Capitulo 16 - Terra Cega
O alarme não soou como sirene.
Era um toque metálico, três batidas em sequência, produzido por um mecanismo preso à parede do alojamento - um pistão pequeno que golpeava uma chapa de aço com força suficiente para vibrar nas estruturas ao redor. A vibração chegava antes do som, subindo pelas pernas do beliche.
Adrian já estava acordado.
Sentou na beirada do colchão enquanto Joseph, no beliche de baixo, se movia com a precisão de alguém que tinha feito aquilo centenas de vezes - botas, cinto, jaqueta, sem pressa e sem hesitação. Denver, no outro beliche, soltou um palavrão baixo e rodou o corpo pra sentar, os olhos ainda semicerrados.
O pistão bateu mais três vezes.
- Vamos descer. - disse Joseph, sem inflexão.
Adrian calçou as botas.
A porta do alojamento abriu antes que qualquer um dos três chegasse até ela.
Maverick entrou sem anunciar. Varreu o ambiente com os olhos - Adrian, Joseph, Denver - e apontou com dois dedos na direção do corredor.
- Vocês três, comigo. - Olhou para os outros beliches, para Magma que já sentava com expressão sonolenta, para Montez que observava da cama sem se mover. - Vocês, capitã Sylla.
Não esperou confirmação. Voltou pro corredor e seguiu sem reduzir o passo.
O hangar ficava no nível mais baixo da Fornalha Leste, separado dos corredores de circulação por uma porta de ferro com dobradiças do tamanho de um antebraço. O chão era de metal bruto, sem revestimento, e o teto alto desaparecia na fumaça que vinha das juntas de ventilação laterais. No centro, suspenso sobre o poço de descida por um sistema de cabos e polias, o Casulo esperava.
Era maior do que Adrian esperava. E mais velho.
Os trajes estavam pendurados em suportes ao longo da parede direita - capacetes na prateleira acima, cabos enrolados em bobinas fixadas abaixo. Perto da entrada, uma mulher conferia um gravador preso ao cinto, o bloco de notas aberto sobre uma caixa de equipamento ao lado. Cabelo castanho-escuro preso atrás, óculos de armação fina. - Adrian a estimou em torno dos vinte e poucos anos. O jeito como segurava o bloco, a caneta já entre os dedos sem precisar procurar, dizia que ela estava acostumada a tomar notas antes que os outros percebessem que havia algo a registrar.
Maverick parou no centro do hangar, de frente pro Casulo, e esperou que os três chegassem.
- Vistam enquanto falo.
Os três foram aos suportes. Adrian encontrou um traje do tamanho certo na terceira tentativa.
- Desde que a criatura capturada na outra ala foi encaminhada para análise, começamos a levar os sinais de radar a sério. - Maverick não precisava elevar a voz; o hangar ampliava o som de um jeito que tornava o silêncio mais pesado do que a fala. - Há três dias, captamos um sinal a dois quilômetros e meio ao norte do ponto de descida. Corpo grande, imóvel, no interior de uma caverna. Vocês vão averiguar. Coletar amostras se houver o que coletar. Documentar o habitat. Retornar dentro da janela disponível.
- Criatura morta? - perguntou Denver, passando os braços pelo traje.
- Possivelmente debilitada. O sinal não tem movimento. - Maverick ergueu o olhar. - Mas… não é certeza.
Denver assentiu, sem comentar mais.
- Esta é Evelyn. - Maverick sinalizou na direção da mulher perto da entrada. - Cientista designada para coleta e estudo. Vão com ela. Ela documenta, vocês garantem a segurança do trabalho dela. Não é negociável.
Denver olhou pra Evelyn. Depois se inclinou levemente na direção de Joseph e disse, baixo o suficiente pra Maverick não ouvir:
- Uma mulher na descida. Ótimo.
- Cala a boca Denver - Sussurou Joseph sem olhar para ele.
Evelyn continuou conferindo o gravador como se a conversa não dissesse respeito a ela.
- Joseph. - Maverick cruzou os braços. - Você lidera a descida dessa vez.
