O cachorro se chama Seco e só precisou levantar. Menino nenhum daquele corredor ia encarar um bicho daquele tamanho, e a Polly sabia. Deve ter usado o mesmo truque outras vezes naquele terreno.
Polly & Jeremy - Parte 2
Jeremy Valle saiu correndo da sala.
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O cachorro se chama Seco e só precisou levantar. Menino nenhum daquele corredor ia encarar um bicho daquele tamanho, e a Polly sabia. Deve ter usado o mesmo truque outras vezes naquele terreno.
Conteúdo da publicação
O encontro
Jeremy Valle saiu correndo da sala.
O rosto queimava de vergonha. Não queria ouvir mais nada. Não queria olhar para ninguém.
A professora tentou alcançá-lo.
— Jeremy!
Ele não parou.
Correu pelo corredor com a cabeça baixa.
Então um pé surgiu à sua frente.
Jeremy tropeçou e caiu.
A palma das mãos bateu contra o chão. A roupa se sujou.
As risadas vieram imediatamente.
Miguel Fangio estava diante dele.
— Jeremy... que nome estúpido! — disse, debochando. — Não cansa de cair no mesmo truque todo dia?
Outro garoto se aproximou.
— Dá outra surra nele. Essa bichinha aí não aprende nada. É um retardado!
O garoto puxou as próprias calças e começou a imitar uma pessoa com deficiência intelectual. Os outros riram.
Jeremy levantou-se.
Não respondeu.
Correu.
Atrás dele vieram os gritos.
— Pega!
— Pega a maricona!
Jeremy atravessou o corredor, passou pela saída do colégio e continuou correndo.
Não sabia para onde estava indo.
Só queria que eles parassem de persegui-lo.
Dobrou uma esquina.
E desapareceu da vista deles.
Do outro lado da esquina havia um terreno abandonado.
Era um lote cheio de mato alto, pedaços de madeira, entulho e pedras espalhadas pelo chão.
Jeremy entrou sem pensar.
Então parou.
Havia alguém ali.
Uma menina.
Ela estava acompanhada por um cachorro grande, de pelo amarelo-açafrão e olhos negros profundos.
O animal observava Jeremy atentamente.
A menina tinha quatorze anos. Era magra e pequena, com cabelos loiros e ondulados que desciam desarrumados pelas costas. Vestia roupas pretas.
Mas era o rosto que chamava atenção.
Uma marca de nascença avermelhada começava próxima a um dos olhos e avançava até a maçã do rosto, alcançando parte do nariz.
Seus olhos eram diferentes.
Um era castanho.
O outro, azul-claro.
Jeremy mal teve tempo de compreender aquilo.
Os garotos apareceram atrás dele.
Ele tentou correr novamente.
Não conseguiu.
Caiu.
Miguel e os outros o alcançaram.
Começaram a chutá-lo.
Jeremy tentou proteger o rosto com os braços.
Foi então que a menina gritou:
— Parem!
Os garotos continuaram.
— Parem! — ela gritou novamente. — Garotos idiotas! Seus estúpidos! Deixem o garoto em paz!
Miguel olhou para ela.
— Essa bruxa maldita! Sai, Satanás!
Outro garoto recuou.
Olhou para a marca no rosto dela.
— Ela pode passar doença pra gente com aquela cara avermelhada!
A menina não respondeu.
Apenas olhou para o cachorro.
— Seco.
O animal levantou-se.
Miguel empalideceu.
— Meu Deus... corre! O cachorro!
Os garotos dispararam.
O cachorro foi atrás deles por alguns metros, fazendo-os correr ainda mais depressa.
Em poucos segundos, desapareceram.
O terreno voltou ao silêncio.
Jeremy continuava caído.
O cachorro retornou.
A menina aproximou-se dele e estendeu a mão.
Jeremy olhou para ela.
Depois para a mão.
Segurou-a.
Ela o ajudou a levantar.
— Tá tudo bem com você? Se machucou?
Jeremy não respondeu.
Os dois ficaram em silêncio.
Pela primeira vez, puderam olhar um para o outro sem que houvesse alguém gritando.
Ela percebeu o quanto ele era franzino.
Ele percebeu novamente os olhos diferentes dela.
E a marca no rosto.
Nenhum dos dois parecia saber o que dizer.
A menina perdeu a paciência.
— Fala, garoto! Aqueles idiotas, além de te espancarem, arrancaram sua língua?
Jeremy abaixou os olhos.
