“Sou eu quem vou seguir você do primeiro rabisco até o bê-a-bá....”, já diria, há muitos e muitos anos, o icônico Toquinho.
Foi com essa música que eu acordei em praticamente todos os momentos importantes da minha vida e é com essa música, que me marcou em tantos momentos, que estou escrevendo este depoimento.
Ela sempre me intrigou.
Como assim? “Um favor? Se puder? Não me esqueça em um canto qualquer? Isso é insano! Como eu poderia esquecer meu pai? Logo o pai que eu tenho? Eu, hem?!”.
Mas com o passar do tempo, com o cotidiano, com os desafios, as decepções, as lutas, ou como queiram nomear o amadurecimento humano, as vendas caem e a realidade nos conduz por muitos caminhos, experiências; nos apresentando referências, e dando a oportunidade de escolher.
A música continuou sendo incoerente e absurda, ao considerar o meu lar, um lar de tanto amor, carinho, atenção, presença, zelo, valores e fé em que eu e meus irmãos fomos criados, mas eu passei pelo menos a entendê-la, passei a entender o que significava aquela súplica do meu pai, que foi repetida, por meio dessa música, em tantos momentos.
Passei a entender que um dia existiriam muito mais e mais interessantes apelos do que “somente” os pais. Passei a entender que existiriam muitos lugares mais atrativos do que o lugar de disputa por um cantinho pra dormir entre eles e questões muito maiores, mais difíceis e complexas do que o lugar em que, eu, o Thiago e a Flora sentaríamos no carro, mas pelo menos, no mesmo carro, nós 5.
Brigando e indo pra Caponga ou pro Cedro e Crato, com cheiro de pequi, deixando a todos dopados com aquele cheiro fortíssimo, mas juntos, felizes, criando memórias e ouvindo fitas e mais fitas, que formaram muito do nosso senso musical de qualidade e que até hoje, seja em Fortaleza, Belo Horizonte, SP, entre os adultos ou entre as novas gerações, reverbera.
Meu filho, por exemplo, desde os 4 anos não pode ouvir os acordes iniciais de Anunciação, de Alceu Valença, que para o que quer que esteja fazendo e grita: “mamãe, mamãe, a minha música!”, a mesma canção que fez parte da juventude dos meus pais e da minha infância com eles e meus irmãos, agora meio que de uma forma inconsciente, ou não, marca memórias de um novo descendente, algumas gerações depois e em um mundo completamente diferente.
Aprendi com as professoras da minha filha mais velha quando moramos em São Paulo, que isso se chama ancestralidade, bonito, né? Ela costumava dizer: “Sua filha carrega uma ancestralidade incrível”. Um nome chic, pomposo, mas que quer dizer nada mais, nada menos, do que isso que se mantém, que nos liga como um fio condutor de gerações, de tradições, de sonhos e que se perpetua, cheio de novos e antigos significados desde Chico da Cascata, com suas anedotas que ultrapassam a mortalidade do seu corpo.
O Zé que curte um drink vermelho com laranja e gelo, o Zé que entoa Martinho da Vila quase que numa performance que é impossível não lembrar dele em qualquer lugar em que escutemos essa e algumas outras boas músicas, o Zé que fala: “Homi, minha cabeça já tá doendo, deixe de me aperrear”, que ama o Flamengo mais do que quase tudo no mundo, que faz umas mandigas que só ele entende, o Zé unanimemente legal, o Zé gente boa, o Zé que colocou a régua da referência para os cônjuges dos seus filhos, lá no teto, “apenas” por ser: o Zé.
O mesmo Zé que ama uma novidade, “eeeee o que é isso aí? Eeeee como é que funciona? E é bom mesmo? Eu quero”, quem nunca ouviu essas frases vindas do Zé? Pergunte quantos fones sem fio da marca famosa da maçã ele já teve? Quantos eletrônicos de leitura de texto, cafeteiras, robôs de limpeza, luzes de casa por sensor e até uns óculos que parecem ser um inocente utensilio de grau, mas que na verdade é quase uma ferramenta de espionagem com câmera, conexão com celular, música, atende a comandos automáticos por voz, uma verdadeira geringonça que poderia ser apenas mais uma invenção do seu ídolo dos quadrinhos na infância, lá na Cascata, no interior do Ceará, o Professor Pardal.
O tempo passou, mas ele recusou-se a se ultrapassar em todos os aspectos.
Zé, que dizem que um dia foi boêmio e aventureiro e que é, digamos, um pouco, não habilidoso com coisas de quebrar e de quem supostamente puxei esse senso, digamos também, desbravador, rueiro e desastrado, mas de quem igualmente puxei a leveza, o sorriso frouxo e a alegria de viver.
Zé que saiu do Crato, mas que nos guiou muito bem com seu mapinha físico por todas as trilhas e rotas de metrô de New York, Zé que tá sempre pronto para a próxima viagem, Zé marido, que nasceu pra a Maria, graças a Deus. O encaixe perfeito, que em uma parceria única e de completude plena, deu tantos bons e grandes frutos, frutos do bem, frutos que são reconhecidos como pessoas igualmente corretas, pessoas sensíveis, empáticas, pessoas prósperas e desapegadas de coisas superficiais, afinal, (que não me escute seu Chico da Cascata, contando anedotas lá no céu), mas um pé de seriguela tem como dar cajá, não é mesmo?
Só me resta agradecer por sua vida, mas principalmente por sua vitalidade, sua saúde, sua gana de viver, mas não viver de qualquer maneira, viver com leveza, com amor, com um novo sonho sempre, agradecer pela sua índole, mas principalmente pela honra dele ter nos dados o Zé!
Ahhhh e só pra fechar:
“Esquecer num canto qualquer?!”
Jamais.
Vocês deram o exemplo muito bem dado.
Viva o Zé!!!!