Inteligência Artificial (IA) e Tecnologia: o uso de ferramentas automatizadas e o controle de conteúdos e redes sociais no aprendizado
Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal
A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa distante e passou a fazer parte do cotidiano escolar. Ferramentas capazes de produzir textos, imagens, resumos, exercícios, traduções e respostas instantâneas já estão ao alcance de estudantes e professores. Essa transformação pode representar uma oportunidade extraordinária para a educação, mas também traz desafios relacionados à autonomia intelectual, à qualidade da informação, à privacidade, ao uso excessivo das telas e ao controle dos conteúdos consumidos nas redes sociais.
A questão central, portanto, não deveria ser simplesmente “usar ou não usar Inteligência Artificial?”, mas “como utilizar a IA para ampliar a aprendizagem sem substituir o pensamento humano?”. A tecnologia pode facilitar o acesso ao conhecimento, personalizar atividades e auxiliar o professor, mas não pode transformar o estudante em mero consumidor de respostas prontas.
A UNESCO chama atenção para essa necessidade ao defender uma abordagem centrada no ser humano. Em sua orientação sobre IA generativa na educação, a organização destaca a necessidade de regulamentação, formação de professores e proteção da privacidade dos usuários. Em outras palavras, a inovação tecnológica precisa caminhar acompanhada de responsabilidade pedagógica
“A IA generativa pode ser uma oportunidade para apoiar a aprendizagem, mas também pode representar riscos para a equidade, a inclusão e a qualidade da educação.” (UNESCO, 2023, tradução nossa).
Essa preocupação é particularmente importante porque a IA pode produzir respostas aparentemente convincentes, mas incorretas, incompletas ou descontextualizadas. O estudante que simplesmente copia uma resposta produzida por uma ferramenta automatizada pode entregar uma atividade formalmente perfeita sem, entretanto, ter desenvolvido as competências necessárias para compreender, argumentar, escrever ou resolver problemas.
Nesse sentido, Paulo Freire permanece extremamente atual. Para o educador, ensinar não significa transferir conhecimentos prontos, mas criar condições para que o aluno participe ativamente da construção do conhecimento. Sua conhecida afirmação sintetiza essa perspectiva:
“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” (FREIRE, 1996).
Aplicada ao contexto da Inteligência Artificial, essa concepção permite estabelecer um princípio fundamental: a IA deve ser instrumento de aprendizagem, e não substituta da aprendizagem. Se o estudante utiliza uma ferramenta para pesquisar, comparar informações, identificar argumentos, revisar um texto ou obter novas perspectivas, existe uma possibilidade pedagógica interessante. Porém, quando simplesmente solicita uma resposta e a apresenta como se fosse resultado de seu próprio raciocínio, a tecnologia pode contribuir para o empobrecimento intelectual.
IA: ferramenta ou muleta?
Existe uma diferença significativa entre utilizar tecnologia como ferramenta e utilizá-la como muleta intelectual. Uma calculadora pode ajudar a conferir uma operação, mas não deveria impedir que o aluno compreenda os princípios matemáticos envolvidos. Da mesma maneira, uma ferramenta de IA pode auxiliar na organização de ideias para uma redação, mas não deveria eliminar a capacidade do estudante de pensar, escrever e argumentar.
O grande desafio da escola contemporânea é ensinar o aluno a fazer perguntas melhores, verificar respostas, comparar fontes e reconhecer possíveis erros produzidos por sistemas automatizados.
A UNESCO, ao discutir competências digitais e de IA, enfatiza justamente a necessidade de desenvolver uma relação crítica com essas tecnologias. Não basta saber utilizar uma ferramenta; é necessário compreender seus limites, seus riscos e as implicações éticas de seu uso
“A IA não deve substituir a inteligência humana, mas ampliá-la e complementá-la.” (UNESCO, 2024, paráfrase do princípio de abordagem centrada no ser humano).
Assim, uma escola que simplesmente proíbe toda tecnologia pode ficar distante da realidade dos estudantes. Entretanto, uma escola que aceita qualquer ferramenta sem estabelecer critérios também corre riscos. O caminho mais responsável está entre esses dois extremos: nem tecnofobia, nem deslumbramento tecnológico.
Redes sociais, conteúdos e formação da atenção
Outro aspecto inseparável desse debate é o uso das redes sociais. Crianças e adolescentes estão expostos diariamente a vídeos curtos, publicidade, influenciadores, conteúdos políticos, discursos de ódio, desinformação e mecanismos de recomendação que selecionam aquilo que aparece em suas telas.
As redes sociais não são ambientes neutros. Seus algoritmos procuram identificar comportamentos, preferências e padrões de interação para recomendar conteúdos capazes de manter o usuário conectado. Isso significa que aquilo que o estudante vê repetidamente pode influenciar seus interesses, opiniões, hábitos e até sua percepção da realidade.
Nesse cenário, a educação midiática torna-se indispensável. O aluno precisa aprender que nem tudo o que aparece na tela é verdadeiro, relevante ou adequado.
“A alfabetização midiática e informacional é uma competência essencial para que as pessoas possam navegar pelo ambiente digital de maneira crítica e responsável.” (UNESCO, 2021, tradução nossa).
A escola, portanto, não deve ensinar apenas a utilizar aplicativos. Deve ensinar a interpretar o mundo digital. Isso envolve verificar autoria, identificar fontes, reconhecer manipulações, compreender publicidade, distinguir opinião de informação e questionar conteúdos produzidos ou impulsionados automaticamente.
O controle dos conteúdos: proteção ou censura?
Quando se fala em controle de conteúdos e redes sociais no ambiente escolar, é necessário estabelecer uma distinção importante entre proteção pedagógica e censura.
