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Ensaio sobre o inferno e 2026

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Conteúdo da publicação

O fardo de se tornar adulto talvez seja este: descobrir que o mundo é injusto, compreender que há algo profundamente errado na maneira como existimos e, ainda assim, perceber que nem sempre temos o poder de transformar aquilo que nos revolta.
Na infância, acreditamos que as coisas podem ser consertadas. Que basta apontar o erro, denunciar a injustiça ou estender a mão a quem sofre para que alguma mudança aconteça. Crescemos imaginando que a maldade é uma exceção, um desvio daquilo que deveria ser a natureza humana. Até que o tempo nos apresenta uma realidade mais amarga: a crueldade não apenas existe, como também pode ser institucionalizada, recompensada e transmitida de geração em geração.
E é nesse momento que começamos a ceder.
Não necessariamente porque nos tornamos maus, mas porque aprendemos a conviver com o que antes nos parecia insuportável. A violência deixa de nos surpreender. A miséria passa a fazer parte da paisagem. O sofrimento alheio se transforma em estatística, manchete ou ruído de fundo. Aquilo que deveria nos interromper passa a acompanhar nossas refeições, nossos trajetos e nossas noites de sono.
Se a violência, a rudeza, o ódio e a crueldade já não lhe causam espanto, talvez seja porque você tenha sido lentamente introduzido à indiferença. Talvez tenha aprendido, como tantos de nós, que sentir demais é perigoso, que se importar é desgastante e que, para continuar vivendo, é necessário fechar os olhos para uma parte do mundo.
Digo isso porque também sinto em meu peito uma fúria que, se pudesse, destruiria tudo aquilo que considero injusto. Uma raiva que não nasce necessariamente do desejo de ferir, mas da impotência de assistir ao sofrimento sem saber como interrompê-lo. E temo que, quando essa impotência não encontra um caminho para a transformação, ela acabe se tornando aquilo que mais detestamos: mais uma forma de violência.
Talvez seja essa uma das grandes tragédias da existência humana: corremos o risco de nos tornarmos semelhantes àquilo contra o qual lutamos.

Ao longo da história, a humanidade construiu impérios, ergueu templos, escreveu constituições, declarou revoluções e travou guerras em nome da liberdade, da justiça e da civilização. Abolimos antigas formas de dominação, conquistamos direitos e ampliamos nossas possibilidades de existência. Ainda assim, continuamos convivendo com a fome, a exploração, a desigualdade e a indiferença.
Mudam-se os séculos, as bandeiras, os governantes e os discursos. Mas certas estruturas permanecem, reinventando-se sob nomes mais aceitáveis.
Jean-Jacques Rousseau, no século XVIII, questionou a ideia de que o progresso da civilização necessariamente tornaria o ser humano melhor. Karl Marx, no século XIX, voltou seu olhar para as relações materiais, para o trabalho e para as estruturas econômicas que organizam a sociedade. Já Hannah Arendt, ao refletir sobre os horrores do século XX, investigou como a violência e o mal podem encontrar espaço não apenas na figura de monstros extraordinários, mas também na obediência, na ausência de reflexão e na normalização do inaceitável.
Pensadores diferentes, épocas distintas, mas uma inquietação que continua viva: como uma humanidade capaz de produzir tanto conhecimento, tanta beleza e tanta grandeza pode também organizar tão sistematicamente o sofrimento de seus semelhantes?
Talvez o problema não esteja apenas naquilo que somos capazes de fazer uns aos outros, mas também naquilo que aprendemos a aceitar.
E, quando percebemos que não podemos mudar o mundo de uma só vez, começamos a procurar maneiras de exercer algum controle sobre ele.
Quase sempre, encontramos o dinheiro.
Se não posso transformar o mundo, talvez possa comprar uma parte dele. Se não posso eliminar a insegurança, talvez possa pagar para me proteger dela. Se não posso garantir que serei respeitado, talvez possa acumular símbolos de poder suficientes para que ninguém ouse me desprezar.
Assim, aquilo que começa como uma tentativa de sobreviver pode se transformar em uma busca interminável por domínio. Já não queremos apenas viver bem: queremos estar acima. Já não nos basta ter segurança; queremos a certeza de que ocupamos uma posição que os outros não podem alcançar.
E aquele que aprende a alimentar esse desejo com maior eficiência acaba, muitas vezes, sendo recompensado por uma sociedade que confunde riqueza com mérito, poder com competência e sucesso com superioridade moral.
Não significa que todo rico seja cruel, que todo desejo de prosperar seja condenável ou que o dinheiro não tenha sua importância. O problema começa quando ele deixa de ser um instrumento para a vida e passa a determinar o valor dela.
Quando foi que começamos a medir o sucesso de uma existência pelo que ela acumula, em vez de pelo que ela experimenta, transforma ou oferece?
Esquecemos que há coisas pelas quais vivemos e que não podem ser reduzidas a uma transação.
O que desperta em você o maior desejo de continuar existindo?
A música que atravessa seu corpo e faz o mundo parecer suportável por alguns minutos? O amor que encontra em outra pessoa? Uma conversa que se estende pela madrugada? O riso de alguém que você ama? A paz de estar sozinho, sem precisar provar absolutamente nada a ninguém? A certeza de que existe um lar para onde voltar?
Ou será o salário depositado no fim do mês, a próxima aquisição, o reconhecimento de pessoas que talvez nem conheçam quem você realmente é?
Não há vergonha em precisar de dinheiro. A fome não se resolve com poesia, e a dignidade também depende de condições materiais. O absurdo está em construir uma sociedade na qual tantos precisam sacrificar quase todo o tempo de que dispõem para conquistar o mínimo necessário à própria sobrevivência, enquanto a promessa de viver permanece adiada para depois.
Há tanto nesta vida que só pode ser vivido, jamais comprado. E é justamente isso que me assusta: podemos passar a existência inteira tentando adquirir as condições para viver e, quando finalmente as conseguimos, descobrir que já não sabemos o que fazer com a própria vida.

