Aquele trecho onde ela não consegue atrair a atenção dele nem com o vestido, nem com a barriga. Entendo demais dessa invisibilidade silenciosa.
O peso do engano capítulo 1
Hoje é um dia muito especial para mim, por vários motivos. Um deles é que estou fazendo três anos de casamento, o outro é que estou esperando meu primeiro filho. E, nada menos importante, recebi uma…
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Pensamento
Aquele trecho onde ela não consegue atrair a atenção dele nem com o vestido, nem com a barriga. Entendo demais dessa invisibilidade silenciosa.
Conteúdo da publicação
Hoje é um dia muito especial para mim, por vários motivos. Um deles é que estou fazendo três anos de casamento, o outro é que estou esperando meu primeiro filho. E, nada menos importante, recebi uma proposta de emprego maravilhosa.
Combinei com Daniel de jantar fora, o que ele recusou, mas insisti várias vezes para que aceitasse. Minutos mais tarde, tomei um banho relaxante, coloquei um vestido preto que antes era um pouco largo e hoje está justo em mim.
Minha barriguinha está começando a aparecer. Acho que Daniel não é capaz de reparar nisso, já que nunca repara em mim.
Ao chegar ao restaurante, sento-me à mesa reservada e aguardo Daniel, que por sinal está atrasado... O garçom, pela terceira vez, vem à minha mesa perguntar se já quero fazer meu pedido. Falo que sim: uma salada e suco de laranja.
Olho ao meu redor, nas mesas ocupadas por casais apaixonados, onde os maridos demonstram carinho por suas esposas. Inclusive, vi uma gestante ao lado de seu esposo carinhoso. Mesmo com uma criança no colo, ele acariciava a barriga da esposa. Era nítido que estava muito feliz.
Eu estava distraída olhando à minha volta e não percebi quando Daniel chegou, com a cara fechada, como se eu tivesse feito algo errado. Então resolvi puxar assunto:
— Está tudo bem… Você demorou? — perguntei, forçando um lindo sorriso.
— Tinha coisa mais importante! — ele responde seco. Reparo em seu pescoço: uma marca de batom. O tal motivo que era “importante”.
— Entendi. Hoje é nosso aniversário de casamento... — eu nem terminei de falar quando sou interrompida por ele.
— Isso não é importante. Tenho uns documentos que preciso que você assine.
Ele coloca os papéis na mesa. Curiosa para saber o que é, sinto minhas pernas fracas, ainda bem que estava sentada. Pedido de divórcio. Olho para ele... e ele já se adianta em falar:
— Vou me casar com Jade. Ela está grávida. Não posso deixar meu filho crescer sem um pai.
Escutar isso dele doeu muito. Será que não passa pela cabeça dele que eu também posso estar grávida? E meu filho pode crescer sem um pai?
Ele continua falando, mas eu já não estava mais prestando atenção. Meus olhos estavam fixos nos benefícios que terei se assinar o divórcio.
— Posso assinar o divórcio quando você mudar ele. Não quero benefício nenhum. Vou trabalhar para não deixar faltar nada para nós.
Falo olhando nos olhos dele, com voz firme. Não deixei transparecer que estava chorando por dentro.
— Nós quem? Não existe “nós”. Você tem que entender que vou me casar por causa da gravidez — ele fala, tentando se explicar.
— Já foi o tempo em que a pessoa tinha que casar. Hoje existe pensão e guarda compartilhada, e o pai pode estar presente mesmo sendo casado com outra mulher, mas pelo que vejo você quer mesmo é se casar com ela, está bem. Me entregue o quanto antes os documentos como lhe pedi. Você pode me enviar por e-mail.
Ao falar isso, pego minha bolsa. Não esperei o garçom com meu pedido. Antes de sair, falo para ele pagar a conta. Ando calma até a saída, mas eu queria mesmo era sair correndo. Queria minha cama para chorar.
Lembrei da proposta de emprego. Então abri meu notebook. Não sei como consegui responder o formulário e enviar tão rapidamente.
Em questão de minutos, recebi o retorno da empresa. Era como se eles estivessem me esperando. Daqui a dois dias estarei em outro país. A tempo de resolver algumas coisas aqui. Tudo foi tão rápido que, quando vi, já estava de partida...
Cinco anos depois…
Acordei cedinho para preparar uma mesa de café da manhã para meu lindo filho, Artur. Hoje é o aniversário dele, e como sempre, faço uma surpresa.
Entro no quarto dele cantando parabéns. Ele vai se mexendo na cama e abrindo seus olhinhos lentamente. Ao me ver, estica seus bracinhos para um abraço. Coloco a bandeja com o bolo em cima da mesinha de estudo e vou de encontro ao abraço do meu anjinho.
— Feliz aniversário, meu amor. Mamãe te ama muito, sabia?
Falo o enchendo de beijinhos. Ele arruma meu cabelo, que estava em meu rosto, para trás da minha orelha e fala:
— Mamãe, a senhora é a melhor mãe do mundo. Eu queria que meu papai estivesse aqui com a gente. Nós seríamos muito mais felizes.
Não tenho coragem de contar para meu filho que seu pai preferiu outra mulher e nos abandonou. E por esse motivo, eu não contei para Daniel que estava grávida.
— Agora vamos levantar da cama e trocar de roupa. O Anderson vai levá-lo para a escola.
