"Chegamos", disse o GPS.
A Casa Capitu surgiu no fim da estrada.
Uma pensão com alma de fazenda antiga: varanda larga ao redor da construção, paredes de taipa e jardins bem cuidados. Parecia existir em outro tempo.
Todos pareciam almoçar.
Ele desligou o carro e saiu.
Óculos escuros. Tatuagens cobrindo os dois braços.
No direito, desenhos tribais. No esquerdo, linhas inspiradas no Egito antigo se misturavam a planetas do sistema solar e um buraco negro.
Com uma mochila de camping nas costas e duas cases rígidas pretas nas mãos, ficou parado por alguns segundos.
Olhou para a direita.
Depois levantou os óculos.
Fez um breve cumprimento com a cabeça para três pessoas sentadas em uma mesa.
Eles responderam da mesma forma.
Na mesa estavam três pessoas.
Uma mulher de cabelos negros, pele clara marcada pelo sol e tatuagens em estilo fine art. Olhos azuis. Ao lado dela, um homem negro. O contraste dos dois chamava atenção.
À frente, uma jovem de rosto leve, cabelos ondulados com mechas loiras e poucas tatuagens místicas nos braços.
Ela segurava um livro enquanto esperava o pedido.
Um senhor idoso saiu da varanda.
Apesar da idade, tinha olhos atentos.
— Jovem, você é novo por aqui, né?
Mercúrio virou-se.
— Sou. Prazer, Mercúrio.
O velho estendeu a mão.
— Juvêncio do Fumo Roxo.
Os dois se olharam e riram.
Na mesa, a jovem virou o livro sem perceber.
Mercúrio viu a capa.
Sol de Mercúrio.
Ele sorriu.
— Ora... o que se faz aqui? É músico? Isso é uma sanfona?
Apontou para as cases.
— Não. Sou astrônomo.
— Mas você usa as mesmas mochilas de músico.
— Você não é o primeiro a dizer isso.
Os dois riram.
Juvêncio apontou para a estrada.
— Se precisar comprar um lote, fale comigo.
Mercúrio olhou para ele.
— Juvêncio do Fumo Roxo?
— Esse mesmo, meu jovem.
O velho ajeitou o chapéu.
— Se cuida. Vou indo, tenho que cagar.
Silêncio.
Mercúrio segurou o riso.
— Vai fundo, seu Juvêncio do Fumo Roxo.
A mesa explodiu em risadas.
Até a jovem do livro.
Mercúrio pegou suas coisas e entrou na pensão.
Os três acompanharam com os olhos.
O carro ficou parado na entrada.
Era o único veículo ali, apesar de a pensão estar quase lotada.
Na mesa, os três ainda observavam a entrada da Casa Capitu.
— Nossa... que gato. Eu chamaria para fazer vídeos comigo.
Sol olhou para Valentina.
— Nossa, Valentina... às vezes é estranho ser sua amiga.
— Não se preocupe. Ela é assim mesmo — disse o rapaz ao lado dela.
Valentina deu uma cotovelada nele.
— Que isso, Valentina?
— Nada.
— Sei.
Ela sorriu, mas logo ficou mais séria.
— O mês foi fraco, né?
— Foi — respondeu Sol. — Mas paga as contas e ainda sobra um pouco para o luxo.
Valentina mexeu no copo.
— Site privado anda pagando menos.
— Pelo menos você controla o próprio conteúdo.
— Sim. Esse é o lado bom. O problema é o público. Tem gente que pede cada coisa...
— Mas toda área é assim.
— É. A diferença é que no meu caso até conteúdo antigo ainda rende.
O rapaz riu.
— E quanto deu?
— Uns trinta mil.
Sol arregalou os olhos.
— Nossa. Eu queria faturar assim.
— Três meses atrás foi melhor. Chegou perto de oitenta.
— Mas tem divulgação, taxas, porcentagem do site...
Sol observou Valentina por alguns segundos.
— Você bebeu água de uma fonte que muita gente ainda tem vergonha de chegar perto.
Valentina deu de ombros.
— É.
Ela olhou para Mercúrio entrando na pensão.
— Mas você e ele poderiam fazer conteúdo juntos. O tatuado ia chamar atenção.
O rapaz olhou para Sol.
— Eu compraria.
Os dois riram.
— Pensou nos quatro? — perguntou Valentina.
Sol fez uma careta.
