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Âncoras

Orlanobre
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Capítulo 12 - Suor Trêmulo

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Capítulo 12 - Suor Trêmulo

O cabo arrastou Adrian pra dentro do Casulo com um puxão final que o jogou de bruços contra o chão de metal, o ar saindo dos pulmões de uma vez.

As portas se fecharam.

Ele ficou ali, imóvel por um segundo, antes de se levantar com dificuldade e ir até a porta já selada, a cabeça baixa, o corpo inteiro tremendo. Encostou a testa no metal frio.

E começou a socar.

- Marco... - disse, a voz rachada, quase irreconhecível.

Cada soco ecoava pelo espaço apertado, o som se misturando ao rangido das correntes já em movimento, o Casulo subindo, levando Adrian pra cada vez mais longe do lugar onde tinha deixado seu parceiro de descida.

- Keller. - A voz de Hollis, calma, baixa, do outro lado do compartimento. - Keller, para.

Adrian não parou. Socou de novo, e de novo, os nós dos dedos já latejando dentro da luva reforçada, cada impacto mais fraco que o anterior, a força saindo dele junto com alguma coisa que ele não sabia nomear.

Os socos foram diminuindo devagar, não porque ele quisesse parar, mas porque o corpo simplesmente não tinha mais nada pra dar. Ficou ali, encostado na porta, a respiração alta e irregular.

- Um a menos - disse Bruck, sem nenhuma inflexão na voz, já destravando o próprio equipamento como se estivesse encerrando qualquer outro procedimento de rotina. - Vou precisar reportar isso direito antes do fim do turno.

Hollis olhou para ele por um segundo, algo entre desaprovação e cansaço cruzando o rosto, mas não disse nada. Ficou olhando para o próprio capacete nas mãos, como se não soubesse mais o que fazer com ele.

- Keller - Chamou novamente Hollis, com a calma de sempre. - Você tá comigo?

Adrian não respondeu. Os olhos fixos na porta selada, como se pudesse, só de olhar forte o suficiente, fazer o metal se abrir de novo e desfazer o que tinha acabado de acontecer.

O Casulo subiu por um tempo que pareceu não ter fim, o som das correntes o único preenchimento daquele silêncio pesado.

A desaceleração veio primeiro - um tranco suave, depois outro, as correntes reduzindo o ritmo conforme o Casulo se aproximava do topo do poço. O som mudou de tom, o rangido grave dando lugar a um assobio mais fino de vapor sendo liberado por alguma válvula de segurança, e por fim um estalo mecânico definitivo. Chegada completa.

As portas começaram a deslizar.

Do outro lado, o hangar recebeu os três com sua luz amarelada de sempre, o cheiro de óleo quente substituindo de vez o metálico da superfície. Dois soldados já se aproximavam para o procedimento padrão de recepção - verificação de trajes, contagem de integrantes, registro da missão.

Um deles parou no meio do gesto automático de contar, os olhos passando de Hollis para Bruck, e então para o espaço vazio onde deveria estar um quarto integrante.

Ninguém precisou dizer nada. O silêncio já bastava.

Adrian ficou parado no limiar da porta por um instante, a mente ainda presa entre dois lugares - a névoa que tinha acabado de deixar, e o hangar familiar diante dele, a luz forte demais, tudo parecendo levemente errado, como se o próprio mundo tivesse se deslocado alguns centímetros do lugar certo enquanto ele não estava olhando.

Deu um passo pra fora. Depois outro.

Só então a compreensão pareceu atravessá-lo por completo. Não como pensamento. Como um soco no peito. Marco não estava ali. Marco continuava lá embaixo, na névoa, exatamente onde Adrian o tinha visto pela última vez.

- Precisa descer de novo - disse, a voz ainda rouca, virando-se de repente para Hollis. - Agora. Com equipamento, com corda extra, com o que for. Vocês não podem simplesmente deixar ele lá, comandante, isso não-

- Keller. - Hollis manteve a voz firme, mas não dura. - Não dá.

- DÁ SIM! - A voz dele saiu mais alta do que pretendia, ecoando pelo hangar. - Nós temos o Casulo, as correntes, equipamentos... é só descer de novo!

- O Casulo leva um tempo pra recarregar energia suficiente pra descer e voltar. - Hollis falou devagar, cada palavra escolhida com cuidado. - Não vai descer de novo hoje. Talvez nem amanhã.

- Então a gente espera! Isso não devia ter acontecido, comandante, não pode simplesmente...

- Ele já era, Keller. - A voz de Hollis não subiu, mas cortou fundo. - Sinto muito. Mas ele já era.