Ainda alimento a esperança de mudar o mundo. Mas, diante de sua vastidão e da minha pequenez, começo a me perguntar se talvez eu deva começar por mim mesma.
Não porque a injustiça seja culpa de quem sofre, nem porque a transformação social possa ser substituída por uma jornada individual de autoconhecimento. Mas porque existe uma diferença entre reconhecer a crueldade do mundo e permitir que ela determine tudo aquilo que nos tornamos.
Talvez eu precise aprender a não reproduzir o que me feriu. A não transformar minha revolta em desprezo. A não permitir que a desumanidade alheia me convença de que a ternura é uma fraqueza.
Quem sabe, assim, eu consiga encontrar um lugar onde me encaixar sem precisar mutilar partes de quem sou.
Mas até essa busca carrega seus próprios perigos.
O medo de não pertencer pode nos tornar prisioneiros da aprovação alheia. Por medo de sermos rejeitados, aprendemos a esconder nossas dúvidas, moderar nossas convicções e silenciar aquilo que nos torna diferentes. Sacrificamos partes de nós mesmos para caber em espaços que, muitas vezes, só nos aceitam sob a condição de que deixemos de ser inteiramente quem somos.
E, pouco a pouco, confundimos pertencimento com submissão.
Quantas pessoas passam a vida tentando merecer um lugar em ambientes que jamais foram construídos para acolhê-las? Quantas aprendem a odiar em si mesmas aquilo que os outros não souberam compreender? Quantas ferem os outros porque foram ensinadas a acreditar que a vulnerabilidade é uma ameaça?
Talvez a necessidade de pertencer seja uma das nossas características mais humanas. Mas ela também pode ser transformada em instrumento de controle. Basta convencer alguém de que será excluído, de que não vale o suficiente ou de que precisa ocupar uma posição superior à de outra pessoa para merecer existir.
E então o medo se torna hierarquia. A insegurança se torna preconceito. A necessidade de reconhecimento se transforma em disputa.
O que poderia nos aproximar passa a nos separar.