- Sim, senhor! - Joseph recebeu aquilo como recebia tudo, sem mudar a expressão.
- Espero que você saiba o que está fazendo. - Maverick não olhou pra Denver quando disse isso, mas a referência estava na frase de qualquer jeito. - Na última operação, alguém saiu do Casulo sem conferir os cabos da equipe. Magma ficou sem cabo e precisou de ajuda pra voltar. - Uma pausa. - Não quero repetição.
Denver ficou quieto, mas a sobrancelha esquerda levantada e o maxilar apertado já dizia muita coisa.
- Entendido senhor. - disse Joseph.
- Adrian. - Maverick o olhou por um momento. - Primeira descida pela Leste?
- Sim senhor.
- As condições aqui não são as mesmas que você conhece. Atenção redobrada.
Não havia conselho nisso. Era o registro de um fato, e a expectativa implícita de que Adrian entendesse a diferença.
Maverick virou as costas e saiu pelo mesmo caminho que tinha entrado. A porta de ferro bateu com um som que o hangar absorveu devagar.
Joseph caminhou até Evelyn antes de qualquer um entrar no Casulo. Verificou o encaixe do capacete, testou o fecho do cinto, passou dois dedos pela vedação lateral do traje. Fez tudo isso com eficiência e sem cerimonial.
- O ritual - disse ele, enquanto terminava a verificação. - Antes de entrar no Casulo. Duas batidas no peito, abre a mão, desce o braço. Dizemos "Âncoras, descendo". - Uma pausa. - É o procedimento.
- Entendido - disse Evelyn.
Ela anotou alguma coisa no bloco antes de guardá-lo.
Denver passou por ela sem dizer nada.
Quando os três Âncoras estavam prontos - trajes fechados, capacetes na mão - Joseph se virou para a abertura do poço.
Bateu duas vezes no peito com o punho fechado.
Abriu a mão.
Desceu o braço, devagar.
- Âncoras, descendo.
Denver e Adrian fizeram o mesmo, o gesto rápido e preciso de repetição longa. Evelyn repetiu o movimento, porém em silêncio, sentindo que ainda não fazia parte da divisão.
O Casulo era menor por dentro do que parecia por fora.
Quatro bancos estreitos fixados nas paredes, sem encosto adequado, sem apoio lateral. As chapas do piso tinham sido substituídas em pelo menos três pontos - era possível ver as emendas pelas diferenças de espessura e de coloração do metal, mais escuro onde o aço era mais novo, quase preto onde era mais antigo. Numa das juntas do teto, uma tira de borracha havia sido presa com grampos irregulares pra vedar uma fresta que os grampos não vedavam completamente.
O mecanismo de descida produzia um som contínuo e baixo, interrompido de tempos em tempos por algo que não era rangido nem batida - mais parecido com o ajuste de uma peça que nunca chegava a encaixar direito. Evelyn levantou o gravador e falou em voz baixa, descrevendo o interior, o estado das chapas, a temperatura.
Denver olhou pra ela por um segundo. Depois se virou pra Joseph.
- Ela vai registrar a descida inteira?
- É apenas o trabalho dela - disse Joseph.
- E não tem nada a fazer com relação a isso?
Joseph deu de ombros.
- Você pode fazer igual eu, ignore e também faça o seu trabalho.
Denver voltou a olhar pra frente com a expressão de alguém que havia tentado e registrado a derrota.
O Casulo balançou.
Não foi um balanço suave. Foi uma torção brusca, como se um dos cabos tivesse sofrido resistência e cedido de uma vez. Adrian agarrou a borda do banco com uma mão. Evelyn encostou o cotovelo na parede pra se estabilizar, mas não interrompeu a gravação. Joseph não se mexeu.
Depois voltou ao ritmo anterior, lento e desconfortável.
- Por que Maverick não desce? - perguntou Adrian.
Joseph levou um segundo.
- Aqui os superiores ficam acima e coordenam pelo rádio. - Uma pausa. - Dizem que assim, acabam formando novos lideres e capitães.
- Então ele também foi formado assim. - disse Adrian.
