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Quando Narciso acusa o espelho

venanancio
Pensamento

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Ovid

Do Ovídio das Metamorfoses até a briga de casal em que alguém precisa ser o narcisista, o texto fez um caminho que me fez pensar em como o mito ficou mais atual com o celular: cada um carrega o próprio lago no bolso. Aposto que a lista de desculpas agradá

Do Ovídio das Metamorfoses até a briga de casal em que alguém precisa ser o narcisista, o texto fez um caminho que me fez pensar em como o mito ficou mais atual com o celular: cada um carrega o próprio lago no bolso. Aposto que a lista de desculpas agradáveis do meio vai fazer muita gente aqui se reconhecer, eu incluído hahaha

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Talvez uma das maneiras mais eficientes de esconder alguma coisa de nós mesmos seja encontrá-la primeiro no outro.

É relativamente fácil perceber a vaidade alheia, o egoísmo alheio, a necessidade de reconhecimento do outro. Muito mais difícil é perceber quando esses mesmos movimentos existem dentro de nós.

Talvez seja por isso que o narcisismo seja um tema tão interessante. Não apenas porque existem pessoas excessivamente centradas em si mesmas, mas porque todos nós, em alguma medida, construímos uma imagem de quem acreditamos ser — e nem sempre estamos dispostos a permitir que essa imagem seja ameaçada.

O termo “narcisismo” vem do mito grego de Narciso, preservado principalmente por Ovídio nas Metamorfoses. Narciso é um jovem que se apaixona pela própria imagem refletida na água, sem perceber inicialmente que aquilo que contempla é ele mesmo.

A história costuma ser reduzida a uma ideia simples: alguém apaixonado por si próprio.

Mas talvez exista algo mais interessante no mito.

Narciso não conhece verdadeiramente a si mesmo.

Ele conhece uma imagem.

E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Talvez parte do narcisismo esteja justamente aí: não necessariamente em amar aquilo que realmente somos, mas em proteger desesperadamente uma determinada imagem de nós mesmos.

Uma imagem na qual somos inteligentes.

Justos.

Fortes.

Injustiçados.

Generosos.

Moralmente superiores.

Ou simplesmente melhores do que aqueles que nos cercam.

No início do século XX, Sigmund Freud deu ao termo um significado psicológico em seu ensaio Sobre o narcisismo: uma introdução, de 1914. Depois dele, diversos autores desenvolveram o tema, especialmente Heinz Kohut e Otto Kernberg.

Hoje sabemos que é necessário cuidado com a palavra.

Existe uma diferença entre apresentar comportamentos narcisistas e possuir um transtorno de personalidade narcisista. Vaidade, egoísmo, necessidade de aprovação ou dificuldade de reconhecer erros podem aparecer em muitas pessoas sem constituir um diagnóstico clínico.

Talvez seja justamente por isso que seja tão perigoso transformar “narcisista” em um simples insulto.

Mas existe um fenômeno psicológico particularmente interessante para essa discussão: a projeção.

Em termos gerais, projeção ocorre quando atribuímos ao outro algo que temos dificuldade de reconhecer em nós mesmos.

Isso não significa que toda acusação seja projeção.

Se alguém chama outra pessoa de egoísta, isso não significa automaticamente que o verdadeiro egoísta seja quem fez a acusação.

Seria apenas trocar uma simplificação por outra.

Mas existe uma possibilidade desconfortável:

às vezes, aquilo que mais nos incomoda no outro toca exatamente em alguma coisa que não queremos reconhecer em nós.

E é aqui que Narciso deixa de simplesmente olhar o espelho.

Ele começa a acusá-lo.

Imagine alguém que precisa constantemente ser reconhecido, mas acusa todos ao redor de buscarem atenção.

Alguém que dificilmente admite seus próprios erros, mas descreve o outro como incapaz de assumir responsabilidade.

Alguém que exige compreensão permanente para os próprios sentimentos, enquanto considera exagerados os sentimentos dos demais.

Ou alguém que controla profundamente a narrativa de um conflito e, ao mesmo tempo, apresenta o outro como manipulador.

Nada disso, isoladamente, permite diagnosticar narcisismo.

Mas revela algo mais universal e filosoficamente interessante:

o ser humano possui uma enorme capacidade de construir narrativas nas quais permanece moralmente confortável.

La Rochefoucauld percebeu isso muito antes da psicologia moderna.

Em suas Máximas, no século XVII, ele examinou aquilo que chamava de amour-propre — o amor-próprio — e mostrou repetidamente como nossos interesses pessoais conseguem se esconder atrás de justificativas aparentemente virtuosas.

Nem sempre fazemos alguma coisa dizendo para nós mesmos:

“Estou fazendo isso porque sou vaidoso.”

É muito mais provável que encontremos uma explicação mais agradável.

“Estou apenas me defendendo.”

“Estou apenas dizendo a verdade.”

“Estou apenas colocando limites.”

“Estou apenas mostrando para todos quem essa pessoa realmente é.”

