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22º Capítulo/OS MISTÉRIOS DO ACASO/ Minh'Alma!

Pietrodeluccapoeta777
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Após aquela rápida e enigmática conversa, a poesia voltou a pairar na mente do Poeta, como se tudo ao redor ganhasse uma textura de verdade absoluta. A inspiração subia-lhe ao peito como um avião a…

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LeandroPocas

Partiu-se o vidro, pá.

Partiu-se o vidro, pá.

Conteúdo da publicação

22º Capítulo

OS MISTÉRIOS DO ACASO

Minh'Alma!

Após aquela rápida e enigmática conversa, a poesia voltou a pairar na mente do Poeta, como se tudo ao redor ganhasse uma textura de verdade absoluta. A inspiração subia-lhe ao peito como um avião a decolar rumo ao infinito, rasgando as nuvens da rotina diária. O poeta é por vocação sagrada, uma pessoa que acredita sempre no impossível; alguém que se recusa a aceitar que o encanto do mundo se apagou e preferencialmente se alimenta das miragens refinadas da mente. Para quem traz o lirismo na alma, nem tudo está perdido, nem tudo está definitivamente derrotado na batalha dos sentimentos. No fundo, tudo nesta vida são puros e cristalinos momentos, momentos que pedem para ser eternizados pelas tintas da escrita antes que a poeira do tempo os cubra.

Todos nós sabemos, pelas leis imutáveis do universo e do cosmos, que o sol jamais vai namorar a lua de forma contínua. No entanto, quando um eclipse rompe a ordem dos céus e os dois finalmente se alinham, o mundo inteiro para, hipnotizado e em silêncio, para assistir a esse espetáculo divino. Mas é um fenômeno raro, raríssimo; algo que ocorre uma vez na vida e outra na morte. Esse acontecimento astronômico é tão raro quanto o amor e a atração que floresceram entre Narciso, o Poeta, e a sua adorada Helena Dolly.

Por isso, o escritor destaca constantemente em suas anotações mais íntimas que a atração entre dois seres nunca acontece por mero acaso ou simples distração do destino. Uma alma sempre procura encontrar em sua outra metade a semelhança dos afetos ou, na falta desta, o complemento exato dos gostos e hábitos que a sua própria essência não possui. Trata-se da busca por uma geometria amorosa, de um perfeito e fluido entrosamento — mesmo que a existência conceda esse milagre por um brevíssimo espaço de tempo.

Narciso e Helena Dolly também compartilhavam uma conexão sutil e profunda através do vasto universo das artes. Ambos dependiam exatamente do mesmo olhar de contemplação e silêncio diante de quadros, pinturas a óleo, telas coloridas, o charme poético dos antiquários e a delicadeza dos artesanatos feitos à mão. Era uma afinidade rara de gostos, um elo estético que os unia num mundo onde quase ninguém mais para para admirar o belo.

Num desses dias ensolarados, enquanto caminhava sem pressa pelo calçadão do centro da cidade, Narciso deixava o pensamento voar alto, viajando nas próprias ideias feito uma criança perdida em um parque. De repente, no meio do burburinho das pessoas apressadas, seus olhos avistaram uma loja especializada em quadros, molduras e painéis decorativos. Havia ali obras impressionantes de pintores anônimos, uma mais bela e profunda que a outra. Moveu-se nele, instantaneamente, ali, uma vontade irrefreável de encontrar um presente à altura de Helena.

Depois de um tempo garimpando entre molduras e estilos, o Poeta parou. Ficou longo tempo estático, apenas apreciando uma tela em particular que lhe capturou o coração. O quadro ostentava uma paisagem exuberante, marcada por uma abundância de tons de verde vivos e uma cachoeira cuja água parecia em movimento, transmitindo uma verdadeira calmaria para a alma.

Ao fixar o olhar naquela imagem, Narciso imaginou tantas coisas lindas de uma só vez... Desenhou planos futuros, antecipou alegrias, arquitetou cenários onde a felicidade seria constante. Para o domínio do sonho e da imaginação, tudo ali era de uma perfeição tocante. Contudo, a realidade externa insistia em cobrar seu preço. A cada "paulada" que recebia no coração a cada gesto frio ou incerteza do dia a dia, os impactos iam fazendo aquele querer tão bonito esfriar de forma lenta, derretendo como uma pedra de gelo esquecida e exposta ao sol escaldante da vida prática.

Apesar dos pesares, das incertezas e dos mistérios que rondavam o destino de ambos, ainda pintava um clima indiscutível de ternura e paixão entre os dois. Quando Narciso, conseguia estar fisicamente perto de Helena Dolly, o universo ao redor ficava suave, brando e silencioso. Naqueles instantes mágicos, ele esquecia completamente todas as dores e cicatrizes acumuladas em seu peito. Na presença dela, ele sentia genuinamente que já começara a encontrar o caminho da perfeição humana, e o seu ideal máximo resumia-se a estar ali: ao lado de sua querida musa, absorvendo a sua presença.

