Sobre uma inversão dos valores filosóficos atuais
Dizem que Deus contempla o homem e o quer,
Porque o homem conhece todo o finito;
Mas quem contempla a Deus, se em eterno rito
Não há o que perder, nem há o que temer?
Talvez Deus inveje a dor do não viver,
De ter um corpo que envelhece e desaba
De um beijo doce que começa e então acaba,
De uma paixão que pode um dia perecer.
Que vale a eternidade sem a saudade,
Se nada pode morrer em divinação?
Que vale possuir toda dor da verdade,
Se o homem, condenado à solidão,
Pode ver morrer sua maior vontade
E ainda chamar de verdadeira paixão...?