Meu interesse pela filosofia começou, em grande parte, por uma razão muito simples: eu queria aprender a viver melhor.
Buscava nos filósofos alguma orientação para uma vida feliz, tranquila, equilibrada. Uma espécie de sabedoria que permitisse atravessar os dias com mais serenidade, evitando conflitos desnecessários, controlando as emoções e encontrando paz mesmo em meio às dificuldades.
Foi assim que me aproximei principalmente dos estoicos.
Sêneca me chamava atenção justamente pelas contradições de sua própria existência. Era um dos homens mais ricos de Roma, próximo ao poder, envolvido diretamente na vida política e, ainda assim, escrevia sobre a brevidade da vida, a tranquilidade da alma, a fortuna, a morte e a necessidade de não nos tornarmos escravos daquilo que possuímos.
Marco Aurélio me impressionava por outro motivo. Era imperador. Talvez poucas pessoas de seu tempo tivessem tantas responsabilidades e tanto poder. Ainda assim, nas Meditações, encontramos um homem constantemente lembrando a si mesmo de permanecer sereno, cumprir seu dever, controlar seus julgamentos e aceitar aquilo que não poderia modificar.
Durante algum tempo, enxerguei a filosofia principalmente dessa maneira: como um caminho para alcançar tranquilidade.
Queria uma vida mais calma.
Menos conflitos.
Menos angústia.
Menos sofrimento.
Mais controle.
Mais paz.
Hoje percebo que havia alguma ingenuidade nessa expectativa.
Porque a vida continuou acontecendo.
Vieram discussões, frustrações, perdas, decepções, mágoas. Pessoas que eu gostaria que permanecessem seguiram outros caminhos. Algumas situações não terminaram como eu esperava. Houve momentos em que fiz o que acreditava ser correto e, mesmo assim, o resultado foi ruim.
E comecei a perceber que talvez eu estivesse fazendo a pergunta errada.
Em vez de perguntar “como posso construir uma vida sem sofrimento?”, talvez fosse necessário perguntar:
“Como posso viver sabendo que o sofrimento fará parte dela?”
Foi então que outros filósofos começaram a fazer mais sentido.
Schopenhauer certamente não oferece a mesma sensação de conforto que encontramos em determinadas leituras contemporâneas do estoicismo. Seu pessimismo parte justamente da percepção de que desejar significa viver constantemente entre falta e satisfação temporária. Conseguimos aquilo que desejamos, sentimos algum prazer e, pouco depois, outro desejo ocupa seu lugar.
Talvez parte da nossa infelicidade esteja justamente na expectativa de que algum dia finalmente chegaremos a um estado em que tudo estará bem.
Como se a felicidade fosse um lugar definitivo.
Quando eu resolver isso…
Quando conquistar aquilo…
Quando determinada situação passar…
Quando finalmente tiver tranquilidade…
Então serei feliz.
Mas esse “então” continua se deslocando.
Camus me apresentou outro problema.
Talvez o mundo simplesmente não tenha obrigação alguma de corresponder às nossas expectativas.
Queremos justiça e encontramos injustiça. Queremos permanência e encontramos mudança. Queremos explicações e muitas vezes encontramos silêncio.
É dessa tensão que surge o absurdo.
Mas a resposta de Camus não é simplesmente desistir.
É continuar.
Sísifo sabe que a pedra cairá novamente. Mesmo assim, retorna até ela.
Talvez exista uma enorme maturidade nessa imagem: não exigir que a vida seja perfeita para considerá-la digna de ser vivida.
Até Diógenes, com toda sua provocação e radicalidade, passou a representar algo diferente para mim. Sua vida questionava quantas necessidades nós mesmos inventamos e quanto sofrimento nasce da necessidade de aprovação, status, aparência e convenções sociais.
Aos poucos, percebi que esses filósofos aparentemente tão diferentes estavam me ensinando algo que eu não procurava quando comecei a lê-los.
Eu procurava aprender como ser feliz.
Eles começaram a me ensinar como viver.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Hoje considero um pouco infantilizada aquela ideia de felicidade permanente que um dia procurei. Não porque a felicidade seja irrelevante. Continuo querendo dias bons, pessoas queridas por perto, tranquilidade, realizações e momentos de alegria.
Mas já não acredito que uma vida boa precise ser uma vida sem sofrimento.
Existem dores que precisam ser enfrentadas.
Existem decepções que não possuem solução elegante.
Existem discussões que deixam marcas.
Existem pessoas que irão embora.
Existem erros que não poderão ser corrigidos.
E existe uma diferença fundamental entre sentir essas coisas e construir uma moradia dentro delas.
Talvez amadurecer seja também aprender a sofrer sem transformar o sofrimento em identidade.
Sentir a dor quando ela chega, sem negar sua existência.
Compreender aquilo que ela puder ensinar.
Fazer o que estiver ao nosso alcance.
E depois continuar andando.
Nesse ponto, volto a Sêneca e Marco Aurélio de uma maneira diferente.
Talvez eles nunca tenham prometido aquela tranquilidade absoluta que inicialmente procurei neles. Sêneca conheceu poder, riqueza, exílio, conflitos políticos e terminou sua vida diante da própria morte. Marco Aurélio escreveu grande parte de suas reflexões enquanto enfrentava guerras, doenças, responsabilidades políticas e perdas pessoais.
A serenidade deles não nasceu da ausência de problemas.
Era uma tentativa de construir uma postura diante deles.
E talvez seja justamente isso que mudou na minha relação com a filosofia.
Antes, eu lia procurando respostas que me protegessem da vida.
Hoje, leio procurando ideias que me ajudem a atravessá-la.
Não quero deixar de sentir tristeza, raiva, frustração ou decepção. Isso provavelmente seria deixar de experimentar uma parte importante da própria condição humana.
Quero apenas não permanecer prisioneiro delas.
Não transformar uma dor de alguns dias em sofrimento de anos.
Não permitir que uma mágoa antiga continue decidindo minhas escolhas presentes.
Não exigir que o mundo seja exatamente como eu gostaria para então me permitir viver.
Talvez uma vida boa não seja aquela em que finalmente conseguimos eliminar tudo aquilo que nos machuca.
Talvez seja aquela em que aprendemos que podemos estar machucados e, ainda assim, continuar vivendo, trabalhando, amando, aprendendo, criando e encontrando momentos que fazem tudo valer a pena.
Comecei a estudar filosofia procurando felicidade.
Com o tempo, encontrei algo que hoje considero mais útil:
a aceitação de que a vida não precisa ser sempre feliz para continuar sendo uma boa vida.