O ódio, a dor e a guerra já são infernos suficientes para quem precisa atravessá-los. Por que, então, precisamos imaginar que o diabo deva existir para explicar tamanha crueldade?
Às vezes, tudo parece uma farsa cuidadosamente encenada, uma peça cruel na qual recebemos papéis antes mesmo de compreender o enredo. Nascemos em determinadas circunstâncias, herdamos crenças que não escolhemos, aprendemos regras que não escrevemos e somos julgados por não conseguirmos corresponder às expectativas de um mundo que jamais nos perguntou o que desejávamos dele.
Quando começamos a questionar o espetáculo, dizem-nos que somos ingênuos. Quando apontamos suas contradições, dizem-nos que somos radicais. Quando sugerimos que as coisas poderiam ser diferentes, respondem que o mundo sempre foi assim.
Como se a antiguidade de uma injustiça fosse prova de sua legitimidade.
Como se tudo aquilo que sobreviveu ao tempo tivesse, por esse simples motivo, adquirido o direito de continuar existindo.
Dor... quanta dor eu sinto.
Se eu lhe contasse, meu Deus, tudo de ruim que vi neste mundo, será que ainda me permitiria ficar? Se eu confessasse os meus pecados, o Senhor me salvaria? E, se eu lhe perguntasse sobre os pecados daqueles que jamais confessam os seus, dos que fazem da miséria alheia uma oportunidade e da dor dos outros um instrumento de poder, o que me responderia?
Não sei se ainda procuro respostas no céu ou se apenas desejo acreditar que exista, em algum lugar, uma justiça que não possa ser comprada, manipulada ou negociada.
Porque, por aqui, salvar parece ter se tornado um desperdício.
A compaixão é frequentemente tratada como ingenuidade. A solidariedade, como obrigação inconveniente. E aqueles que não conseguem acompanhar o ritmo de uma sociedade obcecada por produtividade são deixados para trás, como se o direito de existir dependesse da capacidade de produzir alguma coisa que o mercado reconheça como valiosa.
Enquanto isso, em algum lugar, os abandonados continuam gritando.
E o mundo continua girando.

