Uai, a mãe dela também morreu no quarto, e também com um horário que não fecha! Quando o legista falou das duas horas eu já senti que vinha coisa, e a conversa com a mãe dez minutos antes me fez largar o celular e olhar pro corredor de casa. Aposto que a avó sabe muito bem o que é aquilo que voltou.
Sem evidências - Capítulo 2 - Ignorando as sensações Sensível
Pensamento
Uai, a mãe dela também morreu no quarto, e também com um horário que não fecha! Quando o legista falou das duas horas eu já senti que vinha coisa, e a conversa com a mãe dez minutos antes me fez largar o celular e olhar pro corredor de casa. Aposto que a
Conteúdo da publicação
O que é um ponto branco em uma vegetação verde?
A estrada estava tranquila.
Uma viagem tranquila era tudo de que eu não precisava.
Preferia ter pegado um ônibus lotado de desconhecidos, enfrentado fila, ouvido reclamações e aguentado gente mal-educada durante todo o caminho a passar quatro horas dentro daquele carro com meu tio me olhando a cada cinco minutos.
Era como se ele precisasse confirmar constantemente se eu estava bem.
Ou se pretendia abrir a porta e me jogar pela janela.
Pensando bem...
Não era uma ideia tão ruim.
Ruim mesmo era ter que voltar para aquela cidade.
Aquele lugar tinha uma habilidade impressionante para destruir a vida das pessoas.
Por que eles simplesmente não iam embora?
Eu consegui.
Fiz uma careta.
Meu tio imediatamente olhou para mim.
De novo.
— Ninguém culpa você por ter ido embora.
Virei o rosto para a janela.
É claro que não deveriam me culpar.
No fim das contas, fui eu quem sofreu.
Enquanto eu desmoronava, eles apenas assistiam em silêncio, como se não soubessem o que dizer ou, pior, como se qualquer palavra pudesse torná-los responsáveis pelo que tinha acontecido.
Nem quando fiz minhas malas disseram alguma coisa.
Ninguém tentou me impedir quando atravessei a porta da frente.
E talvez aquilo tivesse doído quase tanto quanto todo o resto.
Voltar para Solares agora, depois de tudo, parecia ainda pior do que partir naquele dia.
Tentei esticar as pernas.
Não adiantou muita coisa.
Minhas costas doíam e meu bumbum já estava praticamente dormente. Havíamos feito apenas uma parada desde que saímos, em um posto no meio do caminho, para abastecer o carro e usar o banheiro.
Quando voltei a olhar pela janela, consegui avistar ao longe a pequena igreja da cidade.
Branca.
Branca daquele jeito que igrejas de filmes de terror sempre eram.
Nada mudará naquele lugar?
Ótimo.
Aquilo me fez lembrar que a casa de Sônia não ficava muito longe dali.
Quando éramos crianças, costumávamos passar pelos fundos da igreja, desviando do caminho mais curto apenas para prolongar a caminhada por uma parte da cidade onde quase ninguém gostava de ir.
Era o nosso jeito de evitar as outras crianças. Algumas faziam questão de deixar claro que não gostavam da minha família, e aquele caminho mais longo acabava sendo também o mais tranquilo.
Naquela época, Sônia era apenas a amiga da minha amiga.
Agora, nenhuma das duas estava mais ali.
— Podemos passar na casa dela primeiro?
Meu tio me lançou um olhar sério.
Dessa vez, realmente sério.
Era a primeira vez desde que começamos a viagem que ele me olhava daquele jeito.
— Seria melhor conversar com sua avó primeiro.
Ele sempre fora certinho demais.
Nunca gostou de contrariar minha avó, nem depois de adulto, casado e com filhos. Talvez por isso ele e minha mãe vivessem em pé de guerra dentro de casa.
No fim, porém, era quase sempre ele quem levava a melhor.
Ele era homem, sustentava a família inteira e, aos olhos de todos, isso parecia lhe dar mais razão do que qualquer argumento.
Minha mãe, por outro lado, era apenas a filha divorciada que voltara para casa com uma criança e dependia da boa vontade da família.
Pelo menos era assim que faziam questão de enxergá-la.
— Mas eu prefiro ver a casa primeiro.
Insisti. Alguma coisa dentro de mim dizia que eu precisava ver primeiro a casa de Sônia. Meu tio tinha dito que o crime acontecera ali, e ignorar aquela sensação parecia uma péssima ideia.
Ele voltou a me encarar, dessa vez por mais tempo.
— Vocês são todas iguais.
Alguma coisa naquela frase me fez pensar que ele também estava falando da minha mãe.
Meu tio começou a resmungar outras coisas que não consegui entender, provavelmente reclamações que preferia não dizer em voz alta.
Não importava.
Eu já tinha conseguido o que queria.
— Mas não vamos poder entrar na casa — avisou.
Olhei para ele.
— Por quê?
— Porque Jorge e Janice são suspeitos. A casa foi interditada.
Demorei alguns segundos para compreender.
— Como assim, suspeitos? Como a Sônia morreu?
