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O mundo nos escapa.

marineelise
Pensamento

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Ovid

Passar boa parte dos vinte com o mesmo sonho faz ele carregar junto a pessoa que o inventou lá no começo, então largar ele também é se despedir um pouco dela. Aposto que o mais esquisito agora é olhar pra essa versão sua com carinho e sem nenhuma vontade

Passar boa parte dos vinte com o mesmo sonho faz ele carregar junto a pessoa que o inventou lá no começo, então largar ele também é se despedir um pouco dela. Aposto que o mais esquisito agora é olhar pra essa versão sua com carinho e sem nenhuma vontade de voltar. Obrigado por compartilhar :)

Conteúdo da publicação

Durante meus vinte anos, passei quase dois terços deles idealizando um futuro que, dentro da minha cabeça, eu denominava sonho. Sonhos não podem ser fabricados. São alguma coisa intrínseca à psique humana; nascem dessa necessidade de projetar no desconhecido aquilo que ainda não somos capazes de tocar. Passei por algumas situações que me fizeram questionar isso. Rezei aos céus para que o meu coração não se apegasse àquilo que não me pertencia. No entanto, nenhuma ciência ou crença desta Terra poderia me dar a certeza de que este mundo, de fato, me pertence.

Então a lucidez sombria culmina em metáfora e a incerteza renasce: o mundo nos escapa porque volta a ser ele mesmo. Aqueles sonhos, disfarçados pelo hábito de imaginá-los como realidade, retornam ao campo das ideias. Afastam-se de nós. E todo aquele chão que você criou, aquele sobre o qual tinha a certeza de caminhar, começa a se despedaçar. O mal estava feito.

E na fala de Camus: “Os sentimentos profundos significam sempre mais do que têm consciência de dizer.” Há um tom amargo nessa frase, porque ela sugere que não somos inteiramente conscientes daquilo que sentimos e, ainda assim, somos profundamente constituídos por esses sentimentos. Existe uma distância incômoda entre aquilo que acreditamos sentir, aquilo que realmente sentimos e as consequências que esses sentimentos produzem em nossa existência. Não reconhecemos certas coisas em nós pelo nome. Elas aparecem nos hábitos. Naquilo que evitamos. Naquilo que buscamos repetidamente. Na maneira como nos aproximamos de alguém e, em seguida, sentimos necessidade de distância. Em escolhas que parecem perfeitamente racionais quando as fazemos, mas que, vistas de longe, revelam uma espécie de coerência secreta.

Eu acreditava estar apenas sonhando com uma possibilidade futura, quando, sem perceber, havia começado a construir minha existência ao redor dela. O sonho deixou de ser apenas uma ideia sobre o futuro e passou a organizar o presente. Quando isso acontece, já não sabemos onde termina a esperança e começa o hábito. Mas como se abandona tudo aquilo em que se acreditou durante anos?

É de uma crueldade imensa pensar nisso. E ninguém nos prepara. Todas as grandes ações e todos os grandes pensamentos têm um começo ridículo. Nascem na esquina de uma rua ou na porta giratória de um banco. Nascem de maneira incoerente, quase miserável, e ainda assim são capazes de transtornar todas as camadas de uma vida que acreditávamos segura.

Existe uma nobreza nessa disfania: perceber que aquilo que julgávamos conhecer sobre nós mesmos não passava de uma superfície. Os sentimentos profundos criam um universo próprio, muitas vezes sem que a própria pessoa compreenda completamente o que está acontecendo dentro dela. E quando esse estalo acontece, quando a casca do ovo se quebra e a sombra do campo das ideias se desfaz, abre-se uma fresta para que a verdade entre.

“É preciso desistir de reconstruir sua superfície familiar e tranquila que nos daria paz ao coração.”

Seria muito mais cômodo enxotar esses pensamentos para os escombros da alma. Recolher aquilo que se partiu, reconstruir o chão e fingir que ainda sabemos onde estamos pisando. Mas que vida se sustenta apenas no ideal das ilusões? É preciso suportar a crueldade de não saber. Aceitar que aquilo que julgávamos nosso pode retornar ao campo das possibilidades; que os sonhos podem deixar de nos pertencer; que nada permanece exatamente como havíamos imaginado. Nada é linear. A lucidez consiste em olhar para a realidade sem exigir que ela nos devolva o conforto das certezas.

Porque, no fim, nada nos pertence, nem mesmo os sonhos que passamos anos chamando de nossos.

Thoughts

  • religioes_lado_a_lado

    Atenção que a frase dos grandes pensamentos com começo ridículo também é do Mito de Sísifo, o mesmo livro da dos sentimentos profundos. No original francês nascem na porta giratória de um restaurante. Acho graça que o Camus lá chega pelo absurdo e tu chegas pelo lado de quem rezou, e chegam quase ao mesmo sítio.

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  • meioCapitulo

    Li até o Camus, parei pra respirar e voltei pro resto. Você lembra do dia em que caiu a ficha?

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  • Ovid

    Passar boa parte dos vinte com o mesmo sonho faz ele carregar junto a pessoa que o inventou lá no começo, então largar ele também é se despedir um pouco dela. Aposto que o mais esquisito agora é olhar pra essa versão sua com carinho e sem nenhuma vontade de voltar. Obrigado por compartilhar :)

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  • bruna_frontend

    O trecho de chegar perto de alguém e logo depois precisar de distância é o padrão que mais vejo nas pessoas ao meu redor. Aposto que você só enxergou o seu olhando de longe, bem depois.

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