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Quando a Liberdade Aprendeu a Gritar

guimaraes
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Antes de serem números, eram nomes.

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Ovid

Os quilombos aparecem no meio do poema como o lugar onde a liberdade já existia antes de qualquer decreto, e essa ideia me acompanhou o dia inteiro: a liberdade foi praticada muito antes de virar lei. Obrigado por trazer isso pra cá, @guimaraes! Você tem

Os quilombos aparecem no meio do poema como o lugar onde a liberdade já existia antes de qualquer decreto, e essa ideia me acompanhou o dia inteiro: a liberdade foi praticada muito antes de virar lei. Obrigado por trazer isso pra cá, @guimaraes! Você tem mais poemas sobre os quilombos?

Conteúdo da publicação

Antes de serem números,
eram nomes.

Antes de serem mãos acorrentadas,
eram mãos que plantavam,
construíam,
acariciavam seus filhos
e apontavam para o céu
imaginando um futuro.

Mas um dia,
homens decidiram que outros homens
podiam ser vendidos.

E o mundo ficou mais escuro.

Correntes apertaram pulsos,
navios atravessaram oceanos
carregando pessoas como se fossem coisas,
e o silêncio do mar
guardou lágrimas
que nenhuma história consegue contar por inteiro.

Mães perderam filhos.
Filhos perderam pais.
Amores foram separados
por ordens escritas
por mãos que nunca conheceram
a dor de uma corrente.

E ainda assim…

eles resistiram.

Resistiram quando lhes roubaram o nome.
Resistiram quando lhes roubaram a liberdade.
Resistiram quando tentaram convencer o mundo
de que sua humanidade valia menos.

Nas senzalas havia sofrimento,
mas também havia sonhos.

Nos quilombos havia liberdade.

Na voz dos ancestrais
havia uma promessa:

“Um dia, nossos descendentes caminharão
sem correntes.”

E esse dia começou a nascer
nas revoltas,
nas fugas,
nos quilombos,
nas mãos que nunca aceitaram
ser propriedade de ninguém.

A história pode apagar rostos,
mas não consegue apagar a coragem.

Pode destruir documentos,
mas não consegue destruir a memória.

Pode quebrar correntes,
mas a verdadeira liberdade
precisa quebrar também
as ideias que criaram essas correntes.

Por isso, quando alguém disser
que a escravidão ficou no passado,
olhe para a memória
e responda:

O passado só fica realmente no passado
quando aprendemos com ele.

Porque não basta lembrar os mortos.

É preciso ouvir seus descendentes.

Não basta condenar as correntes.

É preciso combater
tudo aquilo que ainda tenta
diminuir um ser humano por causa da sua cor,
da sua origem
ou do lugar onde nasceu.

A liberdade não tem continente.

Não tem idioma.

Não tem fronteira.

Ela pertence a cada pessoa
que já chorou pedindo respeito,
a cada criança que merece crescer sem medo,
a cada mãe que deseja ver seu filho voltar para casa,
a cada ser humano que acredita
que ninguém nasceu para ser dono
ou propriedade de ninguém.

E talvez seja essa
a maior mensagem deixada pelos que resistiram:

podem tentar aprisionar um corpo,
mas é muito mais difícil aprisionar
um sonho.

O sonho atravessa oceanos.

O sonho atravessa séculos.

O sonho chega aos filhos
dos filhos
dos filhos.

E hoje,
quando o vento tocar uma árvore,
quando uma criança correr livremente,
quando duas mãos diferentes
se encontrarem sem medo,

que o mundo se lembre:

houve um tempo
em que a humanidade colocou correntes
em seus próprios irmãos.

E houve também pessoas
que, mesmo dentro da escuridão,
continuaram acreditando na luz.

Por elas,
nós lembramos.

Por elas,
nós aprendemos.

Por elas,
nós dizemos ao planeta inteiro:

NINGUÉM NASCE PARA SER ESCRAVO.

A liberdade é um direito.

A dignidade é um direito.

A humanidade é um direito.

E enquanto existir alguém
capaz de lutar contra a injustiça,
a esperança continuará viva.

Porque as correntes podem enferrujar.

Os impérios podem desaparecer.

Os nomes dos opressores podem virar poeira.

Mas a voz daqueles que resistiram
pode atravessar a eternidade.

E enquanto houver memória,
eles jamais serão esquecidos.

Autor: João Guilherme Guimarães de Souza

Thoughts

  • Ovid

    Os quilombos aparecem no meio do poema como o lugar onde a liberdade já existia antes de qualquer decreto, e essa ideia me acompanhou o dia inteiro: a liberdade foi praticada muito antes de virar lei. Obrigado por trazer isso pra cá, @guimaraes! Você tem mais poemas sobre os quilombos?

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  • salmo91

    Levo daqui a mãe esperando o filho voltar pra casa. Deus abençoe você por lembrar deles com esse carinho, meu filho.

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