- Provavelmente.
A parte superior do Casulo começou a ranger, como se o metal estivesse se contorcendo - Adrian ergueu os olhos.
Um parafuso pequeno caiu do teto e acertou seu ombro, depois quicou no banco ao lado e foi parar no chão entre seus pés.
Ele o pegou. Metal enferrujado, rosca gasta, do tipo que deveria estar preso numa estrutura que alguém tinha decidido que ainda aguentava mais um turno.
- Bellick - disse Joseph, sem tirar os olhos do mostrador de profundidade.
- Quem?
- Aquele mecânico preguiçoso. Faz o serviço de qualquer jeito. - Joseph olhou pro teto com a indiferença de quem já teve essa conversa antes. - Em um mês dá pra montar um Casulo inteiro com o que cai desse aqui.
Adrian fechou o parafuso na mão e o colocou no bolso.
Evelyn baixou o gravador por um instante e olhou pra ele.
- Está bem?
- Sim. - Adrian olhou pro ombro, depois pro bolso onde guardara o parafuso. - Talvez em um mês eu tenha uma coleção.
Ela voltou a gravar. Denver olhou pro teto com uma expressão que Adrian leu como a avaliação rápida de alguém verificando se havia mais alguma coisa solta por ali.
- Quanto de vida útil tem esse Casulo? - perguntou Evelyn.
- É o mais velho de Nova Arcádia, provavelmente vai manter esse título por mais tempo ainda — disse Joseph.
- Isso não é uma resposta técnica.
- Sou um Âncora, não um mecânico. - Disse Joseph, passando as mãos nas paredes do casulo.
O mostrador parou de avançar. Um ruído diferente tomou o lugar do mecanismo de descida - mais grave, como pressão sendo liberada. O Casulo deu um solavanco final e parou.
A porta abriu pra fora, apertada nos trilhos, precisando de força pra ceder. Denver foi o primeiro a sair.
Adrian saiu depois de Joseph e ficou parado por um momento.
Havia descido antes. Conhecia a superfície - ou achava que conhecia. Aqui era diferente. Não na composição, não na lógica geral. Era a densidade do ambiente, que chegava com uma presença que as descidas anteriores não tinham preparado: a neblina não encobria tudo de uma vez, mas dissolvia as formas à distância - a rocha, as formações ao fundo, o próprio horizonte - em gradações de cinza que ficavam mais fechadas conforme o olhar alcançava mais longe. As luzes dos capacetes refletiam contra a névoa e voltavam como halos, iluminando mais a neblina do que o chão. Havia qualquer coisa no peso do lugar que Adrian não conseguia atribuir a nenhum dado concreto.
Evelyn estava gravando, a voz baixa e precisa descrevendo a visibilidade e a composição aparente do solo.
Joseph verificou o painel do pulso.
- Cabos.
Adrian já estava conferindo o próprio cabo - puxou com força, verificou a conexão na argola do cinto, deu uma segunda puxada. Depois virou pra Evelyn e verificou o dela sem perguntar. Ela abaixou o gravador por um momento e deixou que ele examinasse o encaixe. Denver fez isso com a mesma eficiência com que fazia tudo que envolvia segurança - rápido, sem comentário, sem margem.
Joseph olhou pra Denver um segundo - não era acusação, era a verificação de que o procedimento tinha sido cumprido. Denver devolveu o olhar sem desviar.
- Temos duas horas e quarenta minutos - disse Joseph. - No retorno, os cabos começam a ser recolhidos antes do Casulo subir.
Ninguém respondeu.
- Norte - disse Joseph, verificando o radar portátil. - Dois quilômetros.
O solo era mais irregular do que parecia à primeira vista. As pedras não eram soltas - eram fragmentos que haviam se consolidado em camadas ao longo de muito tempo - mas a superfície tinha uma inclinação que mudava sem aviso, subindo levemente por cem metros e caindo de volta, criando um terreno que cansava mais do que deveria pelo ajuste constante que exigia.
Evelyn caminhava ao lado de Adrian, um passo atrás, gravando enquanto andava.