A escola tem responsabilidade de proteger crianças e adolescentes contra conteúdos inadequados, violência digital, cyberbullying, discursos de ódio, pornografia, golpes, desinformação e outras formas de exposição prejudicial. Entretanto, controlar não significa impedir todo pensamento divergente.
O objetivo da educação deve ser formar sujeitos capazes de analisar diferentes perspectivas. Uma escola democrática não precisa esconder do aluno a existência de opiniões controversas; precisa ensiná-lo a examiná-las criticamente.
Nesse ponto, a própria Constituição Federal estabelece princípios importantes para a educação, entre eles a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber.
“O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: [...] liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber.” (BRASIL, 1988, art. 206, II).
Portanto, o controle necessário no ambiente escolar deve estar relacionado principalmente à segurança, à proteção da infância, à privacidade e à finalidade pedagógica, e não à eliminação arbitrária do pensamento crítico.
O professor continuará sendo necessário?
Uma das perguntas mais frequentes diante do avanço da IA é: se a tecnologia responde quase instantaneamente, qual será o papel do professor?
A resposta talvez seja justamente a contrária: quanto maior for a quantidade de informações disponíveis, maior será a necessidade de alguém capaz de ajudar o estudante a interpretá-las.
O professor não é apenas um transmissor de conteúdos. Ele observa dificuldades, conhece o contexto da turma, identifica problemas de aprendizagem, estimula perguntas, promove debates, desenvolve valores e acompanha o desenvolvimento humano do estudante. Uma ferramenta automatizada pode produzir uma resposta; o professor pode ajudar o aluno a compreender por que aquela resposta é adequada ou inadequada.
“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem.” (FREIRE, 1996).
Essa dimensão humana não pode ser reduzida a um algoritmo. A relação professor-aluno envolve diálogo, escuta, afetividade, responsabilidade, convivência e formação ética.
A tecnologia também pode ampliar desigualdades
Outro problema precisa ser considerado: nem todos os estudantes possuem as mesmas condições de acesso à tecnologia.
Enquanto alguns alunos dispõem de computadores, celulares modernos, internet rápida e ferramentas de IA, outros enfrentam dificuldades de conectividade ou dependem exclusivamente dos recursos oferecidos pela escola. Assim, uma política educacional baseada excessivamente em tecnologia pode, paradoxalmente, aumentar desigualdades existentes.
A tecnologia somente será democratizadora se vier acompanhada de políticas de acesso, infraestrutura, formação docente e inclusão digital.
Como alerta a UNESCO:
“A tecnologia pode ampliar as desigualdades existentes se o acesso e as oportunidades de uso não forem distribuídos de maneira equitativa.” (UNESCO, 2023, tradução nossa).
Por isso, não basta colocar computadores ou disponibilizar plataformas digitais. É preciso garantir que estudantes e professores tenham condições reais de utilizá-las de maneira crítica, segura e pedagogicamente significativa.
O desafio da escola contemporânea
A grande tarefa da educação diante da Inteligência Artificial não é competir com as máquinas, mas ensinar aquilo que torna o ser humano indispensável: pensar, questionar, criar, argumentar, imaginar, dialogar, decidir e assumir responsabilidade pelas próprias escolhas.
A IA pode escrever um texto, mas o aluno precisa aprender a avaliar se o texto faz sentido. Pode apresentar uma resposta, mas o estudante precisa saber questioná-la. Pode resumir um livro, mas não deve substituir a experiência de ler, interpretar e construir conhecimento.
Nesse sentido, o uso responsável da tecnologia exige uma nova alfabetização: não apenas saber ler e escrever, mas saber ler o algoritmo, interpretar a informação, compreender os mecanismos das redes sociais e utilizar a Inteligência Artificial com ética.
A escola do futuro não será aquela que simplesmente possuir mais equipamentos, aplicativos ou plataformas. Será aquela capaz de ensinar seus estudantes a utilizar a tecnologia sem permitir que a tecnologia pense por eles.
Como afirma Edgar Morin:
“A educação deve favorecer a aptidão natural da mente em formular e resolver problemas essenciais.” (MORIN, 2000).
Essa talvez seja uma das maiores missões da escola diante da IA: formar pessoas que não sejam dependentes das respostas das máquinas, mas capazes de formular perguntas que as máquinas não podem responder por elas.
Conclusão
A Inteligência Artificial representa uma das maiores transformações tecnológicas já enfrentadas pela educação. Ela pode auxiliar professores, personalizar experiências, democratizar determinados conhecimentos e oferecer novas possibilidades pedagógicas. Entretanto, também pode estimular dependência, plágio, superficialidade, desinformação e redução da autonomia intelectual quando utilizada sem critérios.
O mesmo vale para as redes sociais. Elas podem ampliar comunicação, acesso à informação e participação social, mas também podem capturar a atenção, disseminar conteúdos inadequados e favorecer a circulação de informações falsas.
O caminho mais sensato não é simplesmente proibir nem liberar indiscriminadamente. É educar para o uso consciente.
A escola precisa ensinar que tecnologia é meio, não finalidade; que IA é ferramenta, não pensamento; que informação não é sinônimo de conhecimento; e que estar conectado não significa necessariamente estar aprendendo.
No século XXI, talvez a maior competência tecnológica seja justamente saber quando utilizar uma máquina, e quando é necessário desligá-la para pensar por conta própria.
Referências bibliográficas
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.
UNESCO. AI and education: guidance for policy-makers. Paris: UNESCO, 2021.
UNESCO. Guidance for generative AI in education and research. Paris: UNESCO, 2023.
UNESCO. AI competency framework for teachers. Paris: UNESCO, 2024.