Artur rapidamente cobre a cabeça, fazendo suas brincadeiras. Sem pensar duas vezes, começo a procurá-lo pela cama:
— Cadê o Artur? Vou procurar e vou encontrar... Acho que encontrei alguma coisa — falo pegando no pezinho dele.
— A senhora não me achou, só achou meu pé! Me encontra, mamãe… — fala ele com a cabeça ainda coberta.
— Vou procurar e vou achar o menino mais lindo do mundo.
Falo procurando novamente, até puxar a coberta de cima da cabeça dele. O mesmo está com os olhos bem fechados:
— Te encontrei! E não tem escapatória. Chega de brincadeira, rapazinho. Já está atrasado para a escola.
Peguei o uniforme dele e o ajudei a se arrumar. Meu menino é um rapazinho. Hoje, na escola, a turminha da sala dele vai cantar parabéns. Por esse motivo, não posso deixar que fique em casa.
— Mamãe, a senhora vai trabalhar hoje? — pergunta Artur, curioso.
— Sim, meu amorzinho. Mas prometo te buscar na escola.
Após falar isso, Artur dá vários pulinhos de alegria. Já na cozinha, Anderson (o motorista), Mariana (a cozinheira) e Joana (a empregada da casa) esperavam Artur para cantar parabéns novamente. O bolo que tinha levado para o quarto, levei de volta para a cozinha. Assim todos nós podemos comer um pedaço.
— Vocês só me deram parabéns... e o meu presente? — fala Artur, pegando todos de surpresa. Mariana olha para sua amiga de trabalho, fazendo sinal para que Joana pegasse os presentes.
— Olha, meu filho, quantos presentes... Gente, muito obrigada. Eu não sei o que seria de mim e do meu pequeno sem vocês.
Falo de coração, pois sou muito grata aos meus funcionários, que são como uma família para mim. Meu telefone tocou. Era uma chamada de vídeo. Pelo que já sei, quem é...
O “Sr.” Leonardo foi o responsável pelo que sou hoje. No passado, ele foi um grande amigo da minha mãe. Por ironia do destino, estou trabalhando em uma das empresas dele.
Leo, é assim que o chamo, ele tem apenas um filho, então me trata como se eu fosse sua outra filha, e Artur, seu netinho. É tão lindo ver o carinho que tem por nós.
— Vovô Léo, olha quantos presentes eu ganhei! — fala Artur, mostrando o carrinho de controle remoto.
— Feliz aniversário, meu garoto! Escuta... você não está atrasado para a escola? — fala Léo do outro lado da vídeo chamada.
— Vovô Léo, você vai vir me ver? Hoje é meu aniversário e quero comemorar com você e a mamãe, já que meu pai nunca aparece no meu aniversário.
Léo mostra seu desconforto. Então ele abre um sorriso e fala, tentando alegrar a criança:
— Hoje eu vou te buscar na escola, junto com sua mãe, porque nós vamos passear. E podemos ir a uma loja, você vai poder escolher o que quiser. Quem precisa de um pai, se tem um avô e uma mãe incrível, hein?
— Anderson, você ouviu que meu vovô vai me buscar na escola? Então vamos logo, já estou atrasado!
Diz Artur, fazendo todos na cozinha rirem com seu jeito extrovertido. Na cabeça dele, quanto antes chegar à escola, mais rápido a hora passa.
— Muito obrigada, Léo. Hoje ele estava um pouco mais triste, me perguntando pelo pai. Não sei até quando vou poder esconder a verdade.
Na verdade, não tinha certeza se deveria ter contado a verdade para Daniel. No fundo, eu esperava que ele me reconhecesse como sua esposa amada, ficando comigo. Mas, já que escolheu outra, é porque não me amava tanto assim.
Eu também não tinha certeza se ele seria um bom pai para meu filho. Se seria presente... já não era presente na minha vida. Só me procurava quando estava alcoolizado. Me arrependo de ter me entregado naquelas ocasiões.
Thoughts
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PermalinkO mais estranho não é nem o Daniel desaparecer. É ela voltando tipo vitória 5 anos depois e o filho ainda perguntando pelo pai que nunca chegou. Está tudo ali.
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PermalinkEu tipo nem sei se acredito que tudo isso aconteceu assim, tão rápido. Mas lendo aquela fuga dela pra casa pra chorar, aquela coisa toda faz sentido de verdade.
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PermalinkO cara deixa ela grávida e quer ser pai porque tá com outra. Que 💀
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PermalinkComo é que o Leo aparece daquele jeito na vida deles depois de tantos anos sem aparecer, tipo um avô de verdade mesmo?
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PermalinkAquele trecho onde ela não consegue atrair a atenção dele nem com o vestido, nem com a barriga. Entendo demais dessa invisibilidade silenciosa.
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PermalinkEssa proposta de emprego que chega de repente no pior momento... como é que ela conseguiu coragem pra dizer sim e se mudar pra outro país em dois dias?
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PermalinkAquela marca de batom no pescoço dele enquanto ela tava lá esperando. Eu senti aquele baque físico de descobrir onde ele realmente estava.
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PermalinkAquele momento em que Artur pede pro pai estar ali no aniversário... ela vai contar a verdade pra ele algum dia, ou fica guardada?
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