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Simulacro de Liberdade - Parte 5

aleroz
Pensamento

Pensamento

Kellyanne

Ana cuspindo o leite na cara do Daime e ele ainda reclamando do banho que nem tomou kkkk ri alto aqui

Ana cuspindo o leite na cara do Daime e ele ainda reclamando do banho que nem tomou kkkk ri alto aqui

Conteúdo da publicação

Na manhã seguinte

O refeitório estava em pleno funcionamento. As mesas estavam ocupadas, o ruído dos talheres se misturava às conversas e os alunos circulavam entre as fileiras com suas bandejas.

Theo e Ceres estavam sentados em mesas separadas, distantes uma da outra.

Theo permanecia sozinho, pensativo, mexendo na comida sem demonstrar o menor interesse pela refeição. De vez em quando, algum aluno se aproximava de sua mesa e, antes de ocupar um lugar, olhava para ele em busca de permissão. Ser um líder tinha dessas coisas. Theo apenas acenava com a cabeça, autorizando-os a sentar, sem sequer interromper os próprios pensamentos.

Na mesa de Ceres, porém, ninguém ousava se aproximar.

Ela mastigava o cereal com uma expressão fechada. A cada movimento de sua mandíbula, pequenas faíscas pareciam saltar do metal imaginário entre seus dentes. A discussão do dia anterior não havia terminado para ela. Nem de longe.

Gris e Kan observavam a cena à distância. Cors e Vanks, por sua vez, estavam ocupados demais com a própria conversa.

— O imbecil do Theo deve ter quebrado as costelas de novo! — comentou Vanks.

Cors soltou uma gargalhada. Vanks o acompanhou, rindo alto o bastante para que alguns alunos olhassem em sua direção.

Theo não demonstrou a menor reação.

— Me empresta uma fita K7 sua — pediu Cors.

— Não.

— Por quê?

— Estou pensando em fazer alguma coisa com elas.

Cors olhou para ele, desconfiado.

— Fazer o quê? Pular corda com as fitas?

Os dois voltaram a rir.

Vanks, porém, não parecia estar brincando.

— Gastei todas as minhas moedas. Comprei quase todas as fitas cassete daquela cretina da Dru.

Cors parou de rir.

— Pra que tanta fita? E por que não me empresta nenhuma?

— Estou alugando. Três moedas cada.

Cors ergueu as sobrancelhas.

— Vai abrir concorrência com a Dru?

— Vou. Foi ela quem inventou essa porcaria, mas também foi ela quem mostrou que dá status. A Dru sabe de tudo o que acontece neste colégio. Se brincar, sabe até o que acontece nos outros.

— Mas você sabe onde isso vai dar?

— Detenção, seu cabeça de jumento!

Vanks lançou um olhar irritado para o amigo.

— A Dru nunca foi pega até hoje. E, às vezes, ela vende aquelas tralhas sem nem disfarçar.

— Pode ser porque ela é a única que faz isso. Quando aparecer outro, alguém vai prestar atenção.

— Cala a boca. Eu sei o que estou fazendo.

Cors apenas balançou a cabeça, divertindo-se com a estupidez que atribuía ao plano.

Vanks realmente acreditava que havia encontrado uma oportunidade genial. Tinha comprado a maior parte das fitas disponíveis no colégio e agora pretendia alugá-las, usando a própria coleção para conquistar status e poder de barganha.

O problema era que Dru não vendia apenas fitas. Ela havia criado um sistema.

Tudo estava registrado em seu caderno: quem alugava, quem devia, quais fitas circulavam e quanto cada transação rendia. Não era apenas um amontoado de cassetes; era uma rede de informações e favores que ela controlava havia tempo suficiente para conhecer seus mecanismos.

Vanks tinha as mercadorias. Mas ainda não compreendia o negócio que pretendia copiar.

Um aluno se aproximou da mesa dos dois. Olhou para Vanks com uma mistura de cautela e esperança.

— Vanks... Eu sei que você não me empresta mais as fitas, mas quanto quer para me alugar uma?

Vanks endireitou-se na cadeira. Pela primeira vez naquela manhã, pareceu satisfeito consigo mesmo.

— Um cliente! Três moedas.

O aluno franziu a testa.

— Mas uma fita cassete com a Dru custa cinco moedas.

— Ela tem a fita que você quer?

— Não, mas...

— Mas o quê?

O garoto ficou sem resposta.

Vanks voltou a mexer na bandeja, como se a conversa já tivesse terminado.

— Depois a gente se fala. Vou arrumar a droga das moedas.

O aluno se afastou.

Cors olhou para Vanks com uma admiração contrariada. Não esperava que o amigo tivesse coragem de agir com tanta dureza, muito menos de transformar uma conversa tão simples em uma negociação da qual saíra vencedor.

— Parece um negócio genial — admitiu. — Mas você acha que vai durar muito? Você é burro demais.

— Cala a boca e sai daqui. Você já terminou sua refeição.

Cors empurrou a cadeira para trás.

— Vou sair mesmo. E boa sorte com essa sua merda de fitas, seu idiota.

— É, sai daqui, seu cuzão! Vai embora!

Cors se afastou sem olhar para trás.

Vanks voltou a comer o cereal, satisfeito por ter conseguido seu primeiro cliente — embora ainda não tivesse recebido uma única moeda.

Do outro lado do refeitório, Ceres continuava mastigando.

Não havia tocado em mais nada além do cereal. Seu olhar permanecia duro, fixo em algum ponto que ninguém teria coragem de investigar.

As pequenas faíscas de ódio ainda pareciam saltar a cada mastigada.

A discussão de ontem continuava viva.