— Que nojo, Valentina.
Todos riram.
— Sol, o que você está lendo? — perguntou Neto.
Ela levantou o livro.
— Sol de Mercúrio.
Valentina olhou para a capa.
— Aposto que é um daqueles romances de época.
— É... mais ou menos isso.
— Você é previsível, Solange.
Nesse momento, Mercúrio passou próximo à mesa.
— Solange? — chamou alguém da recepção. — Precisa tirar o carro.
Ele ouviu o nome.
Um pequeno sorriso apareceu.
Valentina percebeu.
— Fala baixo.
— Como assim? Eu sou assim. Capricorniana com ascendente em escorpião. Pago para ver.
Neto balançou a cabeça.
— Você é irritante.
— E mesmo assim você continua trabalhando comigo.
Ele riu.
— Porque alguém precisa cuidar da sua cabeça.
Valentina apontou para ele.
— E olha que funciona.
Os dois riram.
Depois ela virou para Solange.
— Mas falando sério... faz meu mapa depois. Estou sentindo uma energia boa nesse lugar.
Solange ficou em silêncio.
— Vai, amiga. Me conta do livro.
Ela abriu a capa.
— É sobre um pintor promissor que vai para uma fazenda no interior. Lá ele conhece Solange, uma jovem casada com um homem quase oitenta anos. Ele se envolve com várias pessoas da fazenda, menos com ela.
Valentina fez um gesto de arma na boca e fingiu um disparo.
— Continua.
— Valentina...
— Estou ouvindo.
— O livro fala sobre desejo, escolhas e pessoas presas às próprias vidas.
— Então o cara é pobre igual escritor e resolve compensar?
— Valentina.
— O quê? Só estou analisando.
Neto riu.
— Ela tem um ponto.
Solange fechou o livro.
— Ele também é astrônomo.
Os três olharam para dentro da pensão.
— Ele e você têm alguma coisa em comum — disse Valentina. — O livro chama Sol de Mercúrio e ele se chama Mercúrio.
Silêncio.
Solange olhou para a capa.
— Não sei.
— Casa de ferreiro...
— Espeto de pau — completou Solange.
Valentina sorriu.
— Isso o Mercúrio deve ter.
O garçom chegou.
— Risoto de pequi com carne seca.
No mesmo instante, todos os celulares vibraram.
"Saudações, terráqueos. Eu voltei. — Xablaw."
A pensão inteira caiu na risada.
— Voltou.
— Fazia meses.
— A polícia nunca pegou esse infeliz.
— E nem vai.
A conversa se espalhou pelas mesas.
Na avenida principal, até a praça dos discos voadores, bonecos de ETs verde-fluorescentes voltavam a chamar atenção.
As mensagens tinham recomeçado.
Mercúrio voltou a pé, depois de deixar o carro no estacionamento.
Olhou o celular.
— Ô, louco... que porra é essa?
Sorriu sozinho.
Ao passar pela varanda, viu novamente o trio almoçando.
Entrou na pensão com a mochila nas costas e as cases nas mãos.
Perto da porta, um homem de violão cantava clássicos da música brasileira.
Ao ver Mercúrio, abriu um sorriso.
— E aí, cara! Bom te ver de novo!
As conversas diminuíram por um instante.
Mercúrio sorriu de volta, sem entender.
— E aí... beleza.
Seguiu andando.
Atrás do balcão, a recepcionista percebeu a confusão.
— É o Jairo.
— Nunca vi esse sujeito.
— Ele diz que foi abduzido.
Mercúrio olhou novamente para o músico.
— Entendi.
A recepção misturava madeira, plantas, cristais e sofás coloridos.
Ao lado do balcão, uma caixa de correio de bronze chamava atenção.
Cartas para Capitu.
— O que é isso?
— As pessoas deixam cartas. Capitu responde.
— Responde?
— Dizem que sim.
Mercúrio sorriu.
— Dom Casmurro...
— No jardim tem uma estátua dela.
Ele agradeceu e atravessou o corredor.
O jardim era silencioso.
No centro, Capitu em bronze.
A escultura escurecida pelo tempo contrastava com o brilho dourado dos seios, polidos pelas mãos de quem passava.
Aos pés da estátua, flores, bilhetes e envelopes.
Mais gente chegava da avenida, caminhando entre pousadas e cafés.
Ao fundo, o vale.