Recentemente alguém comentou comigo sobre não entender como as pessoas mantinham contato antes do whatsapp. Eu não soube explicar, e por um momento também me perguntei como era possível. E estamos falando de uma realidade que era comum até 10 anos atrás, lembrando que na primeira década desse novo século, que foi quase outro dia, celulares nem eram populares, mas as pessoas davam um jeito — sempre deram, mesmo quando nem os telefones fixos eram comuns, pois já foram um item bem caro ou impossibilitado por falta de cabeamento na região. Sim, já houve tempo em que cabos de telefonia, e até de energia, não chegavam a certas localidades. Aliás, houve um tempo em que nada disso existia, e a humanidade sempre deu um jeito de se comunicar.
Mas sobre a revolução trazida pelo whatsapp, recebi outro dia a mensagem de um amigo das antigas me dando uma triste notícia: o Léo morreu, dizia a mensagem. Quem a mandou foi o Cledson, e o ponto é que não nos víamos desde antes dos smartphones. Não quis perguntar como ele conseguiu meu número, pra não ficar chato o fato de eu não ter contato nenhum dele, nem nas redes sociais, e isso porque éramos bons amigos. Nosso distanciamento se deu como parte daquele típico caso onde tempo e espaço afastam as pessoas.
Mas o Léo morreu. Logo ele, que era o elo entre os amigos das antigas. O encontrei cerca de um ano atrás, e ele me deu notícias sobre praticamente todos com quem tínhamos contato. Era a turma do trabalho, mas entre nós tinha quem já se conhecia de algum curso, ou por terem crescido no mesmo bairro, ou por terem estudado juntos na infância, ou por algum parentesco, e essas diversas associações davam ao grupo uma ligação diferente, como se todos se conhecessem desde sempre. Inclusive o Léo ficou de me colocar no grupo de whats dessa galera, mas deve ter esquecido, algo que o Cledson corrigiu, me adicionando — Foi pelo grupo que recebi atualizações sobre o velório e o enterro.
Uma coisa que eu e o Léo comentamos em nosso último encontro foi sobre marcar alguma coisa pra reunir o pessoal. Parece que ele deu um jeito disso acontecer. Para facilitar as coisas, o filho da mãe ainda foi velado num sábado de manhã e enterrado no final da tarde. E em poucos rostos de defuntos eu vi tamanha serenidade. Tinha até um leve sorriso e parecia dizer “pronto, criei a situação pra reunir todo mundo, agora façam valer a pena”. O velório se tornou numa resenha, e ali lembramos dos velhos tempos. Lailson estudou com o Léo no primário e nos trazia histórias dessa época como se todos estivéssemos lá.
A resenha serviu para trazer momentos que cada um teve com ele, mas também para atualizarmos nossas trajetórias até ali. Aquela galera que se revezava entre bares, baladas e, quando a seca era grande, na zona mesmo, agora eram pais de família — alguns de várias famílias inclusive, e havia até avós entre eles. O Léo era avô. Tinha uma neta de seu filho mais velho, chamado Leozinho. O chamei de Junior, mas ele me corrigiu, dizendo não ter o mesmo nome do pai. Ressaltou que era comum a confusão. Se chamava Leandro. A mãe que escolheu, o que até dava pra entender, pois o nome do Léo era Leonilde. Um nome que por si só provoca bullying, mas ele sempre soube levar na brincadeira, o que certamente impedia a zoeira de o perseguir por muito tempo, e por fim, todos acabavam o chamando de Léo.
Após a despedida, novamente vieram os comentários sobre marcarmos um encontro, até que alguém sugeriu não desperdiçar aquele, que já estava em ação, e com exceção de alguns que não puderam ficar, a maioria foi pra um bar ali perto, que era inclusive no bairro onde o Léo e alguns do grupo cresceram, e lá nos pusemos a jogar sinuca, misturar bebidas, experimentar aqueles petiscos jurássicos que pareciam parte da decoração — até os enigmáticos ovos coloridos e os pés de galinha mumificados tivemos coragem de experimentar.
E ali aconteceu nosso encontro inesperado, algo que o Léo conseguiu organizar mesmo depois de morto. Uma proeza digna de alguém que era mestre na arte de unir pessoas. Seguimos ali até o sol começar a se pôr, e com o horário avançado e todo mundo meio bêbado, resolvemos encerrar, antes que tivéssemos que ser carregados. Abrimos a saideira e estendemos nossos copos na direção do sol, que começava a sumir no horizonte, e saudamos pela última vez nosso grande amigo. Valeu por tudo, Léo, inclusive pela possibilidade desse grande encontro.