A Entrevista
Sou papel...
Tem uma foto,
às vezes linda,
às vezes feia,
ou deformada por uma beleza que não é vista.
Apenas oportunidades...
Meu RG,
meu CPF,
meu endereço instável,
como meus empregos,
que são passageiros.
Minha saúde?
Hoje não sei.
Estou bem ou amanhã estou em um caixão.
Tão incerto como o salário mínimo,
tão incerto quanto meu trabalho.
Mas tudo o que faço,
com o tempo,
que seja bom,
mesmo que não seja para sempre.
Que eu tenha apenas meu sustento
para uma aliança familiar,
para construir ou desmoronar,
ser forte como a rocha
ou fraca como a areia.
Mas sempre ser autêntica.
Como se faz um RH?
Como escolhe o que é bom,
o que é justo,
se não falo o que sinto?
Como eu poderia ser meu currículo?
Sou apenas papel,
sem referência,
sem estudo.
Porém, há palavras
que nenhum letramento poderá ensinar.
Não sou apenas uma vaga.
Você precisa saber
por que não paro.
Sou vento,
e papel voa.
Não dura para sempre.
É bom enquanto não molha,
nem amassa.
Quando os fatos acontecem,
já não sou necessária.
Meu papel,
feito para papel higiênico,
tão limpo,
tão cheiroso,
vai para o lixo.
Assim é a voz sobre um currículo.
Assim nasce quem sou eu.
Com grandes ou pequenas oportunidades de falar,
apenas imito o som do sim e do não.
Há algo que ainda não sei,
o real sentido.
Está aqui.
Mas o papel,
por sorte,
queima no fogo.
Cinza se faz com o tempo.
E quem sabe,
um dia,
eu me perca
por um troco.
Ana Cristina Poronhak de Carvalho