(A Carlos Drummond de Andrade)
Estás aniquilando as chances de prosperares,
Cavando covas para ti e para teus familiares.
Nunca antes estiveste tão assombrado com as ameaças
Que rondam tua mente e a mente de teus colegas.
Teu desperdício de saliva com coisas fúteis e mesquinhas
Serviu apenas para o propósito de fazer sucumbir
Todo o povo que não se ilude com promessas
Nem segue a linha de raciocínio feita de grama e trigo.
Ao longo desses anos tenho visto acontecer aqui
O esquecimento do passado e a celebração de um futuro semelhante,
E isso vale tanto para os jovens vestidos de calamidade
Quanto para os moços e moças cobertos de mentiras.
Por meio de ambos, tem-se perpetuado a guerra interior e exterior,
A indecência generalizada e a fortuna produzida com sangue,
Seja ele ruivo ou louro, rico ou pobre, pai ou filha.
Ninguém está muito longe dos rios de pessoas sem crenças fixas.
Apareça o exército, apareça a força do exílio forçado,
E estarás sempre à mercê dos piratas vagabundos,
Dos carentes indisponíveis e dos reis pacíficos;
Logo estes que nunca te expuseram qualquer pacifismo.
Estarás preso às condições precárias em que trabalhas,
Sem poder reclamar uma vez sequer, já que sempre foi assim;
E tudo o que fizeres será para financiar terceiros,
Mesmo que signifique perder boa parte do que é teu.
Triste é a situação na qual se encontra a classe alta,
Que só por ser abençoada e estar em menor quantidade,
É estripada e expulsa das marchas populares,
Como se gigantes não valessem o que dão aos outros.
Rumores de conflitos iniciantes e o fim profetizado de outros
Trazem aos ouvintes o gosto indescritível da derrota
E a ansiedade por conta da falta de participação
Dessa pátria nos malditos assuntos estrangeiros.
O mesmo vale para os sutis invasores de terras,
Tão aliviados por não serem procurados pelas autoridades
Nesses territórios que marcam com os pés e com as placas,
Em seu terrorismo artificial disfarçado de ajuda.
Junto a isso, emprestas a voz a comandos robóticos,
Dás os olhos a coleções particulares de empresários,
Enlouqueces com histórias nunca comprovadas
E tiras da chuva a punição para os que dormem em serviço.
Tuas posses não têm mais valor algum em tuas mãos,
E os postes iluminam não só a rua, mas tua casa inteira,
Já que não restou luz dentro de teu quarto ou tua cozinha,
Nem onde estou, pois salas e banheiros são naturalmente obscuros.
Aprendeste a louvar o grotesco, o sujo e o imoral,
Que é só o que surge feito doença nas produções audiovisuais,
Algo provado por certas premiações recentes
Onde o aceitável saiu de cena e deixou entrar o punível.
Aprovado está o fogo que consome o pulmão
De onde veio grande parte de nossa indústria.
Suspiras com isso, afinal não vais precisar se preocupar
Com algo que está escrito na Bíblia, não é mesmo?
Revelada pelas mais densas camadas de teu coração
Foi a indecisão afoita com que regeste em papéis rasgados
Os que confiaram em tuas velhas ideias lusitanas,
Hoje apagadas pelo progresso e o regresso que sempre obtiveram êxito.
Nos dias em que pensas em tudo o que passou,
Talvez lhe venha na memória um pouco de saudosismo,
Uma pequena dose de consolo por saber que chegaste a viver
Épocas distantes e bem melhores que a atual.
Não há mais amor, não há mais vida a ser vivida,
Muito menos sensações como o calor para o corpo.
Todos convivem diariamente com o erotismo pornográfico,
Com moças que se vendem à luz do dia no meio digital.
Tantas se perderam nesse vazio em forma de distração,
Nesses objetos que elas se tornaram na adolescência.
Para quê tantas lágrimas escorrendo por seus rostos,
Se é isso mesmo que quiseram ser desde sempre?
Além delas, tu vês o principal despertar de anjos contraditórios,
Vestidos de preto e com um humor que beira a psicopatia,
Mas que se propõem a defender quem não está iluminado
Pelos holofotes hipócritas da mídia suspeita.
Sabes o que se passa entre os que influenciam,
Não sabes, cego pela riqueza fácil vinda através do azar,
O teu azar, que eles amam mostrar como um meio digno
De conseguir o que todos querem nessa vida?
A prisão veio para o ex-governante nacional,
E agora aguardas ansioso o mesmo para o atual.
Não deixas de gargalhar ao ouvires a ti mesmo,
Já que sabes da impunidade que cerca essa nação.
Existem seres que tornam-se prisioneiros políticos
Por terem contado piadas com a intenção de fazer rir.
E existem indivíduos que andam com o crime,
O glorificam e ainda estão sendo defendidos.
Estamos pelo avesso, e se não tomarmos cuidado,
Logo o mundo estará dominado pela ignorância
De ambos os pólos cheios de ganância e enganação,
Teleguiados por gente ao teu redor e à frente de multidões.
Jaicós, 11 de Outubro de 2025.