Eu vinha evitando aquela pergunta desde que saímos.
Só saber que tudo tinha acontecido dentro da casa dela já era suficiente para me deixar apreensiva. Perguntar como ela morreu significava tornar aquilo mais real do que eu gostaria.
Mas, naquele momento, já não dava mais para fugir da resposta.
Mas os pais de Sonia?
Suspeitos?
Aquilo não fazia sentido.
Eu sabia o quanto Jorge e Janice amavam a filha.
Sonia era tudo para eles.
Meu tio manteve os olhos na estrada.
A igreja estava cada vez mais próxima e, ainda assim, tive a impressão de que nem ele queria chegar.
— Encontraram Sônia por volta das duas da manhã. Enforcada no próprio quarto.
Meu estômago revirou.
Duas da manhã.
A lembrança de ter despertado no meio da madrugada voltou imediatamente. A mesma sensação ruim. O mesmo desconforto que eu tinha tentado atribuir ao cansaço e ao estresse.
Era coincidência demais.
E, pela primeira vez, comecei a considerar que talvez não tivesse sido coincidência nenhuma.
Antes que eu pudesse fazer outra pergunta, ele entrou pela estrada que levava à propriedade da família de Sonia.
Pouco depois, estacionou diante da casa.
Ficou alguns segundos encarando a construção através do para-brisa.
Parecia exausto.
A casa ainda mantinha a mesma estrutura de que eu me lembrava, mas o tempo tinha deixado marcas por toda parte. A pintura estava desgastada, e a vegetação ao redor parecia seca demais, quase morta.
Assim que desci do carro, algo me incomodou.
Olhei para o chão e me abaixei para observar melhor a terra ao redor da casa. Foi então que senti o cheiro.
Terra queimada.
Forte o bastante para ser impossível ignorar.
Endireitei o corpo e procurei algum sinal de fogo, cinzas ou qualquer coisa que explicasse aquilo.
Não havia nada.
Nenhum foco recente. Nenhuma marca de incêndio.
Só o cheiro.
Aquilo era novo.
Meu tio parou ao meu lado e permaneceu em silêncio enquanto eu examinava a parte da frente da casa.
Eu fazia aquilo quase sem perceber. Observar o terreno, procurar sinais fora do lugar, prestar atenção no que os outros provavelmente ignorariam.
Era instintivo.
Tão instintivo que, às vezes, eu só percebia depois o quanto estava agindo exatamente como a minha avó.
Aproximei-me dele devagar.
— O que mais você sabe sobre a morte dela?
Meu tio ficou imóvel.
Não respondeu.
Primeiro olhou para a casa. Depois para a estrada atrás de nós. Seus olhos percorreram o terreno como se procurassem alguém escondido entre as árvores ou esperando atrás de uma das janelas.
O silêncio começou a ficar pesado.
— Tio?
Ele ergueu uma das mãos, pedindo que eu esperasse, e aquilo bastou para fazer um arrepio subir pelos meus braços.
Nunca o tinha visto agir daquele jeito.
Aproximei-me um pouco mais.
— O que aconteceu aqui?
Ele tornou a olhar ao redor antes de finalmente me encarar. Havia alguma coisa diferente em seu rosto agora. Não era apenas desconforto.
Era medo.
Um medo contido, daqueles que a gente tenta esconder porque admitir que existe já seria perigoso demais.
Observei novamente a forma como ele olhava ao redor.
Meu tio não parecia ter medo de me contar o que sabia.
Parecia ter medo de quem poderia ouvir.
— Eles disseram à polícia que ouviram Sonia gritando no quarto. Quando conseguiram entrar, encontraram ela daquele jeito.
Não respondi.
Havia alguma coisa faltando.
Eu conseguia sentir.
— O problema — continuou ele — é que o legista, que examinou o corpo disse que Sonia já estava morta havia pelo menos duas horas quando eles a encontraram.
Não.
Aquilo estava acontecendo de novo.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
— Não sabia que Solares tinha um legista.
— E não tem. Samuel Saldanha, filho da Rute, é legista. Estava na cidade para visitá-la e veio quando a polícia solicitou.
Meu tio tornou a olhar para a casa.
Dessa vez, não parecia apenas desconfortável.
Parecia encarar o lugar como se houvesse alguma coisa errada ali. Como se aquela casa tivesse deixado de ser apenas uma casa.
— Foi por causa do que ele encontrou que a polícia isolou o local e passou a tratar os dois como suspeitos.
Ele deu um passo para trás.
— Vamos.
— Espera!
Meu tio parou e me encarou, confuso.
— Você não disse que a casa estava isolada? Onde está o policial responsável por preservar a cena?
Olhei novamente ao redor.
Não havia ninguém.
Nenhum policial.
Nenhuma viatura.
Nenhuma fita impedindo a aproximação.
Nada.
Franzi a testa.
Cidades pequenas realmente tinham algumas peculiaridades absurdas, mas aquilo já estava passando do limite.
Caminhei até os três pequenos degraus da entrada.
Meu tio veio logo atrás.
