Uma vez me perguntaram se a vida era uma causa perdida.
E, desde então, penso que talvez seja.
Não porque nada valha a pena,
não porque o amor seja uma mentira
ou porque os sonhos sejam apenas distrações
inventadas para suportarmos os dias.
Mas porque, no fim,
por mais que a gente faça,
por mais que a gente ame,
por mais que lute para deixar alguma coisa de nós neste mundo,
a vida inteira parece ser um caminho
cujo destino já conhecemos.
A gente nasce sem pedir,
aprende a chamar algumas pessoas de lar,
constrói sonhos como quem ergue uma casa
e se apega às coisas como se o tempo
tivesse assinado um contrato de permanência.
A gente ama com a ilusão bonita
de que certos instantes podem durar para sempre.
Tira fotografias, guarda cartas,
decora vozes, coleciona domingos
e acredita, por alguns segundos,
que a felicidade pode ser convencida a ficar.
Mas o tempo passa.
As pessoas mudam,
os lugares deixam de existir como eram,
as mãos que um dia nos seguraram
também envelhecem.
E nós, tão ocupados tentando descobrir
o que fazer da vida,
quase nunca paramos para perceber
que estamos, o tempo inteiro,
nos despedindo dela.
Talvez seja isso que me faça pensar
que a vida é uma causa perdida:
não importa o quanto a gente vença,
existe uma derrota que ninguém consegue evitar.
No fim, todos nós morreremos.
Os que foram amados
e os que passaram a vida inteira esperando por amor.
Os que realizaram todos os seus sonhos
e os que morreram com os bolsos cheios de possibilidades.
Os que tiveram o mundo aos seus pés
e os que mal conseguiram encontrar um lugar nele.
A morte não parece se importar
com o tamanho das nossas histórias.
E há alguma crueldade nisso,
confesso.
Passamos anos tentando nos tornar alguém,
para um dia deixarmos de ser.
Dedicamos a vida a construir alguma coisa
que, cedo ou tarde, continuará sem nós.
Então me pergunto:
que sentido existe em lutar por algo
que não podemos conservar?
Talvez nenhum,
se o sentido da vida for vencer o tempo.
Mas e se a gente estiver fazendo a pergunta errada?
E se a vida nunca tiver prometido permanência?
E se ela não for uma conquista a ser preservada,
mas uma experiência a ser atravessada?
Talvez as coisas não precisem durar para sempre
para terem sido verdadeiras.
Uma música não perde a beleza porque termina.
O sol não deixa de ser extraordinário porque se põe.
E um amor não se torna inútil
só porque um dia precisou se despedir.
Ainda assim, não consigo deixar de pensar
que existe algo profundamente triste
em ser consciente da própria finitude.
Somos criaturas capazes de imaginar a eternidade,
mas condenadas a viver em minutos.
Queremos dizer tudo,
conhecer tudo,
amar sem medidas,
ser tantas versões de nós mesmos,
mas o tempo nos oferece uma vida só,
e ainda assim nunca nos ensina direito
o que fazer com ela.
Talvez seja por isso que eu ache
que a vida é, sim, uma causa perdida.
Estamos todos tentando salvar alguma coisa
dentro de um mundo onde nada pode ser salvo para sempre.
E, mesmo assim, continuamos.
Continuamos amando,
mesmo sabendo que podemos perder.
Continuamos sonhando,
mesmo sabendo que podemos falhar.
Continuamos plantando árvores
sob cujas sombras talvez nunca nos sentemos.
Continuamos vivendo
como se a nossa permanência fosse possível,
ou talvez porque, no fundo,
não saberíamos viver de outra maneira.
E existe uma beleza quase ridícula nisso.
Porque, se a vida é uma causa perdida,
nós somos os seres estranhos
que continuam lutando por ela.
Talvez não possamos vencer a morte.
Talvez não possamos impedir o tempo.
Talvez, um dia, até o nosso nome
se perca na memória de quem vier depois.
Mas, enquanto ainda estamos aqui,
há mãos que podemos segurar,
palavras que podemos dizer,
lugares que ainda não conhecemos
e manhãs que ainda não vimos nascer.
E talvez seja só isso.
Não vencer o fim,
mas viver apesar dele.
Não encontrar uma maneira de durar para sempre,
mas encontrar algo que faça valer a pena
o breve intervalo entre chegar e partir.
Então, se me perguntarem novamente
se a vida é uma causa perdida,
talvez eu diga que sim.
Sim, porque vamos morrer.
Porque não podemos guardar tudo.
Porque até os dias mais bonitos
acabam se tornando lembranças.
Mas talvez uma causa não precise ser vencida
para merecer a nossa luta.
Talvez a vida seja mesmo uma causa perdida.
E talvez o mais humano que possamos fazer
seja amá-la assim mesmo.