Adrian ficou parado, o peito subindo e descendo rápido demais. Alguma coisa dentro dele, que até então ainda segurava alguma esperança irracional, começou a ceder.

A arma estava na cintura de Bruck antes que Adrian percebesse conscientemente o que as próprias mãos estavam fazendo.

Arrancou a pistola do coldre com um movimento brusco, girando o corpo, o cano tremendo visivelmente quando ele o encostou contra o pescoço de Bruck, que ficou paralisado por reflexo, as mãos erguidas devagar, o rosto ainda impassível, quase entediado, como se aquilo fosse só mais uma variável a ser gerenciada.

- Manda descer! - disse Adrian, a voz quebrando no meio da frase, o suor escorrendo pelo rosto, entrando nos olhos, ardendo. - Manda descer o Casulo, comandante, nem que seja só eu, eu vou sozinho, eu-

- Adrian. - Hollis ergueu as duas mãos, devagar, o tom ainda calmo, mas os olhos alertas agora, calculando cada movimento. - Abaixa essa arma.

- NÃO! - O cano tremeu mais forte contra o pescoço de Bruck, que engoliu em seco, mas não se moveu, os olhos fixos em algum ponto neutro à frente, sem nenhum traço de medo visível - só cálculo frio, à espera de uma abertura.

Hollis olhou de relance para um homem magro parado perto do painel de controle do Casulo - Carrol, o responsável por operar as correntes - e algo passou entre os dois, rápido demais para Adrian conseguir interpretar.

- Carrol, fica onde está - disse Hollis, sem desviar os olhos de Adrian. - Ninguém vai descer, e ninguém vai fazer nada precipitado. Adrian, olha pra mim.

Adrian mal conseguia respirar, a arma pesando errado na própria mão, os dedos apertando o gatilho com força demais, tremendo tanto que ele já não tinha certeza se conseguiria controlar o próprio disparo mesmo se quisesse.

- Isso não pode ficar assim - disse, a voz caindo, quase um sussurro agora. - Ele não devia ter-

Foi então que a dor chegou.

Uma pontada aguda, súbita, atravessando o crânio de um lado ao outro. Forte o suficiente para fazer Adrian cambalear, a arma escorregando um centímetro do pescoço de Bruck. Um zumbido agudo encheu os ouvidos dele, abafando qualquer som ao redor, e a visão começou a embaçar nas bordas, o hangar inteiro parecendo dobrar sobre si mesmo.

- Adrian? - A voz de Hollis, distante agora, distorcida, o rosto dele perdendo os contornos.

Adrian sentiu o próprio corpo balançar.

Foi nesse instante que sentiu o aperto ao redor de Bruck afrouxar - só um pouco, só o suficiente. O cotovelo dele subiu rápido, certeiro, acertando o queixo de Adrian com um estalo seco, o movimento tão mecânico e desprovido de hesitação quanto tudo mais que Bruck tinha feito desde que as portas do Casulo se abriram.

Adrian caiu, a visão já quase completamente apagada, o corpo mole contra o chão do hangar.

A última coisa que ouviu, distante, distorcida, foi a voz de Hollis, gritando por cima do próprio corpo.

- Chamem o Howard agora!

Thoughts

  • Oliviamar

    O Carrol e o Hollis trocaram um olhar e eu fiquei com a pulga atrás da orelha. Já sabias o que esse olhar queria dizer quando o escreveste?

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  • MargemDaPagina

    A pontada no crânio chega no segundo em que o Adrian começa a ceder, e a partir daí o capítulo pergunta outra coisa: o que é que a névoa lhe deixou dentro. O mundo deslocado uns centímetros, logo à saída do Casulo, já andava a anunciar isto. A minha aposta é que o Marco sentiu o mesmo antes de ficar lá em baixo.

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  • IsauraBrandao

    O Bruck falando em reportar antes do fim do turno, com o parceiro do Adrian ainda lá embaixo, me deu uma raiva danada, menino.

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  • Ovid

    O Casulo que leva um dia inteiro pra recarregar me fez pensar em quanto essa espera vai pesar no Adrian, mais até do que a arma no pescoço do Bruck. Meu palpite é que o Howard vai achar alguma coisa na cabeça dele que veio da névoa, e que o Marco ainda aparece. Obrigado por seguir postando os capítulos!

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  • HoracioMelo

    Se o Casulo leva dias a recarregar, o Marco fica lá em baixo à espera sem saber de nada. Isso custa-me mais do que a pistola.

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