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Âncoras

Orlanobre
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Capítulo 13 - Voz Presa

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Capítulo 13 - Voz Presa

- Ele tá respirando?

Um som metálico e ritmado preenchia o fundo.

Tique... Tique... Tique...

Adrian abriu com dificuldade os olhos por um instante.

Uma luz branca e borrada invadiu sua visão. Não conseguia distinguir o teto, as paredes, ou quem estava perto.

Então tudo apagou de novo.

---

- Batimento fraco.

Dessa vez, havia só escuridão.

Adrian tentou mexer os dedos.

Nada.

O som continuava.

Tique... Tique... Tique...

Alguma coisa de metal passou por cima dele.

---

- Seguindo pra fase dois do teste.

Adrian tentou abrir os olhos de novo.

Luzes passavam acima dele, uma depois da outra. Brancas. Compridas. Todas borradas - o tipo de claridade forte demais que só existia em lâmpadas de arco, nunca no resto de Nova Arcádia.

Tentou perguntar onde estava.

A própria boca não respondeu.

---

- Esse não entrou nas estatísticas.

A frase veio de longe.

Ou talvez de perto.

Adrian já não sabia.

O som metálico desapareceu.

Por alguns segundos, não houve nada.

Então ele sentiu o cheiro.

Metal quente.

Antisséptico por cima disso, mas não o suficiente pra apagar o outro.


Quando Adrian abriu os olhos de verdade, a luz ainda era branca demais, forte demais, e o teto acima dele não parecia certo - baixo, de metal liso, sem as vigas expostas que ele conhecia do alojamento.

- Consegue me ouvir?

Um homem de meia-idade, óculos redondos, jaleco surrado nas mangas, segurava uma prancheta perto do próprio peito, batendo a ponta da caneta contra a borda dela num ritmo pequeno, quase automático, entre uma pergunta e outra. O cheiro ali era diferente - antisséptico de verdade, mais forte, cortando qualquer resquício de óleo ou vapor que Adrian estava acostumado a respirar.

- S.. Sim — respondeu, a própria voz saindo rouca, estranha aos próprios ouvidos.

- Ótimo. Doutor Hoffmann. - O homem se aproximou, erguendo dois dedos. - Acompanha isso aqui pra mim.

Adrian seguiu os dedos com os olhos, sentindo uma pontada leve atrás da testa a cada movimento.

- Sabe seu nome completo?

- Adrian Keller.

- Sabe onde está?

- Enfermaria. - Uma pausa. - Eu acho.

- Quanto tempo você acha que passou desde que perdeu a consciência?

Adrian pensou por um segundo, tentando reconstruir alguma linha do tempo confiável.

- Uma noite?

Hoffmann anotou algo na prancheta sem erguer os olhos.

- Foram três dias.

O estômago de Adrian revirou.

- Três dias?

- Sim, três dias. - Hoffmann finalmente ergueu os olhos, examinando o rosto dele com um misto de curiosidade clínica e cautela. - Colapso nervoso agudo. Foi o que constou no relatório. - Voltou a escrever antes mesmo de terminar a frase, como se aquilo já estivesse arquivado antes de ser dito. - Vou precisar examinar mais algumas coisas.

As mãos de Hoffmann eram frias, ágeis, apalpando o pescoço de Adrian, depois subindo até o maxilo, onde os dedos pararam.

- Isso aqui já está bem melhor. - Ele apertou de leve, e Adrian sentiu, pela primeira vez, um latejar surdo no próprio queixo. - Foi um golpe e tanto.

- Golpe? - Adrian levou a própria mão até o rosto, tocando um inchaço que ele não sabia que existia.

- O soldado Bruck. Acertou o queixo com o cotovelo. Provavelmente salvou a vida de alguém, considerando o que você tinha na mão na hora.

Adrian ficou em silêncio, tentando encaixar aquilo em algum lugar da própria cabeça que ainda fazia sentido.

- Sente mais alguma coisa? - perguntou Hoffmann, a caneta pronta sobre a prancheta. - Além do que já falou.

Adrian hesitou. As vozes ainda ecoavam em algum lugar atrás dos próprios olhos - a pressão no peito, o zumbido, o nome que tinha ficado preso na garganta desde então.

- Howard - disse, baixo, quase perguntando. - Alguém falou o nome Howard. Antes de eu apagar de vez.

Hoffmann parou de escrever.

Só por um instante - mas parou.

- Deve ter sido confusão - disse, a voz um tom mais controlada do que antes, os olhos voltando pra prancheta. - É comum, nesse tipo de episódio, misturar coisas. Vou liberar visitas. Alguém andou bastante ansioso lá fora.

Não respondeu a pergunta. Só se levantou e saiu, o som dos próprios passos ecoando pelo corredor estreito.


A porta se abriu de novo poucos minutos depois, e Dario entrou com o mesmo sorriso torto de sempre, só que um pouco mais cansado do que Adrian estava acostumado a ver.

- Cara. - Sentou-se na cadeira ao lado da cama, sem cerimônia. - Quando você falou que ia entrar pros Âncoras, eu não imaginei que fosse pra dormir três dias inteiros. Achei que ia ser mais aquela coisa de acordar cedo, treinar, essas frescuras todas.

Adrian tentou sorrir. Saiu meio torto.

- Tem mais gente querendo te ver, aliás - disse Dario, já se levantando.

