9. A DOR QUE ME PUXA PARA BAIXO
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NĂŁo chegou como soco.
Chegou como ùncora lançada no fundo do peito.
Peso sem forma, sem cor, sem nome,
que me puxava para o chĂŁo a cada passo.
Nos dias bons, ficava adormecida,
esperando o momento de me lembrar que existia.
Nos dias ruins, arrastava-me para o fundo do poço,
onde a luz do sol era lembrança distante
e as vozes lĂĄ de cima, eco abafado.
Como ÂŽÂŽFiona Apple`` em ÂŽÂŽHeavy Balloon``,
eu carregava um balĂŁo cheio de chumbo
que ninguém via, mas que pesava mais que o mundo.
Puxava meus ombros para frente,
curvava minha coluna como velha que carrega o mundo.
Tornava o simples ato de levantar da cama
uma batalha de horas contra a gravidade.
Tentava nadar contra, gritar, me agarrar.
Mas ela sempre vencia.
Deixava-me exausta, boiando num mar de cansaço,
sem forças nem para pedir socorro.
NĂŁo era dor fĂsica, mas doĂa em cada cĂ©lula.
Dor de existir num corpo que nĂŁo sabia ser leve.
De viver num mundo mais pesado do que eu aguentava.
Como ÂŽÂŽLouise Bourgeois`` esculpindo aranhas gigantes,
eu tecia teias de sofrimento
e me sentia presa na minha própria criação.
Ela me puxava para baixo todos os dias.
Até que esqueci como era flutuar.
â NelleAziul