Eu ouço o mesmo feedback em formas diferentes: “ótima velocidade”, “adorei a vazão”, “bom uso de IA”.
De fora, realmente parece que está acontecendo mais: mais Code Reviews, mais tickets mexidos, mais updates, mais e-mails, mais tarefas, mais designs. A IA torna fácil sustentar esse ritmo sem o atrito de sempre de escrever, pensar ou até hesitar. Mas dentro do trabalho existe um dilema que não para de crescer.
Existe a engenharia de verdade: caçar uma race condition que só aparece sob carga, ou perceber que um bug “simples” é, na verdade, uma premissa quebrada no design. Ou decidir não refatorar um sistema só porque ele está bagunçado, porque ele ainda funciona e o risco não compensa. Essa parte não fica mais rápida com IA. Você faz o trabalho que a IA consegue fazer e fica com métricas bem menores que os outros engenheiros? Ou você simplesmente vai lá e fica promptando o dia inteiro, gerando código e designs o tempo todo? Você procura soluções SEM código ou usa a IA pra criar uma penca enorme de features, sistemas, designs? Pois é... eu também não sei o que fazer.
Aí tem tudo que vem em volta. A IA torna trivial gerar um refactor enorme de “limpeza” que renomeia arquivos e reorganiza módulos pra que o código pareça melhor num PR. Ou subir uma suíte de testes ampla que dá a impressão de cobertura sem realmente mirar nos modos de falha que importam. Ou dividir uma mudança única e coerente em dez PRs menores pra que o gráfico de atividade pareça mais saudável. Até a documentação é arrastada pra isso, docs polidos e extensos que se leem bem... mas que ninguém lê mais de verdade porque tem ruído demais acontecendo. A gente prompta a IA pra gerar designs e aí os nossos revisores promptam a IA pra resumir e revisar. E a gerência parece amar isso.
O comportamento de engenharia se adapta aos KPIs que contam. Mais commits incrementais, mais fragmentos de PR, mais notas de “a IA me ajudou a gerar isto” que sinalizam participação no fluxo esperado. Mesmo quando o trabalho de verdade ainda é a parte lenta, depurar, raciocinar, dizer não a mudanças desnecessárias,cada vez mais ele precisa ser embrulhado em artefatos que parecem progresso. Todos nós queremos manter nossos empregos.
A parte incômoda é que a IA não só aumentou a produtividade. Ela baixou o custo de produzir evidência convincente de produtividade. E quando isso fica fácil, começa a competir com a pergunta mais difícil de se algo daquilo de fato importou.