Ele só voltava a ficar tenso, vulnerável e ansioso quando a solidão irremediável lhe fazia companhia nas noites compridas, e o tédio insistia em sintonizar as frequências e fases mais amargas de sua mente lírica.

O quadro que o Poeta escolheu com tanto zelo e carinho foi finalmente entregue a Helena. Contudo, a matéria e o acaso resolveram pregar uma peça: durante o trajeto de transporte, o vidro de proteção da moldura acabou se trincando e quebrando em pequenos estilhaços. Mesmo com o imprevisto da peça danificada, Helena gostou imensamente do gesto e da pintura, sensibilizando-se de forma muito especial com a dedicatória manuscrita por Narciso no verso do presente.

Ela representava uma imensidão para ele; era a sua fonte primordial de inspiração. E embora Narciso estivesse buscando incessantemente aquele caminho de perfeição e sintonia, às vezes seu comportamento oscilava diante das contradições da vida. Afinal, o momento presente não era propício para "coisas de love", para aquele amor puro, absoluto e sem barreiras que pintou no ar e que ambos sentiram. Pela própria intensidade avassaladora do sentimento, a experiência parecia fadada a durar pouco. Foi um sopro curto, uma fagulha intensa. Na concepção amadurecida de Narciso, "qualquer coisa que dure menos que o amor, é pouca ou até mesmo inútil".

Narciso, o Poeta, sabia no fundo de sua alma, desde os primeiros contatos, que aquele romance corria o risco de se manter num terreno raso demais, superficial e ralo perante a realidade. Isso porque Helena Dolly sempre deixou bem clara essa margem de dúvidas, mantendo seus pés no chão e nunca lhe dando esperanças definitivas ou promessas de um futuro a dois.

A verdade nua e crua é que Narciso foi com sede demais ao pote. E o pote, carregado de sentimentos pesados e expectativas poéticas, consequentemente caiu e se despedaçou no chão. A realidade à sua volta começou a ficar dura, rígida, mas o Poeta — cego pelo excesso de amor e pelo encanto que o dominava — simplesmente não percebia a gravidade dos sinais. Parecia que uma bomba silenciosa tinha implodido no centro do seu peito. Ele sabia de tudo, racionalizava cada obstáculo com clareza, mas seu espírito romântico recusava-se a aceitar que toda aquela magia era apenas uma questão de momento, uma história com tempo cronometrado pelos ponteiros inflexíveis do relógio.

Narciso foi fundo. Mergulhou de cabeça e sem rede de proteção; apaixonou-se perdidamente. Embora muitos pudessem pensar que o artista não se machucou por usar a literatura como escudo protetor, a verdade é que o sofrimento não o deixou passar batido. O impacto foi profundo e doloroso. Helena era, de fato, o colírio para os seus olhos cansados da rotina e o cobertor térmico para as suas noites de frio. Mas, no balanço final, foi mais um lindo capítulo que passou na esteira do tempo.

Helena Dolly tinha, sim, tudo a ver com Narciso, o Poeta. No entanto, na hora da verdade, quando as ilusões românticas eram confrontadas com a vida como ela é, a experiência prática falou mais alto. Os gostos, as afinidades e os hábitos de ambos pareciam quase idênticos — e talvez até fossem almas irmãs em algum plano —, mas, nesta encarnação presente, ela tinha a sua própria missão individual a cumprir, os seus próprios caminhos e lições a trilhar de forma independente.

A passagem dela pela jornada de Narciso foi curta, mas teve o valor de um clarão: foi exatamente igual ao calor de uma fogueira de inverno, que esquentou a alma apenas o necessário para que o frio não fosse absoluto. Não foi um motivo para lamentos ou amargura; foi um verdadeiro presente do destino. Para Narciso, a vivência, por mais breve que tenha sido, revelou-se extraordinariamente proveitosa para o seu crescimento humano e artístico.

No momento da entrega, ele passou a ela o quadro cuidadosamente embrulhado numa folha simples de papel de presente. A dedicatória estava lá, gravada com carinho no verso, funcionando como uma mensagem secreta, uma carta aberta de alma para alma. Helena recebeu o pacote já ao cair da noite. Como o ambiente no local estava muito escuro e a iluminação não ajudava, ela não conseguiu ler o texto de imediato, optando por desembrulhá-lo e apreciar os detalhes quando estivesse na privacidade do seu quarto.

