Mais uma vez estudando um pouco de filosofia para entender os caminhos que minha vida tomaram, me peguei lendo algo que parece que foi direcionado pra mim…
Acho que uma das maiores confusões da nossa época é pensar que fazer algo bem só vale a pena se render alguma coisa visível. Dinheiro, reconhecimento, fama, promoção, seguidor, elogio. Como se caprichar em algo só fizesse sentido quando dá pra trocar por retorno.
Mas dá pra olhar pra isso de outro jeito.
Talvez buscar excelência não seja só uma estratégia pra conseguir alguma coisa. Talvez ela já seja, por si só, um jeito melhor de viver.
Aristóteles chamava isso de virtude. Pra ele, uma vida boa não era uma vida cheia de prazer ou recompensa, mas uma vida em que você desenvolve o que tem de melhor. E excelência não é um momento isolado — é hábito. Fazer bem uma vez não transforma ninguém. Fazer bem de novo, e de novo, é isso que constrói caráter.
Isso muda completamente como a gente encara trabalho, esforço, e até felicidade.
Porque o resultado nem sempre tá nas suas mãos.
Você pode fazer um trabalho excelente e outra pessoa levar o crédito. Pode ensinar alguém que depois vai ser mais reconhecido que você. Pode construir algo que só vai dar frutos quando você já nem estiver mais ali. Pode arrumar, melhorar, corrigir, deixar tudo funcionando — pra que outra pessoa, lá na frente, colha o que você plantou.
Se a sua satisfação depender só da colheita, você vai passar boa parte da vida frustrado.
Mas se ela também morar na qualidade de como você planta, alguma coisa fica com você — aconteça o que acontecer depois.
Os estoicos já falavam nisso. Epicteto dizia que tem coisa que depende da gente e coisa que não depende. Nosso esforço, nossa postura, nossas escolhas, a qualidade do que fazemos — isso tá bem mais perto do nosso controle. A opinião dos outros, o resultado final, o reconhecimento — isso não tá.
Então talvez a pergunta certa não seja "o que eu vou ganhar com isso?"
Talvez seja: "eu tô fazendo isso da melhor forma que eu consigo?"
Tem uma diferença enorme entre querer parecer excelente e querer ser excelente.
Quem quer parecer precisa de plateia.
Quem quer ser consegue fazer um bom trabalho mesmo quando ninguém tá olhando.
É o profissional que confere de novo aquilo que já parecia certo. É o professor que prepara bem uma aula sabendo que poucos alunos vão notar o esforço. É o atleta que executa direito a última repetição sem nenhuma câmera apontada pra ele. É quem organiza, corrige, melhora alguma coisa só porque acredita que aquilo merece ser bem feito.
E tem uma coisa importante nisso: autoestima. Não aquela de achar que você é melhor que os outros — mas a que vem do respeito que você desenvolve por você mesmo.
Quando você percebe que consegue cumprir o que se propôs, que consegue agir com disciplina, que consegue entregar qualidade mesmo sem recompensa na hora — você passa a confiar mais em si.
Você passa a gostar não só do que tem, mas de quem você tá se tornando.
Talvez seja por isso que excelência tem uma relação tão profunda com felicidade.
Porque dinheiro some. Cargo acaba. Fama passa. Recorde é quebrado. As pessoas esquecem.
Mas o que você construiu dentro de você, em anos de esforço, permanece de outro jeito.
Competência. Conhecimento. Disciplina. Caráter. Experiência. Capacidade.
Nietzsche falava em superar a si mesmo. Talvez seja outra forma de entender excelência. Não é necessariamente vencer o outro — é não continuar exatamente igual ao que você era ontem. Um pouco melhor. Um pouco mais capaz. Um pouco mais consciente.
E isso me lembra uma ideia do Camus.
Sísifo empurra eternamente uma pedra até o topo da montanha, sabendo que ela vai cair de novo. Não tem recompensa final esperando por ele.
Mesmo assim, Camus diz que a gente deve imaginar Sísifo feliz.
Talvez porque a vida não aconteça só quando finalmente chegamos ao topo. Ela acontece enquanto a gente empurra a pedra.
A gente também vai sempre ter outra tarefa, outro problema, outro treino, outro projeto, outra dificuldade. Se a gente esperar o momento em que tudo vai estar resolvido pra começar a viver bem — esse momento talvez nunca chegue.
Então talvez parte do sentido da vida esteja justamente em como a gente faz o que tá na nossa frente.
Fazer bem o trabalho. Desenvolver nossas capacidades. Ensinar o que sabemos. Cuidar de quem depende da gente. Melhorar os lugares por onde passamos. Deixar algo um pouco melhor do que encontramos.
Talvez ninguém reconheça tudo. Talvez outra pessoa receba os aplausos. Talvez alguém colha o que a gente plantou.
Mas isso não quer dizer que nosso esforço foi perdido — porque tem uma recompensa que já acontece durante o processo.
Ao tentar fazer melhor, a gente também vai se tornando melhor.
E talvez excelência seja exatamente isso: não fazer bem pra receber mais, mas fazer bem porque o que a gente faz também tá construindo quem a gente é.
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Referências
- Aristóteles, Ética a Nicômaco
- Epicteto, Manual (Enchirídion) e Discursos
- Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra e Além do Bem e do Mal
- Albert Camus, O Mito de Sísifo