- Só é permitido um visitante por vez. Como todo mundo vai entrar?

- Sério que em todos esses anos você ainda não aprendeu que eu sempre dou um jeito? — Dario já estava de pé, abrindo a porta e fazendo sinal pra alguém no corredor.

Fred entrou primeiro, os óculos ajeitados às pressas, seguido de Dorian, que carregava a mesma expressão contida de sempre. Mathias entrou por último, parando logo depois da porta, os braços cruzados, sem se aproximar da cama.

- Você tá péssimo - disse Fred, examinando o rosto de Adrian com uma seriedade quase científica.

- Obrigado, Fred.

- Não é insulto. É só uma observação.

Dorian se aproximou mais que os outros, sentando na beirada da cama, os olhos carregando algo que Adrian reconheceu - o mesmo peso que ele próprio tinha visto no rosto do Dorian, semanas atrás, falando do Renner.

- Sei o que é ficar remoendo uma coisa dessas - disse Dorian, baixo, só pra Adrian ouvir de verdade. - Não vai fazer sentido por um bom tempo. E tudo bem não fazer sentido.

Adrian sentiu a garganta apertar.

- Ele... - começou, mas não conseguiu terminar a frase.

- A gente sabe - disse Dorian, simplesmente. - Não precisa contar.

Ninguém preencheu o silêncio que se seguiu.

Mathias, na porta, não disse nada. Ficou ali, o rosto fechado, os olhos evitando encontrar os de Adrian por mais que um segundo.

Foi Dario quem primeiro sentiu que era hora de ir, batendo de leve no ombro de Adrian antes de se levantar.

- Bom, a gente queria ver como você estava. -Dario falou mais calmo, com a mão pousando no ombro de Adrian - Se o médico pegar todos aqui, talvez não haja mais visita, então vamos indo nessa, amanhã eu volto.

Um por um saíram, Mathias o primeiro a desaparecer pelo corredor sem uma palavra, Dorian logo atrás, a mão erguida num aceno curto.

Fred ficou parado na porta por um instante a mais que os outros.

- Ele acha que devia ter sido ele - disse, baixo, sem olhar diretamente pra Adrian, os olhos fixos em algum ponto do corredor. + O Mathias. Acha que era pra ele estar naquela descida com você. Não com o Marco.

- Por quê?

- Porque foi ele quem brigou com você. - Fred deu de ombros, o gesto estranhamente delicado pra alguém tão direto sempre. - Ele carrega essas coisas de um jeito esquisito.

Saiu antes que Adrian conseguisse responder, a porta se fechando devagar atrás dele.

Adrian ficou sozinho por tempo suficiente pra beber um copo de água inteiro, a garganta ainda seca, e estava se ajeitando contra os travesseiros quando a porta se abriu de novo, sem batida.

- Esqueceram alg-

Não era nenhum deles.

O comandante Hollis entrou primeiro, o rosto tão duro quanto Adrian já tinha visto, e atrás dele, o doutor Hoffmann, a prancheta ainda debaixo do braço, os olhos evitando os de Adrian.

- Doutor confirma alta médica - disse Hollis, sem preâmbulo.

Hoffmann assentiu uma vez, seco.

- Adrian Keller. - A voz de Hollis saiu mecânica, quase decorada, mas carregando um peso que nenhuma repetição conseguia esconder de verdade. - Você tomou uma arma de um oficial e ameaçou a vida dele. Isso te coloca sob o Código Militar. Vai responder por isso perante o Conselho.

- Comandant-

- Tem direito a ficar calado até a audiência. Qualquer coisa que disser antes pode ser usada contra você.

Enquanto Hollis falava, dois soldados já entravam pela porta atrás dele, os passos firmes, diretos, atravessando o quarto na direção da cama sem esperar ordem nenhuma.

- Entendeu o que eu disse? - Hollis fez uma pausa, os olhos finalmente amolecendo por uma fração de segundo, antes de voltarem a ficar duros.

Adrian sentiu o próprio corpo gelar, o quarto inteiro parecendo encolher ao redor dele.

- Entendi.

- Algemem ele.

Thoughts

  • soleioanoite

    Terminei o capítulo com raiva do Hollis, uai, mas aquele olho amolecendo por um segundo antes da ordem das algemas me deixou achando que ele não queria dar essa ordem.

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  • brunocosta

    O Fred a ficar à porta um bocado mais que os outros para contar do Mathias, pois. Se calhar é o Mathias que vai aparecer a falar por ele no Conselho.

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  • Ovid

    O Hoffmann anotando colapso nervoso no relatório antes mesmo de terminar de examinar o Adrian me fez pensar em como uma instituição decide a versão oficial antes dos fatos. Aposto que o Howard vai ser o fio que desmonta essa versão, e que o Hoffmann sabe bem mais do que parou pra dizer. Fiquei com vontade de ler a audiência no Conselho.

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  • linhaTorta

    Comparei o que o Adrian ouviu desacordado com o que o Hoffmann diz depois, e não bate. Fase dois do teste, alguém que não entrou nas estatísticas, e aí ele acorda numa enfermaria de teto de metal liso, sem as vigas do alojamento. Pra mim ele não passou três dias só dormindo. E o Hoffmann parando de escrever no nome do Howard é a primeira vez que ele não tem a resposta pronta.

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