E talvez algumas vezes seja verdade.

O problema é quando nunca somos o problema em nenhuma história que contamos.

Nietzsche também desconfiava profundamente das justificativas que damos às nossas próprias ações. Em obras como Além do Bem e do Mal e Genealogia da Moral, ele investiga como nossos julgamentos morais podem esconder impulsos, ressentimentos e interesses que não admitimos conscientemente.

Isso não significa que toda moralidade seja falsa.

Significa algo muito mais desconfortável:

nossas razões declaradas nem sempre são nossas razões reais.

Talvez, então, exista uma pergunta importante sempre que julgamos duramente alguém:

“Quanto disso pertence realmente ao outro e quanto disso pode estar falando de mim?”

Essa pergunta não significa assumir culpa por tudo.

Também não significa tolerar abuso, manipulação ou comportamento destrutivo.

Significa apenas conservar uma capacidade que talvez seja incompatível com qualquer forma extrema de narcisismo:

a possibilidade de estar errado.

Talvez uma das maiores proteções contra o narcisismo não seja uma autoestima baixa.

É justamente o contrário.

É possuir uma identidade suficientemente segura para admitir:

“Eu errei.”

“Fui injusto.”

“Exagerei.”

“Talvez eu tenha feito exatamente aquilo que estou criticando.”

“Preciso rever minha versão dessa história.”

Existe muita força nisso.

Porque quem precisa desesperadamente preservar uma imagem perfeita de si não pode admitir erros sem sentir que toda sua identidade está ameaçada.

Por isso, em algumas relações, os conflitos deixam de ser discussões sobre acontecimentos e se transformam em disputas sobre personagens.

Alguém precisa ser o culpado.

Alguém precisa ser a vítima.

Alguém precisa ser o manipulador.

Alguém precisa ser o narcisista.

E, quando chegamos a esse ponto, talvez já não estejamos procurando compreender o que aconteceu.

Estamos tentando proteger a narrativa sobre quem acreditamos ser.

É nesse momento que a palavra “narcisista” pode se tornar particularmente perigosa.

Porque ela deixa de ser um conceito psicológico e passa a funcionar como sentença moral.

Depois que colocamos esse rótulo sobre alguém, qualquer comportamento pode ser reinterpretado para confirmá-lo.

Se a pessoa se defende, “está manipulando”.

Se fica em silêncio, “está fazendo tratamento de silêncio”.

Se discorda, “está distorcendo a realidade”.

E assim criamos uma teoria impossível de ser contestada.

O outro deixa de ser uma pessoa complexa e passa a ser apenas o personagem que construímos para ele.

Talvez seja justamente aí que devamos voltar ao mito.

Narciso morreu diante de uma imagem porque não conseguiu se afastar dela.

Talvez nós também possamos ficar presos às imagens que construímos.

A imagem que fazemos do outro.

E, principalmente, a imagem que fazemos de nós mesmos.

Amadurecer talvez tenha alguma relação com quebrar esse espelho de vez em quando.

Aceitar que podemos ser generosos em algumas situações e egoístas em outras.

Fortes em determinados momentos e inseguros em outros.

Vítimas em algumas histórias e responsáveis em outras.

Nenhuma pessoa precisa ser reduzida a uma única característica.

E talvez o verdadeiro autoconhecimento comece justamente quando abandonamos a necessidade de sermos sempre o personagem certo da história.

Porque existe uma diferença profunda entre olhar para o espelho para admirar a própria imagem e olhar para ele para reconhecer a si mesmo.

O primeiro procura confirmação.

O segundo procura verdade.

E talvez uma das perguntas mais difíceis que podemos fazer diante de qualquer conflito seja também uma das mais úteis:

“Estou realmente enxergando o outro — ou apenas projetando nele aquilo que ainda não consigo reconhecer em mim?”

Thoughts

  • flima82

    Quem mais reclama de vizinho fofoqueiro na minha porta é quem chega com a novidade toda semana. Só que nunca vi ninguém mudar porque apontaram o espelho, então a pergunta do fim serve pra quem já desconfia de si.

    Permalink
  • MariCorreDevagar

    Na minha separação ninguém virou personagem, e foi isso que os parentes não engoliram: queriam um vilão pro almoço de domingo.

    Permalink
  • IntrusiveThoughts

    O exemplo de quem controla a narrativa do conflito e chama o outro de manipulador mistura duas coisas que eu separaria: projeção e estratégia. A primeira a pessoa não enxerga em si; a segunda ela enxerga muito bem e usa. De fora as duas parecem idênticas, e só a primeira cabe na pergunta do final.

    Permalink
  • Ovid

    Do Ovídio das Metamorfoses até a briga de casal em que alguém precisa ser o narcisista, o texto fez um caminho que me fez pensar em como o mito ficou mais atual com o celular: cada um carrega o próprio lago no bolso. Aposto que a lista de desculpas agradáveis do meio vai fazer muita gente aqui se reconhecer, eu incluído hahaha

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