Muito lindo essa história
O Livro Dos Sonhos
Capítulo — Noite de Lua Cheia
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Capítulo 5 — Noite de Lua Cheia
Capítulo 5 — Noite de Lua Cheia
Lobo em Pele de Ovelha
Era noite de lua cheia.
O céu estava completamente limpo. Não havia nuvens, nem tempestades. Apenas o brilho intenso da lua iluminando o caminho, como se o próprio céu tentasse mostrar que ainda existia alguma luz para quem caminhava na escuridão.
Naquela noite, porém, a escuridão não estava acima de mim. Estava dentro de mim.
Poucas horas antes, eu havia ouvido uma das frases mais dolorosas de toda a minha vida. Palavras capazes de atravessar qualquer coração.
"Eu matei o amor que eu tinha por você."
Não houve gritos. Não houve discussão. Apenas silêncio.
Um silêncio pesado, que parecia arrancar de mim tudo aquilo que eu acreditava ter construído.
Eu a deixei partir.
Deixei que seguisse sua vida, seus sonhos e seu próprio caminho.
Mas eu fiquei.
Fiquei preso naquele instante.
Ainda amava a mulher que havia sido meu casamento. Ainda existia em mim a esperança infantil de que tudo voltaria a ser como antes. Só que, depois daquela frase, eu não queria mais esperar.
Eu apenas queria um abraço.
Queria que alguém anestesiasse a dor que consumia meu peito.
Foi então que comecei a fugir.
Antes mesmo daquele fim definitivo, eu já conversava com outra garota. Ela era doce, educada, demonstrava carinho e parecia enxergar em mim algo que eu já não conseguia enxergar em mim mesmo.
Naquela noite, atravessei cidades para encontrá-la.
Enquanto dirigia, eu olhava para a lua cheia e tentava convencer a mim mesmo de que Deus estava escrevendo uma nova história.
Hoje percebo que não era Deus quem eu estava ouvindo.
Era o meu desespero.
Quando finalmente a vi caminhando em minha direção, tudo pareceu desacelerar.
Ela tinha um sorriso tranquilo.
Os cabelos dourados refletiam a luz da lua.
E seus olhos...
Seus olhos eram de um azul tão intenso que pareciam duas pequenas porções do céu. Eram como duas bolas de gude iluminadas, profundas e serenas, capazes de transmitir uma paz que eu havia perdido há muito tempo.
Naquele instante, achei que estava me apaixonando outra vez.
Mas eu estava enganado.
Aquilo não era amor.
Era fuga.
Sem perceber, comecei a construir uma personagem.
Peguei sua beleza, seu carinho, sua delicadeza e seus sonhos.
Depois coloquei sobre ela todas as expectativas que ainda pertenciam a outra pessoa.
Eu não enxergava quem ela realmente era.
Enxergava quem eu precisava que ela fosse.
Transformei seus braços na minha caverna.
Seu abraço virou meu esconderijo.
Seu sorriso virou um remédio.
Sua presença virou uma tentativa desesperada de apagar uma dor que ainda sangrava.
Ela nunca pediu para carregar esse peso.
Fui eu quem o colocou sobre seus ombros.
Criei uma máscara para mim.
Sorri enquanto chorava por dentro.
Dizia que estava feliz.
Dizia que estava curado.
Dizia que havia encontrado o amor da minha vida.
Mas, todas as noites, quem habitava meu coração ainda era outra pessoa.
Durante três meses vivemos momentos que, para qualquer pessoa, pareciam um verdadeiro conto de amor.
Conheci sua família.
Sentei-me em mesas onde jamais imaginei estar.
Almocei em restaurantes que nunca pensei conhecer.
Conversávamos sobre casamento.
Sobre filhos.
Sobre futuro.
Sobre Deus.
Ela fazia planos.
Ela acreditava.
Ela me oferecia um amor sincero.
E eu queria acreditar que também conseguia oferecer o mesmo.
Mas não conseguia.
Porque existe uma enorme diferença entre amar alguém...
...e usar alguém para fugir da dor.
Foi então que compreendi uma das verdades mais duras da minha vida.
Naquela história, eu não era a ovelha ferida.
Eu era o lobo vestido com pele de ovelha.
Não porque desejasse machucar alguém.
Mas porque minha dor me transformou em alguém que já não enxergava as pessoas como elas realmente eram.
Eu via nelas apenas aquilo que poderia aliviar meu sofrimento.
Ela chegou para me curar.
Mas eu ainda estava doente demais para receber um amor verdadeiro.
No fim, precisei partir.
Terminei aquele relacionamento.
E percebi que a ferida que alguém havia aberto em mim agora também existia dentro dela.
A dor não desapareceu.
Ela apenas mudou de endereço.
Naquela noite de lua cheia compreendi algo que levarei para o resto da vida.
Nenhuma pessoa foi criada para ocupar o lugar de outra.
Ninguém merece carregar o peso de uma ferida que não provocou.
Quando fugimos da dor para os braços de outra pessoa, não enxergamos quem ela realmente é.
Enxergamos apenas a imagem que nossa carência desenhou.
Eu não a amava pelo que ela era.
Eu a amava pelo personagem que construí dentro de mim.
E isso nunca seria justo.
Hoje caminho mais devagar.
Aprendi que existem dores que precisam ser atravessadas e não escondidas.
Aprendi que algumas noites foram feitas para serem choradas.
Que algumas lágrimas não podem ser evitadas.
E que Deus, muitas vezes, não nos livra da escuridão.
Ele apenas caminha conosco até o amanhecer.
Se este capítulo encontrar alguém tentando esconder suas feridas nos braços de outra pessoa, deixo apenas um conselho:
Não fuja.
Chore.
Espere.
Ore.
Permita que Deus cure aquilo que ninguém mais pode tocar.
Porque toda noite termina.
Até a lua cheia, que parece eterna, um dia se despede para dar lugar ao nascer do sol.
E foi somente quando parei de procurar outro amor...
...que finalmente comecei a encontrar a mim mesmo.
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