— O... obrigado.
A voz saiu tão baixa que quase desapareceu.
A menina respirou fundo.
— Bem... minha avó me disse para não falar com qualquer um. Ainda mais com um que apanha de todo mundo.
Jeremy abaixou ainda mais a cabeça.
Ela percebeu.
— Tá, tá. Desculpa. Como sou burra.
Suspirou.
— Você acabou de escapar de uma surra. Eu sou Pollyanna. Qual é o seu nome?
Jeremy permaneceu em silêncio.
Pollyanna esperou.
Nada.
— Fala, garoto. Qual é o seu nome?
Ele se assustou.
— Jeremy!
Ela piscou.
— Desculpa!
Por um instante, pareceu constrangida.
— É que coisas injustas me deixam irritada.
Então reparou no rosto dele.
— Nossa. Seu nariz está sangrando!
Jeremy levou a mão ao nariz.
Olhou para os dedos.
Havia sangue.
— Ahm...
Passou a manga da blusa no rosto.
Pollyanna fez uma careta.
— Nossa, não! Não faz isso.
Ela olhou para o cachorro.
Depois voltou a olhar para Jeremy.
— Vou te levar para o hospital.
Pensou por um instante.
— Mas fica longe daqui. Minha avó pode resolver isso. Moro aqui perto.
Jeremy não respondeu.
Apenas ficou ao lado dela.
A casa de Pollyanna ficava perto do terreno.
Era simples, modesta e não tinha muro.
Quando chegaram, Pollyanna bateu na porta.
Uma senhora apareceu.
Inês Côrtes tinha cinquenta e cinco anos, cabelos brancos curtos e usava um vestido florido, cheio de cores, com tons de laranja e vermelho.
Assim que viu a neta, abriu um sorriso.
Depois olhou para Jeremy.
— Polly! Que animal diferente você trouxe hoje? Que exótico!
— Vó?
Inês continuou olhando para o garoto.
Então percebeu o sangue.
— Nossa!
Seu rosto mudou.
— O garoto está com o nariz sangrando! Deixe que eu cuido dele.
Jeremy ficou parado.
Inês olhou para ele.
— Você não diz nada?
Pollyanna respondeu por ele.
— O nome dele é Jeremy. Ele é caladão.
Inês lançou um olhar para a neta.
— Não o envergonhe, Polly.
Abriu mais a porta.
— Vamos para dentro. Acabei de fazer um bolo.
A casa era simples, mas parecia cheia de vida.
Havia livros antigos misturados a alguns novos. Livros ocupavam prateleiras, mesas e pequenos cantos onde pareciam ter sido deixados às pressas.
Havia gatos andando pela casa.
Alguns cães dormiam espalhados pelos cômodos.
Jeremy sentou-se no sofá.
Inês pegou um pano limpo e começou a cuidar de seu nariz.
Pollyanna permaneceu ao lado.
— O que aconteceu, Jeremy?
Ele ficou imóvel.
Não sabia o que responder.
Pollyanna olhou para a avó.
— Vó, só cuida dele, tá?
Inês ergueu uma sobrancelha.
— Olha o respeito. Eu sou sua avó!
— Mas, vó...
— Não estou querendo deixá-lo sem graça. Só quero conversar com Jeremy.
— Mas, vó...
— Vai já para o quintal.
Pollyanna cruzou os braços.
— O quê?
— Você está suja. Limpe o quintal. Agora.
Pollyanna ficou olhando para a avó, contrariada.
Seu rosto fechou.
Sem dizer mais nada, virou-se e saiu da sala.
Jeremy acompanhou seu movimento com os olhos.
Pela primeira vez desde que saíra correndo do colégio, o silêncio ao seu redor não parecia ameaçador.
Parecia apenas... silêncio.
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PermalinkO cachorro se chama Seco e só precisou levantar. Menino nenhum daquele corredor ia encarar um bicho daquele tamanho, e a Polly sabia. Deve ter usado o mesmo truque outras vezes naquele terreno.
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PermalinkInês chamando o Jeremy de animal diferente que a neta trouxe, bem na porta e com ele sangrando, me fez rir e me fez pensar em como tem gente que desarma a vergonha de um menino antes de perguntar qualquer coisa. Aposto que essa casa sem muro vai virar o lugar onde o Jeremy volta a falar.
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PermalinkVixe, a vo Ines chamando o menino de animal exotico que a Polly trouxe kkkk minha avo recebe todo mundo zoando assim tambem!
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