— Sam, não podemos entrar.
— Eu só vou conferir uma coisa.
O som firme dos passos dele ao meu lado ajudou a diminuir um pouco a ansiedade.
A porta estava fechada.
Abri a bolsa, peguei um lenço e o envolvi na mão antes de tocar na maçaneta.
Pressionei devagar.
Ela cedeu.
A porta se abriu alguns centímetros.
Fiquei imóvel.
Olhei para meu tio.
Ele parecia tão surpreso quanto eu.
Uma casa onde alguém havia sido encontrado morto. Uma cena que, segundo ele, estava isolada.
E a porta simplesmente destrancada era mais um absurdo para a lista.
Empurrei a porta devagar e assim que coloquei um pé dentro da casa, um perfume agridoce invadiu minhas narinas.
Parei.
Meu coração disparou.
Meus dedos ficaram rígidos ao redor da maçaneta.
Não.
Eu conhecia aquele cheiro.
Aquele perfume nauseante de morte estava ali outra vez.
O mesmo cheiro que havia levado minha mãe.
++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
Cheguei à casa da minha avó sem trocar uma única palavra com meu tio.
Desde que saímos da casa de Sônia, ele não tinha perguntado o que eu vira e eu também não estava disposta a explicar.
Agora estava claro por que eu tinha voltado para aquele lugar.
Uma raiva começou a crescer dentro de mim, quente e difícil de controlar, mas explodir naquele momento só daria a todos mais um motivo para falar de mim pelas costas.
Saí do carro e segui direto para a casa.
Minha prima Lisa veio ao meu encontro, provavelmente para me cumprimentar, mas diminuiu o passo assim que viu minha expressão.
Parou.
E recuou.
Na verdade, todos que encontrei pelo caminho fizeram praticamente a mesma coisa.
Minha tia nem chegou a sair da cozinha. Marluce ficou apenas me observando, com aquele mesmo olhar superior e debochado de quando éramos mais novas.
Anos atrás, aquilo teria sido suficiente para começar uma discussão.
Eu não era mais criança.
E não tinha voltado para disputar território com ninguém.
Atravessei o corredor e parei diante da porta do quarto da minha avó.
Entrei.
Havia pelo menos cinco pessoas ao redor dela. Todas se viraram na minha direção quase ao mesmo tempo.
Ninguém perguntou nada.
Ninguém precisou.
Um por um, começaram a sair do quarto até restarmos apenas nós duas.
Minha avó continuou me encarando.
Não havia surpresa em seu rosto.
— Você foi até lá, não foi?
Não respondi.
Meu silêncio já dizia tudo.
Ela respirou fundo.
— Aquilo está de volta, Samantha?
Foi então que percebi a lágrima descendo pelo meu rosto.
Oito anos antes, minha mãe tinha sido encontrada morta no próprio quarto, com os pulsos cortados.
Segundo todos, estava morta havia pelo menos quatro horas.
Mas aquilo era impossível.
Porque menos de dez minutos antes de encontrarem seu corpo, eu estava conversando com ela.
Thoughts
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PermalinkO cheiro agridoce 😶
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PermalinkNão. Não. Nada. Essas frases de uma palavra só fazem a gente ler segurando o ar, mano.
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PermalinkCidade pequena é assim: a Marluce com o mesmo olhar de sempre, todo mundo recuando no corredor, ninguém perguntando nada. Aposto que alguém nessa casa já sentia o cheiro antes da Sam chegar.
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PermalinkO cheiro agridoce na porta eu até esperava, mas a conversa com a mãe dez minutos antes me pegou desprevenida. Aposto que o capítulo 3 abre direto no quarto da avó, sem respiro.
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PermalinkCasa interditada, dois suspeitos, e nem guarda, nem fita, e a porta destrancada. Numa terra pequena isso não acontece por esquecimento. Aposto que alguém quis que ela entrasse.
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PermalinkA igreja branca aparecendo na estrada antes de tudo, e depois a avó perguntando baixinho se aquilo voltou. Numa cidade com igreja no meio, ninguém fala o nome da coisa. Eu fico pensando no que a fé daquela família já tentou segurar e não deu conta, e em quem ali ainda reza de verdade.
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PermalinkBah, a Sam embrulhando a maçaneta no lenço é mais perita que a polícia inteira de Solares. Tu já tem o capítulo 3 pronto, tchê?
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PermalinkA Sam olhando o terreno sem perceber, igualzinho à avó, me fez pensar que essa história é tanto sobre o que se herda na família quanto sobre o crime. Aposto que o que a avó sabe vai pesar mais que qualquer laudo do legista, e que a cidade inteira sabe um pedaço disso. Que bom ter o capítulo 2 por aqui!
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PermalinkUai, a mãe dela também morreu no quarto, e também com um horário que não fecha! Quando o legista falou das duas horas eu já senti que vinha coisa, e a conversa com a mãe dez minutos antes me fez largar o celular e olhar pro corredor de casa. Aposto que a avó sabe muito bem o que é aquilo que voltou.
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