- O que você observa? - perguntou ela, depois de alguns minutos.
Adrian olhou pra ela.
- Como assim?
- Joseph e Denver. Eles checam o perímetro. Você olha pro chão, depois pra cima, depois pras laterais quando há formações. - Ela não tinha o gravador levantado enquanto falava. - É treinamento diferente ou hábito?
- Não sei. - Adrian considerou. - Talvez por tudo aqui ser diferente pra mim, e você sente algo descendo pela primeira vez?
- Bom… já que perguntou… - Evelyn olhou ao redor - Parece que estou sendo pressionada, é bem estranho.
- Você se acostuma, ou pelo menos finge que se acostumou.
Evelyn riu discretamente olhando para baixo.
- Isso deveria me deixar mais tranquila?
- Bom… foi o melhor que eu consegui. - Adrian deu um soco de leve no ombro dela.
Mais à frente, Denver parou e olhou pra esquerda. Havia uma formação rochosa baixa, irregular, que bloqueava a linha de visão por um trecho. Ele ficou parado por dois segundos antes de dizer qualquer coisa.
- Não dá pra ver o que tem do outro lado.
Joseph ajustou a rota sem ordenar nada - quinze graus pra direita, contornando a formação pelo lado oposto. Os outros acompanharam.
Joseph diminuiu o passo até ficar ao lado de Adrian.
- A moeda - disse ele, sem elevar a voz.
Adrian olhou pra ele.
- Vi você com ela no alojamento. Da velha terra, parece.
- Era de um amigo. Me entregou antes de morrer.
Joseph caminhou em silêncio por alguns passos.
- Então devia significar alguma coisa pra ele.
- Acho que sim.
- Não se entrega uma coisa dessas a alguém em quem não se confia.
Adrian não respondeu. Mas alguma coisa que estava apertada desde o corredor da Fornalha Leste afrouxou um pouco - não desapareceu, apenas encontrou onde pousar.
- Você documenta tudo mesmo? - disse Denver, sem olhar pra Evelyn, depois que voltaram ao rumo.
- Tudo o que considero relevante.
- E o quanto é relevante?
- Mais do que parece enquanto acontece. - Ela ergueu o gravador. - É mais fácil cortar do que reconstruir.
Denver não respondeu. A impaciência tinha saído da expressão dele. Havia algo próximo de consideração no lugar.
A neblina ficou mais espessa conforme avançavam. As luzes dos capacetes projetavam cones que desapareciam a trinta metros. O radar de Joseph apitou uma vez, baixo.
- Chegando.
A caverna não apareceu de uma vez.
Primeiro foi a mudança no som - os passos perdendo um pouco do eco aberto da planície e adquirindo algo mais fechado, mais curto. Depois a rocha à frente, que parecia sólida de longe, foi revelando uma sombra no centro que não era sombra - era ausência. Um recuo que se tornava profundo demais para a luz dos capacetes alcançar o fundo.
- Armas - disse Joseph.
Os três Âncoras sacaram ao mesmo tempo. Joseph varreu o perímetro com os olhos antes de dar um passo à frente, depois parou a dois metros da entrada.
A abertura tinha talvez quatro metros de altura no ponto mais alto, irregular nos lados, como se o material tivesse cedido aos poucos e não de uma vez. As paredes ao redor eram de uma rocha escura, quase negra no brilho úmido, com veios de cor levemente mais clara traçando padrões sem lógica óbvia. Perto da borda inferior da abertura, o solo era diferente do restante - mais escuro, mais fino, como se algo tivesse alterado sua composição ao longo de muito tempo.
Da escuridão dentro não vinha nenhum som.
Adrian ficou parado diante da entrada. A luz do capacete alcançava talvez três metros antes de ser absorvida - não bloqueada, absorvida, como se a escuridão lá dentro tivesse consistência própria. Ele sentiu o peso daquilo de um jeito que não sabia nomear: não era medo exatamente, era o reconhecimento de que havia uma fronteira ali.
Só olhou pra dentro, onde não havia o que se ver.