Quando a forte luz da cúpula verde infesta minha íris, sei que você chegou
Trazendo mais vida morta entre seus braços fortes
Sei que não se esqueceu de mim
Que ainda repouso em sua memória
Antes era eu que massageava seus pés após um longo dia de caça
Era eu quem o saciava ao iniciar a madrugada
Hoje estou dentro de sua gaveta
Sou apenas uma lagarta sem suas pobres asas
Meu sangue sente falta de respingar em suas grandes mãos
Por que não me joga em seu divã e revira minhas entranhas?
Me jogue às escadas, que é sua fogueira de mulheres
Deixe-me ser sua novamente
Me tire desse solitário vazio
Estou com sede do seu sorriso
Cuspa em meu horrendo corpo
Rasgue minha pele ao ouvir meus berros
Lhe peço que seja seiva em minha floresta
Que minha dor ecoe em seu vazio
Me reconstrua
Enterre fundo meus maus pedaços
Coma meus olhos para sentir o gosto do que eu enxergo ao olhar para você
Triture meus ossos e os inale para sentir o aroma de meu prazer ao adentrar seu corpo
Deixe-me morar em você
Me corte em pedaços e os introduza em sua boca
Ouça meu pedido em pavor
Faça de mim sua única refeição
Me tire desse esgoto
Mas, por favor, me faça sua
Permita que eu o engrandeça em sua ausência
Que eu possa ceder a seus desejos macabros esta noite
Me conceda a graça que é ter minha alma à espera de sua chegada
Limpe seu corpo com meus fluidos
Mergulhe em meus restos
Mas prefira minha presença em seu fundo prato
A ausente luz se torna fria ao não ouvir seus passos
Não enxergo o seu tom esverdeado que antes percorria por todas as paredes
Não recordo o sabor do seu cheiro
Aguardo sua escolha amanhã
Mas não sou capaz de tocar seus pés
Um dia fui sua presa
Seu pedido
Estive em seus braços
A cada pulsar de meu coração é mais uma das milhares de vezes em que anseio por você
Deixe-me ser seu animal morto
Retire minha pele e coloque sobre seus ombros largos
Quero adornar seu corpo
Eu lhe imploro
Seja meu caçador e atire contra meu corpo
Me carregue em seus braços
Ligue a luz do abajur
Me faça sua
Não me arremesse ao topo de sua montanha de peles
Deixe-me brilhar em sua cúpula
E gritar aos montes
O quanto quero morrer em você