Ah, meu menino... quem foi que lhe contou que as coisas precisavam ser assim? Quem lhe ensinou a enxergar a vida como uma competição inevitável, na qual, para que você possa subir, alguém precisa permanecer embaixo?
Quem lhe disse que a pobreza é uma falha de caráter, que a riqueza é sempre uma prova de merecimento e que a desigualdade é uma lei natural, tão imutável quanto a gravidade?
Quem lhe convenceu de que, para existir espaço para você neste mundo, alguém precisa ser inferior?
Talvez tenham lhe ensinado que esse é o equilíbrio das coisas. Que sempre haverá ricos e pobres, vencedores e derrotados, aqueles que mandam e aqueles que obedecem. Uma engrenagem que gira há tanto tempo que qualquer tentativa de interrompê-la parece uma ameaça à própria existência da máquina.
E talvez você tenha acreditado.
Mas me diga: desde quando aquilo que é comum se tornou necessariamente justo? Desde quando aquilo que é lucrativo passou a ser moralmente aceitável? E em que momento confundimos a capacidade de sobreviver a um sistema com a obrigação de defendê-lo?
O passado que conheço não me ensinou que a humanidade encontrou uma ordem perfeita. Ensinou-me que impérios caem, leis mudam, privilégios são contestados e estruturas consideradas eternas acabam desmoronando. Ensinou-me que aquilo que uma geração chama de impossível pode se tornar, para a seguinte, um direito elementar.
A história não é apenas a narrativa daquilo que fizemos. É também o registro de tudo aquilo que, durante muito tempo, disseram que jamais poderíamos fazer.
Houve épocas em que a escravidão foi legalizada, em que mulheres foram privadas de direitos fundamentais e em que a exclusão de determinados grupos era defendida como parte natural da organização social. Nada disso se tornou justo por ter sido aceito.
Por isso, desconfio daqueles que apresentam a ordem existente como se fosse a única ordem possível.
Não porque toda mudança seja necessariamente boa, mas porque nenhuma sociedade deveria estar acima do questionamento moral de seus próprios fundamentos.
O que vejo, o que aprendi e o que o passado me mostrou foi a guerra, o ódio, a arrogância e o desprezo pelo outro — inclusive por aqueles que caminham ao nosso lado, compartilham nossas ruas, trabalham conosco e respiram o mesmo ar.
E eu me pergunto se você nunca sentiu curiosidade de compreender por quê.
Nunca, nem por um segundo, antes que a rotina lhe ensinasse a desviar os olhos, você se perguntou por que alguém precisa morar na rua? Por que uma criança nasce condenada a conhecer a fome antes mesmo de compreender o significado da palavra? Por que homens e mulheres, tão profundamente HUMANOS quanto você e eu, são assassinados todos os dias, enquanto tantas vidas assistem à tragédia como quem observa um acontecimento distante?
Em que momento o sofrimento de alguém deixou de ser uma pergunta dirigida a todos nós?
Eu pensava que os animais fossem os outros, não nós mesmos. Pensava que a humanidade fosse justamente a capacidade de reconhecer no outro uma existência tão legítima quanto a nossa.
Mas talvez tenhamos confundido inteligência com sabedoria, civilização com progresso moral e domínio sobre a natureza com superioridade sobre a própria natureza humana.
Construímos máquinas capazes de atravessar continentes em poucas horas, instrumentos que nos permitem observar galáxias distantes e sistemas que transmitem conhecimento de um lado ao outro do planeta em segundos. Somos capazes de desvendar o funcionamento de partículas invisíveis e investigar a origem de estrelas que talvez já nem existam.
Ainda assim, continuamos incapazes de garantir que todos tenham alimento, abrigo, segurança e a oportunidade de viver com dignidade.
Como podemos conhecer tanto sobre o universo e tão pouco sobre a maneira como escolhemos habitar este pequeno pedaço dele?
Você já tentou pensar por conta própria? Ir além daquilo que lhe ensinaram? Investigar as raízes daquilo que considera normal? Questionar não apenas as respostas que recebe, mas também as perguntas que nunca lhe permitiram fazer?
De onde nasce tanta crueldade? Quais estruturas a sustentam? Quem se beneficia quando a desigualdade é tratada como inevitável? Por que tantas pessoas defendem sistemas que as ferem, enquanto aprendem a responsabilizar aqueles que sofrem sob suas regras?
Talvez porque seja mais confortável acreditar que o mundo é justo e que cada pessoa ocupa exatamente o lugar que merece do que admitir que o acaso, a herança, o poder e as circunstâncias influenciam profundamente as possibilidades de uma vida.
Talvez seja mais fácil culpar o indivíduo do que confrontar a estrutura. Mais fácil condenar quem caiu do que perguntar por que o chão é tão desigual.
E talvez a crueldade mais persistente não seja aquela que grita, mas aquela que aprende a justificar a própria existência.

Eu, ainda na minha inocência, acredito que um mundo melhor seja possível.
Não um mundo sem conflitos, sem diferenças ou sem dor. Não uma fantasia na qual a natureza humana se transforma subitamente em bondade absoluta. Mas uma sociedade que não trate o sofrimento evitável como preço obrigatório da existência; que não confunda a dignidade com o poder aquisitivo; que não exija a humilhação de uns como condição para o conforto de outros.
Uma sociedade em que ninguém precise ser descartado para que alguém possa prosperar.
Talvez seja isso que chamamos de utopia: não necessariamente um lugar perfeito, mas a recusa em aceitar que a realidade presente represente o limite máximo das nossas possibilidades.
Thomas More, no século XVI, imaginou uma sociedade alternativa em Utopia, obra cujo próprio título passou a designar o sonho de uma organização social diferente. Séculos depois, outras tradições filosóficas e políticas continuaram a perguntar se a miséria, a exploração e a concentração de poder seriam destinos inevitáveis ou problemas que poderiam ser enfrentados coletivamente.
É claro que os sonhos também podem se tornar pesadelos. A história demonstrou que projetos de sociedades perfeitas podem justificar autoritarismos quando alguém acredita possuir a verdade absoluta e decide impô-la a todos.
Por isso, não basta sonhar com um paraíso. É preciso perguntar como construí-lo sem sacrificar a liberdade, a dignidade e a diversidade daqueles que nele viveriam.
Uma utopia digna desse nome não deveria exigir que todos pensassem da mesma maneira, mas permitir que ninguém precisasse abandonar a própria humanidade para ter direito a uma vida digna.
Então, por que esperar a vida inteira para alcançar, talvez, algo que se aproxime da paz e dos céus? Por que depositar toda a esperança em uma existência futura, se ainda temos a possibilidade de diminuir o sofrimento nesta?
Por que aceitar o inferno como destino quando ainda podemos questionar as condições que o produzem?
Não quero um paraíso que dependa da promessa de uma recompensa depois da morte. Quero compreender por que somos capazes de imaginar a eternidade e, mesmo assim, tantas vezes negamos ao outro o mínimo necessário para viver o presente.
Se existe alguma grandeza em nós, talvez ela não esteja na promessa de uma salvação distante, mas na responsabilidade de não abandonar uns aos outros enquanto ainda estamos aqui.