E, ao contrário de Vanks, Ceres não estava tentando transformar a raiva em um negócio.


Sem que Cors e Vanks percebessem, Ana e Daime haviam escutado toda a conversa.

Daime já nem prestava atenção no próprio cereal. Comia mecanicamente, levando a colher à boca enquanto acompanhava, fascinado, a audácia de Vanks. Ana, sentada diante dele, fingia estar concentrada na refeição, mas seus olhos denunciavam que não perdera uma palavra.

Quando Vanks finalmente se levantou e levou a bandeja ao balcão do refeitório, Daime acompanhou seus movimentos com o olhar, como se esperasse que ele voltasse para anunciar a abertura oficial de seu empreendimento.

— Para com isso, imbecil. Ela já foi — murmurou Ana.

— Para com isso, Ana! O Vanks vai abrir concorrência com a Dru! — Daime sussurrou, indignado de tanta admiração. — O Vanks tá maluco!

Ana não respondeu. Apenas olhou para ele.

Os dois se encararam por um instante.

Então começaram a rir.

— Como a gente é fofoqueiro, né? — comentou Daime.

Ana caiu na gargalhada. O cereal quase lhe saiu pelo nariz.

— Toma um pouco de leite — disse Daime, pegando a caneca de inox.

Com uma solenidade absurda, ele começou a servir leite para Ana, como se estivesse alimentando uma criança pequena.

Foi justamente isso que acabou com ela.

Ana explodiu numa gargalhada tão forte que cuspiu o leite diretamente na cara de Daime.

Ele ficou imóvel.

O leite escorria pelo rosto, pingava do queixo e encharcava a gola da camisa.

— Para... para... — Ana tentou dizer, sem conseguir recuperar o fôlego.

Daime piscou algumas vezes, ainda segurando a caneca.

— Nossa! Que falta de sensibilidade, Ana! Estou todo ensopado!

Ela riu ainda mais alto.

— Vou ter que tomar outro banho — reclamou ele, passando a mão pelo rosto.

Ana quase caiu sobre a bandeja.

— Você nem tomou banho!

Daime virou lentamente a cabeça para ela.

— Sacanagem, né...

Os dois voltaram a rir.

Daime finalmente pegou um guardanapo e começou a se limpar. Mesmo assim, continuava sorrindo, como se o incidente não passasse de mais um detalhe insignificante daquela manhã.

— O Vanks vai rodar gostoso com isso — declarou, recuperando a compostura.

Depois olhou para Ana com um sorriso satisfeito, como se tivesse acabado de apresentar uma análise comercial brilhante.

— Ele pensa que a nossa Mãe não sabe da Dru. Mas, assim... ele vai ser castigado. Disso temos certeza.

Ana assentiu, ainda tentando conter os últimos risos.

Daime, porém, já havia encontrado outro assunto.

Seu olhar atravessou o refeitório até encontrar Theo e Ceres, sentados em mesas distantes.

A expressão dele mudou.

— Olha aquele imbecil do Theo... Um animal selvagem mesmo. O sujeito não se comporta mais.

Ana acompanhou a direção de seu olhar.

— Olha, olha, olha! — Daime continuou, apontando discretamente com a colher. — Nem come nada! Só fica brincando com a comida. Que vontade de socar a cara dele!

Ana virou-se para ele, incrédula.

— Mas vocês são amigos...

— Somos! Aí é que dá mais vontade de socar! Às vezes, dá vontade de brigar sério com ele. Cinco minutos de porrada, sem perder a amizade!

— Então por que não faz isso?

Daime recebeu um soco no ombro.

— Ai! Tá doida, Ana?

— E por que você não vai lá, seu bobo?

Ele olhou para Theo novamente, avaliando a distância entre as mesas como se precisasse calcular o risco de uma operação militar.

— Eu, não! Ele é mais forte e mais imbecil do que eu.

Ana soltou uma risadinha.

Daime aproximou-se um pouco, baixando a voz, embora o entusiasmo continuasse evidente.

— Sabe que, às vezes, eu tenho pensamentos intrusivos de dar um chute na cara dele?

— Covarde!

— O seu covarde!

Os dois caíram na risada outra vez.

Daime voltou a observar Theo, que continuava diante da bandeja, mexendo na comida sem qualquer interesse.

Então seus olhos deslizaram até Ceres.

Ela mastigava o cereal com uma força que parecia desnecessária até para alguém que estivesse tentando triturar os próprios ressentimentos.

Daime estreitou os olhos.

— Olha lá a Ceres! Mastiga tão forte esse cereal que acho que nem vai cagar mais tarde!

Ana estava justamente levando à boca o restante de sua porção.

Parou com a colher no ar.

Daime percebeu o perigo tarde demais.

— Não, não, não! De novo, não! — protestou, erguendo as mãos. — Engole o cereal, Ana! Nesta manhã eu já tomei dois cafés da manhã!

Ana tentou obedecer. Engoliu o que tinha na boca, apertando os lábios e respirando fundo, enquanto Daime a observava com a expressão de quem tentava impedir uma catástrofe anunciada.

Por dois segundos, pareceu que ela conseguiria.

Então Ana começou a rir novamente.

Dessa vez, engasgou.

Daime largou o guardanapo e empurrou a caneca de leite na direção dela, horrorizado.

— ANA!

E, enquanto ele tentava socorrê-la sem se molhar pela segunda vez naquela manhã, Theo continuava sozinho diante da bandeja, Ceres triturava o cereal como se cada floco tivesse cometido uma ofensa pessoal, e o refeitório seguia sua rotina.

Naquela escola, até o café da manhã podia se transformar numa ocorrência.

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