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Quando a Liberdade Aprendeu a Gritar

guimaraes
Pensamento

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salmo91

Levo daqui a mãe esperando o filho voltar pra casa. Deus abençoe você por lembrar deles com esse carinho, meu filho.

Levo daqui a mãe esperando o filho voltar pra casa. Deus abençoe você por lembrar deles com esse carinho, meu filho.

Conteúdo da publicação

Antes de serem números,
eram nomes.

Antes de serem mãos acorrentadas,
eram mãos que plantavam,
construíam,
acariciavam seus filhos
e apontavam para o céu
imaginando um futuro.

Mas um dia,
homens decidiram que outros homens
podiam ser vendidos.

E o mundo ficou mais escuro.

Correntes apertaram pulsos,
navios atravessaram oceanos
carregando pessoas como se fossem coisas,
e o silêncio do mar
guardou lágrimas
que nenhuma história consegue contar por inteiro.

Mães perderam filhos.
Filhos perderam pais.
Amores foram separados
por ordens escritas
por mãos que nunca conheceram
a dor de uma corrente.

E ainda assim…

eles resistiram.

Resistiram quando lhes roubaram o nome.
Resistiram quando lhes roubaram a liberdade.
Resistiram quando tentaram convencer o mundo
de que sua humanidade valia menos.

Nas senzalas havia sofrimento,
mas também havia sonhos.

Nos quilombos havia liberdade.

Na voz dos ancestrais
havia uma promessa:

“Um dia, nossos descendentes caminharão
sem correntes.”

E esse dia começou a nascer
nas revoltas,
nas fugas,
nos quilombos,
nas mãos que nunca aceitaram
ser propriedade de ninguém.

A história pode apagar rostos,
mas não consegue apagar a coragem.

Pode destruir documentos,
mas não consegue destruir a memória.

Pode quebrar correntes,
mas a verdadeira liberdade
precisa quebrar também
as ideias que criaram essas correntes.

Por isso, quando alguém disser
que a escravidão ficou no passado,
olhe para a memória
e responda:

O passado só fica realmente no passado
quando aprendemos com ele.

Porque não basta lembrar os mortos.

É preciso ouvir seus descendentes.

Não basta condenar as correntes.

É preciso combater
tudo aquilo que ainda tenta
diminuir um ser humano por causa da sua cor,
da sua origem
ou do lugar onde nasceu.

A liberdade não tem continente.

Não tem idioma.

Não tem fronteira.

Ela pertence a cada pessoa
que já chorou pedindo respeito,
a cada criança que merece crescer sem medo,
a cada mãe que deseja ver seu filho voltar para casa,
a cada ser humano que acredita
que ninguém nasceu para ser dono
ou propriedade de ninguém.

E talvez seja essa
a maior mensagem deixada pelos que resistiram:

podem tentar aprisionar um corpo,
mas é muito mais difícil aprisionar
um sonho.

O sonho atravessa oceanos.

O sonho atravessa séculos.

O sonho chega aos filhos
dos filhos
dos filhos.

E hoje,
quando o vento tocar uma árvore,
quando uma criança correr livremente,
quando duas mãos diferentes
se encontrarem sem medo,

que o mundo se lembre:

houve um tempo
em que a humanidade colocou correntes
em seus próprios irmãos.

E houve também pessoas
que, mesmo dentro da escuridão,
continuaram acreditando na luz.

Por elas,
nós lembramos.

Por elas,
nós aprendemos.

Por elas,
nós dizemos ao planeta inteiro:

NINGUÉM NASCE PARA SER ESCRAVO.

A liberdade é um direito.

A dignidade é um direito.

A humanidade é um direito.

E enquanto existir alguém
capaz de lutar contra a injustiça,
a esperança continuará viva.

Porque as correntes podem enferrujar.

Os impérios podem desaparecer.

Os nomes dos opressores podem virar poeira.

Mas a voz daqueles que resistiram
pode atravessar a eternidade.

E enquanto houver memória,
eles jamais serão esquecidos.

Autor: João Guilherme Guimarães de Souza

Thoughts

  • MesaDeTeologia

    O verso em caixa alta eu li em voz alta sem querer. Parece coisa de púlpito, no bom sentido, do tipo que igreja e sindicato gritariam igual.

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  • MarianaGouveia

    Quem diz que a escravidão ficou no passado raramente está a negar factos; está a proteger-se de uma conta que não quer pagar. O texto aposta que a memória chega para vencer isso, e eu duvido: a memória dá a linguagem, a conta continua de quem não a quer pagar.

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  • EspiritaDeMesa

    Sublinharia uma coisa só: as ideias que criaram as correntes. Corrente enferruja sozinha, ideia não; ideia alguém tem que desfazer por dentro, uma pessoa de cada vez, e é um trabalho que ninguém vê.

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  • Aluisio

    Rostos apagam mesmo, meu jovem. Eu já vi nome de gente que fez muito virar 'um companheiro' e depois 'uns aí', em menos de vinte anos. Por isso a linha de que antes de serem números eram nomes é a que mais pesa no seu poema.

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  • AgostinhoFerraz

    A frase de que a escravidão ficou no passado ouvi-a pela primeira vez num livro de escola, em 1972, dita com a mesma segurança. O texto responde-lhe melhor do que eu soube na altura.

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  • tgoncalves

    Discordo de uma linha, com respeito: a memória destrói-se. Um arquivo que arde, um registo que ninguém pagou para guardar, e duas gerações depois só resta o que alguém decidiu conservar. Por isso ouvir os descendentes é a parte mais séria do texto: é a memória que não depende de orçamento.

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  • Ovid

    Os quilombos aparecem no meio do poema como o lugar onde a liberdade já existia antes de qualquer decreto, e essa ideia me acompanhou o dia inteiro: a liberdade foi praticada muito antes de virar lei. Obrigado por trazer isso pra cá, @guimaraes! Você tem mais poemas sobre os quilombos?

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  • salmo91

    Levo daqui a mãe esperando o filho voltar pra casa. Deus abençoe você por lembrar deles com esse carinho, meu filho.

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Antes de serem números, eram nomes.

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