Já passou pela sua cabeça tudo o que a vida poderia ser?
Tudo aquilo que poderíamos criar, conhecer, sentir e compartilhar se não estivéssemos tão ocupados tentando sobreviver uns aos outros?
Imagine o tempo que a humanidade poderia dedicar à arte, à ciência, à filosofia, à descoberta e ao simples prazer de existir se tantas pessoas não precisassem consumir quase toda a própria energia para garantir a sobrevivência. Imagine quantas ideias jamais foram concebidas porque alguém passou a infância com fome, quantas descobertas se perderam porque alguém nunca teve acesso ao conhecimento, quantas formas de beleza desapareceram antes mesmo de encontrarem a oportunidade de nascer.
Quantas possibilidades humanas estamos desperdiçando para preservar uma organização social que insistimos em considerar natural?
Pense na imensidão do universo, na quantidade de galáxias que se estendem muito além daquilo que conseguimos observar, nos mistérios que permanecem inacessíveis à nossa compreensão e nas possibilidades que talvez sequer tenhamos aprendido a imaginar.
Existimos em um planeta que orbita uma estrela entre incontáveis outras, em um universo cuja vastidão desafia a nossa capacidade de compreender a própria existência. Somos matéria que, por algum caminho extraordinário, aprendeu a pensar sobre si mesma. Somos capazes de olhar para o céu e perguntar de onde viemos, para onde vamos e o que significa estar vivo.
Diante de tamanha vastidão, como podemos ter tanta certeza de que a sociedade que construímos é a única possível?
Como podemos olhar para um universo repleto de mistérios e, ao mesmo tempo, tratar nossas próprias instituições como verdades imutáveis?
Como podemos aceitar que a crueldade seja inevitável, que a desigualdade seja necessária e que a paz seja uma recompensa reservada apenas aos mortos?
Talvez sejamos pequenos demais para compreender o universo por inteiro. Mas não somos pequenos demais para questionar a maneira como tratamos uns aos outros.
E é inconcebível para mim que, neste mesmo mundo em que vivo, existam pessoas que não se incomodem com as falhas de uma estrutura que produz sofrimento, reproduz privilégios e continua funcionando sob a justificativa de que não há alternativa.
Não me assusta apenas a existência da injustiça. Assusta-me a tranquilidade com que ela pode ser observada. Assusta-me que tantas pessoas aprendam a reconhecer as rachaduras da máquina e, em vez de questionarem seu funcionamento, passem a desejar apenas uma posição mais confortável dentro dela.
Como se o problema fosse não conseguir vencer o jogo, e não precisar viver em um mundo organizado como uma disputa permanente.
Talvez seja essa a forma mais silenciosa da rendição: quando deixamos de perguntar como poderíamos transformar a realidade e começamos a perguntar apenas como podemos nos beneficiar dela.