Quando finalmente chegou à sua residência, longe do olhar curioso do mundo, ela foi retirando o papel de embrulho com extremo cuidado. Ao se deparar com os trincados no vidro quebrados durante o transporte, ela não se chateou; providenciou a troca por uma nova proteção na mesma semana. Antes de qualquer coisa, porém, ao girar a tela e encontrar as palavras manuscritas pelo Poeta, parou para ler.

Seus olhos percorreram cada linha com atenção e absoluto respeito. Quando terminou a leitura, tomada por uma onda de afeto e nostalgia, ela colocou o quadro em um lugar de destaque na parede do seu cômodo favorito. Ali, naquele canto especial da casa, ela também podia "viajar" no tempo sempre que a saudade de Narciso apertasse o peito, deixando-se levar ao som de músicas suaves que traziam à tona os momentos vividos por eles com extrema lucidez, doçura e carinho.

A sinceridade desse romance efêmero foi a sua maior e mais nobre marca. Houve de fato tudo de positivo e verdadeiro que poderia ocorrer em uma relação humana a dois. O que Narciso, o Poeta, lamentava em suas meditações e escritos era apenas a questão do tempo, que se mostrou injustamente curto demais para a imensidão do que sentiam. Helena foi perfeitamente sincera ao seu modo, e Narciso também foi totalmente franco e transparente em suas intenções românticas.

Ela realmente amou a força poética daquela dedicatória, que dizia exatamente o seguinte:

MINH'ALMA

____________________

MINH'ALMA

Querida Helena, minh'alma

Fez meu eu

Enxergar a tua alma

Talvez precipitadamente

Mas os gostos

Aparentam serem os mesmos

Gosto de adorar você

Pois contigo

Meu mundo é só poesia

É só filosofia

É só o coisa linda

Às vezes quero tudo acabar

Pois é a hora de encerrar

As vezes penso em mim

Penso em ti

Minha paixão por você

É tão grande

Que o gigante fica pequenino

Não sei se é só ilusão

É difícil, ficar sem você

É difícil, parar essa jornada

Como ninguém é de ninguém

É assim que tem que ser,

Sucesso minha vida

Meu amor

Minha preferida ....

_____________________________

Ass. Narciso "O Poeta"

A verdadeira força e a beleza desses versos residiam justamente na crueza da sua honestidade. Não havia máscaras, vaidades ou jogos de sedução. Narciso compreendia a natureza transitória de todas as coisas e a liberdade inviolável de cada ser humano, aceitando com maturidade a máxima de que "ninguém é de ninguém", mesmo quando o coração insiste em querer pertencer e se entregar por inteiro.

O quadro pendurado na parede de Helena tornou-se um monumento silencioso àquela paixão vivenciada nos corredores da vida; um símbolo terno de que a beleza, mesmo quando envolta em vidros quebrados e realidades complexas, sempre encontra um meio de se preservar intacta e luminosa na memória de quem soube amar de verdade. O ciclo desse encontro se fechou com a sabedoria que o Selo 444 propõe: a capacidade de aceitar o tempo, cultivar a gratidão pelo que foi vivido e abraçar os mistérios do acaso com a alma pacificada e pronta para os próximos passos da jornada.

Obrigado por dedicar seu tempo às minhas palavras.

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Todas as quartas-feiras e aos sábados, haverá mais Mistérios a serem revelados!

Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

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Thoughts

  • LivroDeCabeceira

    Cheguei nesse capítulo vindo do 20 e voltei porque queria saber no que dava o presente. A parte que pega é ela pendurando o quadro no cômodo preferido e botando música pra voltar no tempo. O presente virou lugar. Tem gente aqui que ia querer acompanhar o Narciso desde o início.

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  • LeandroPocas

    Partiu-se o vidro, pá.

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  • IsauraBrandao

    A dedicatória atrás do quadro, pra ela ler só de noite quando chegasse em casa. Isso é jeito de gente antiga, que botava recado no verso do retrato e num dizia nada na hora de entregar. Em casa ainda tem um desses guardado numa gaveta.

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  • HoracioMelo

    Ele passa o capítulo todo à espera de uma promessa que ela nunca chegou a fazer. Ela disse-lhe alguma coisa depois de ler a dedicatória, ou ficou tudo calado?

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  • Ovid

    O vidro que se parte no caminho e ela a trocar na semana seguinte, sem uma queixa. Isso me fez pensar em como a gente cuida melhor das coisas que quase se perderam do que das que chegaram inteiras. O quadro na parede dela acabou ficando mais vivo no capítulo do que o poema escrito atrás.

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  • GasparRibeiro

    O vidro partiu-se no transporte e ela mandou pôr outro na mesma semana, sem se chatear com aquilo. Isso diz-me mais sobre a Helena do que todas as páginas sobre o eclipse. O meu palpite é que ela já sabia, quando pendurou aquilo na parede, que ia ficar com o quadro muito mais tempo do que ficou com ele.

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