquilo.

Não aquela Guillian.

Não aquela pessoa que parecia sempre carregar o mundo nas costas.

Ela procurou na bolsa dela.

Tentando encontrar alguma coisa.

Algum remédio.

— É...

Guillian tentou falar.

— É esse...

Clarisse encontrou.

Pegou a caneca quebrada do chão.

Jogou fora o café que restava.

Colocou água do filtro.

Entregou o remédio.

Guillian tomou rapidamente.

Depois desabou.

Chorava.

Soluçava.

Como se toda a culpa daquela noite tivesse encontrado uma saída.

Mefi apenas observava.

Em cima do roteador quente.

Piscou lentamente.

E fechou os olhos.

Clarisse olhou para o gato.

Depois voltou para Guillian.

Puxou-a para o peito.

Acolheu.

Ficou ali.

Escutando apenas os sussurros entre os soluços.

— Me perdoa...

Uma pausa.

— Me perdoa...

E, quase sem voz:

— Anton...


***

Parque Augusta.

Crianças brincavam.

Cães passeavam com seus donos.

Pequenos teatros itinerantes aconteciam pelo parque.

Casais aproveitavam o sol de domingo.

Havia atrações, algodão doce, risadas.

Pessoas sorrindo e aproveitando aquele dia bonito.

No meio de tudo isso, Anton estava sentado na sombra de uma árvore.

O sol atravessava as folhas.

O parque parecia vivo.

Mas ele carregava toda a raiva do mundo dentro dele.

Iago caminhou pelo parque até encontrá-lo.

— Achei você.

Anton nem olhou.

— É... achou.

Iago sentou-se ao lado dele, na sombra.

Não disse nada.

Ficaram assim por alguns minutos.

O barulho do parque preenchia o silêncio.

Então Iago se deitou no colo de Anton.

— Cafuné!

Anton olhou para ele.

— Você é sujo.

Iago sorriu.

— Mas com carinho.

Virou-se de lado, olhando para o parque.

Anton passou a mão pelos cabelos dele.

Observou os cílios longos de Iago.

A pequena fresta de luz que atravessava as folhas das árvores e tocava seus olhos enquanto elas balançavam com o vento.

Iago ficou alguns segundos em silêncio.

Então falou:

— Não dá para mudar alguém de uma casa jogando ela pela janela.

Anton continuou olhando para frente.

Silêncio.

Iago respirou fundo.

— Clarisse nem se lembra direito. Foi a mais envolvida naquela noite. E está lá, linda e sorridente.

Anton apertou os lábios.

— Mas poderia ter acontecido o pior.

Uma pausa.

— Isso dói.

Iago assentiu.

— Sim.

Olhou para ele.

— Dói.

Outro silêncio.

— Mas você quer controlar tudo, Anton.

Anton virou o rosto.

— Mas...

Iago interrompeu.

— Não aconteceu.

Uma pausa.

— Esquece.

O silêncio voltou.

O vento passou pelas árvores.

As folhas se mexeram.

Então Iago sorriu.

— Depois você fala que meu coração só tem sangue e café sem açúcar.

Olhou para Anton.

— Seu cretino desalmado.

Por alguns segundos, Anton tentou segurar.

Mas não conseguiu.

Os dois riram.

No meio de um parque cheio de vida.

Iago ficou alguns segundos em silêncio.

Então se levantou do colo de Anton.

Olhou sério para ele.

— Agora...

Anton ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

Iago cruzou os braços.

— Você fez besteira.

Anton franziu a testa.

— Como assim?

Iago respirou fundo.

— A Guillian está no apartamento.

Uma pausa.

— Em crise de ansiedade.

Anton ficou sério.

Iago completou:

— E a culpa é sua.

Anton se levantou um pouco.

— Mas quem está com ela?

Iago olhou para ele, incrédulo.

— Não, cabeça de mandioca com chuchu...

Anton ficou esperando.

— Com Mefi.

Uma pausa dramática.

— Aquele demônio unhudo.

Anton segurou um sorriso.

Iago apontou para ele.

— Não ri. Ele parece fofo, mas aquele gato sabe julgar uma pessoa.

Anton finalmente se levantou.

— Vamos?

Iago continuou sentado.

Olhou para o parque.

Depois para Anton.

— Vamos.

Levantou-se devagar.

Os dois começaram a caminhar pelo parque.

Deixando para trás o banco, a sombra e aquele pequeno intervalo de paz.

No apartamento de Anton.

A porta se abriu.

Como uma flecha, Guillian saiu dos braços de Clarisse.

Foi direto até Anton.

E o abraçou.

Nenhuma palavra.

Apenas o abraço.

Anton ficou parado por alguns segundos.

O silêncio tomou conta do apartamento.

Clarisse olhou para Iago.

Depois para Anton.

Para Guillian.

E para Mefi.

O gato estava sentado, observando tudo.

Esperando algum petisco, como se a única coisa importante fosse que Anton tinha voltado.

Clarisse olhou ao redor.

A grande janela da sala.

A luz entrando.

Os puffs espalhados pelo chão.

Aquele apartamento que, antes, ela conhecia apenas pelas imagens do Instagram.

Agora era o lugar onde uma amizade era reconstruída.

Ninguém precisava explicar.

Ninguém precisava justificar.

O silêncio permaneceu.

Mas não era vazio.

Era um silêncio cheio de significado.

O silêncio de quem perdoa.

O silêncio de quem entende.

Um código invisível, tão importante quanto as palavras escritas por uma mão em um caderno, em um computador ou em um livro.

Porque existem sentimentos que a mão não consegue desenhar.

Existem coisas que as palavras não conseguem carregar.

Apenas o coração entende.

Guillian apertou Anton com mais força.

Depois se afastou.

Passou a mão pelo rosto.

Respirou fundo.

E sorriu.

— Bora comer pastel na feira?


Related posts