E então volto à pergunta que me acompanha desde o início.
O que nos excita mais: a liberdade ou o ódio?
A liberdade de imaginar uma existência diferente, ou a satisfação de encontrar alguém sobre quem exercer poder? A coragem de questionar aquilo que nos ensinaram, ou o conforto de pertencer a um grupo que nos oferece inimigos prontos? A possibilidade de construir alguma coisa nova, ou a sensação de superioridade que sentimos ao destruir aquilo que não compreendemos?
Talvez o ódio nos seduza porque oferece respostas simples para perguntas difíceis. Dá um rosto ao nosso sofrimento, um culpado à nossa frustração e uma sensação passageira de força àqueles que se sentem impotentes. Ele transforma a complexidade do mundo em uma história fácil de compreender: nós contra eles, os bons contra os maus, os merecedores contra os indignos.
A liberdade, por outro lado, exige responsabilidade. Exige que pensemos sem garantias, que reconheçamos nossas contradições e que aceitemos a possibilidade de estarmos errados. Exige que deixemos de depender de certezas que nos protegem do desconforto de pensar.
O ódio pode nos oferecer a ilusão de pertencimento sem a necessidade de compreensão. A liberdade nos obriga a descobrir quem somos quando já não podemos nos esconder atrás das crenças de outras pessoas.
Talvez por isso seja tão difícil escolher a segunda.
Mas eu ainda acredito.
Talvez seja tola por acreditar que podemos construir algo diferente. Talvez a vida me ensine, com o tempo, a ser mais cautelosa com minhas esperanças. Talvez eu descubra que algumas feridas são mais profundas do que imaginei e que certas mudanças exigem gerações inteiras para acontecer.
Ainda assim, recuso-me a acreditar que a lucidez precise terminar em cinismo. Que compreender a brutalidade do mundo signifique aceitar sua brutalidade como destino. Que amadurecer seja aprender a olhar para o sofrimento sem sentir vontade de fazer alguma coisa.
Se preciso mudar a mim mesma, que seja para não me tornar indiferente. Se preciso aprender a conviver com as contradições da existência, que não seja para deixar de questioná-las. E, se preciso encontrar um lugar neste mundo, que eu não tenha de expulsar outra pessoa dele para conseguir ficar.
Talvez eu nunca veja o mundo que imagino. Talvez a utopia que procuro não exista como destino final, mas apenas como horizonte, uma direção que nos impede de confundir o lugar em que estamos com o único lugar ao qual podemos chegar.
E talvez seja justamente isso que significa ter esperança: não a certeza de que venceremos, mas a recusa em declarar a derrota antes mesmo de tentar.
Porque, se há algo que me parece verdadeiramente absurdo, não é sonhar com um mundo melhor.
É olhar para tudo o que a humanidade já foi capaz de criar, para tudo aquilo que ainda pode descobrir, para a infinidade de possibilidades que se estende diante de nós — e concluir que a fome, a guerra, o desprezo e a desigualdade são o melhor que podemos oferecer uns aos outros.
É contemplar o universo e aceitar que a nossa imaginação seja mais vasta do que a nossa compaixão.
É reconhecer que somos capazes de conceber o paraíso e, ainda assim, continuar reproduzindo o inferno.
Talvez eu seja tola.
Mas, entre aprender a amar a engrenagem e continuar sonhando com a possibilidade de desmontá-la, prefiro permanecer inconformada.
Porque não quero apenas encontrar um lugar onde possa viver neste mundo.
Quero compreender por que, para tantos, viver nele ainda significa lutar diariamente pelo direito de existir.
E, enquanto essa pergunta continuar me inquietando, enquanto o sofrimento de alguém ainda for capaz de interromper a minha tranquilidade, enquanto eu conseguir imaginar uma realidade que não se sustente sobre a humilhação de ninguém, não aceitarei que a minha esperança seja confundida com fraqueza.

Thoughts

  • Ovid

    Terminar um texto desse tamanho escolhendo ficar inconformada, logo depois de se chamar de tola duas vezes, me fez pensar que o ensaio inteiro é uma conversa da autora com a versão adulta dela mesma. Aposto que quem chega ao fim sai com uma das perguntas do meio na cabeça, mais do que com uma resposta. Bom ter isso como primeiro texto aqui!

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