Eu sento diante da tela e prometo outra vez,
que hoje eu termino o que o ontem sequer fez.
O relógio se move, mas eu permaneço em meu lugar,
vendo a manhã desaparecer sem sequer começar.
O café esfria ao lado, esquecido sobre a mesa,
e o silêncio do quarto aumenta minha fraqueza.
Tenho tanto para fazer, mas não consigo avançar,
cada tarefa parece um muro impossível de escalar.
O dia vai embora num movimento lento,
e eu continuo preso ao mesmo pensamento.
Quando a noite chega, vem o peso da culpa,
e toda decisão antiga retorna e me acusa.
Eu revisito escolhas que queria apagar,
caminhos que abandonei antes de tentar.
Penso no homem que eu poderia ter sido,
e no tanto de futuro que deixei perdido.
Talvez tenha sido o medo, talvez falta de coragem,
talvez eu tenha confundido descanso com sabotagem.
Foram tantos “depois” empilhados pelo chão,
que hoje eles parecem parte da decoração.
E eu tento me distrair com aquilo que amava,
mas nada mais provoca a sensação que provocava.
Abro um livro e leio sem absorver,
ligo um jogo e não encontro razão para vencer.
Um anime começa, termina, e eu mal prestei atenção,
as imagens passam diante de mim sem provocar emoção.
Aquilo que antes era abrigo, descoberta e prazer,
agora parece apenas mais uma coisa para fazer.
Não perdi meus gostos, perdi a vontade de sentir,
e até aquilo que me salvava agora me faz desistir.
O que antes ocupava minhas noites por inteiro
hoje parece distante, artificial e passageiro.
Meu corpo também carrega a marca desse abandono,
mais pesado a cada dia, mais cansado ao meu sono.
O espelho me devolve aquilo que tento evitar:
um corpo que mudou enquanto eu fingia não notar.
E volto para a tela porque é mais fácil permanecer
num lugar que nunca exige que eu tente me entender.
Ela não pergunta por que eu parei no caminho,
nem quer saber por que eu me sinto tão sozinho.
Só ilumina meu rosto no quarto escurecido,
enquanto o resto do mundo continua seu ruído.
O cursor pisca, esperando alguma decisão,
e eu respondo com silêncio, cansaço e hesitação.
Às vezes penso que perdi completamente o sentido,
como quem acorda num lugar onde nunca foi bem-vindo.
Não sei se ainda procuro um destino ou direção,
ou se simplesmente me acostumei com essa enorme indecisão.
A pior parte não é saber que estou atrasado,
é saber quantas vezes eu poderia ter começado.
Quantos dias desperdiçados por medo de fracassar,
quantas horas entregues ao simples ato de adiar.
E amanhã eu provavelmente repetirei o ritual:
a mesma cadeira, a mesma tela, o mesmo vazio habitual.
Talvez eu diga que dessa vez vou conseguir mudar,
enquanto uma parte de mim já espera o dia acabar.
Porque eu ainda estou aqui, embora não saiba por quê,
olhando o cursor piscar como quem pede que eu tente viver.
Mas meus dedos não se movem, minha voz não sabe insistir,
e mais um dia desaparece sem que eu consiga impedir.