Carregando…

Âncoras

Orlanobre
Pública 0 conversa 2 pensamentos 29 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Capítulo 6 - Dez Anos

In groups

Conteúdo da publicação

Capítulo 6 - Dez Anos

Adrian acordou com o coração disparado, a mão já fechada em torno do próprio peito antes mesmo de abrir os olhos.

O caderno ainda estava ali, preso contra o peito por baixo da camisa, exatamente onde tinha adormecido com ele na noite anterior. Respirou fundo, o alívio descendo devagar, enquanto a voz que o tinha acordado repetia o chamado pela porta.

- Descida de emergência. Muller, Keller. Dez minutos.

Mathias já estava de pé, resmungando algo ininteligível enquanto calçava as botas, os movimentos bruscos de quem odiava ser arrancado do sono sem aviso. Adrian escondeu o caderno debaixo do colchão, rápido, antes de se vestir.

O hangar recebeu os dois ainda meio zonzos de sono, o frio da madrugada mais cortante do que durante o dia. O comandante Hollis já esperava, verificando o próprio equipamento com a disciplina mecânica de sempre, a cicatriz na sobrancelha parecendo mais funda sob a luz amarelada e fraca daquela hora. Ao lado dele, Bruck ajustava um cinto de ferramentas, magro e silencioso como sempre, o tipo de homem que Adrian só tinha ouvido falar quando estritamente necessário.

- Vocês dois de novo - disse Hollis, um quase-sorriso cansado no canto da boca. - Sorte grande.

- Ou falta dela - murmurou Mathias, vestindo o traje sem pressa.

Adrian ficou quieto, os dedos automatizados nas próprias fivelas, a mente ainda dividida entre o sono interrompido e um peso difuso que não conseguia nomear.

Ficaram os quatro diante do Casulo, o metal frio brilhando fraco sob as lâmpadas a vapor. Hollis bateu duas vezes o punho fechado contra o próprio peito. A mão abriu-se, descendo.

- Âncoras - disse, a voz ecoando pelo hangar vazio. - Descendo!

As correntes começaram a se mover assim que as portas se fecharam.

- Podiam trocar as duplas de vez em quando - disse Mathias, sentado de frente para Adrian, a voz carregando um cansaço que não parecia só físico. - Cansei de olhar pra essa cara.

- Eu não reclamaria se trocasse - respondeu Adrian, tentando manter o tom leve.

Mathias o encarou por um instante mais longo do que a provocação exigia. Havia algo ali - Adrian percebeu, mesmo sem saber nomear - que não era só o mau humor de sempre. Um peso novo, mais fundo, atrás dos olhos dele.

- Vocês dois, de boa - cortou Hollis, sem se virar. - Foi registrado movimento pelo sonar de Nova Arcádia numa área de escombros e um barracão grande, setor sudoeste. Vamos verificar se tem algo vivo lá. Armas em mãos assim que chegarmos. Atenção total.

Ninguém disse mais nada pelo resto da descida.

Quando a porta se abriu, a névoa pareceu mais densa do que Adrian se lembrava de qualquer descida anterior - ou talvez fosse só o peso da missão, a palavra vivo ainda ecoando na cabeça dele, torcendo cada sombra em algo mais significativo do que costumava ser.

Será que existia mesmo alguma coisa ali?

Formaram um losango ao saírem - Hollis à frente, Adrian e Mathias nas pontas, Bruck fechando a retaguarda - os passos cautelosos sobre o solo irregular. Hollis ajustou o próprio cronômetro, o ponteiro marcando uma hora exata antes do retorno automático.

O barracão surgiu da névoa devagar, maior do que Adrian esperava - uma estrutura de metal retorcido que se erguia em três andares desiguais, várias aberturas escuras onde antes deviam existir portas e janelas.

Fizeram uma varredura ao redor primeiro, lanternas cortando a névoa em feixes estreitos, o silêncio pesando sobre os quatro.

- Keller, Muller, entram pelo lado leste - disse Hollis. - Bruck e eu pelo oeste. Reportem cada setor limpo.

O interior era ainda mais escuro do que Adrian esperava, o feixe da lanterna revelando corredores estreitos entre vigas caídas, salas menores se abrindo em todas as direções, uma escada de metal enferrujada subindo para o segundo andar.

- Setor leste, térreo, limpo - disse Mathias no rádio, a voz baixa.

- Confirmado - respondeu Hollis, do outro lado da estrutura.

Subiram devagar, testando cada degrau antes de confiar o próprio peso nele. No segundo andar, Adrian ouviu - ou achou que ouviu - um arrastar leve, vindo de algum lugar mais fundo na escuridão.

Parou.

- Ouviu isso? - perguntou, a voz baixa.

Mathias também tinha parado, a lanterna varrendo o espaço vazio à frente.

- Não - disse, depois de um instante. - Só o vento.

Adrian assentiu, sem realmente acreditar, e seguiram em frente. Mais adiante, foi Mathias quem travou de repente, a lanterna fixa numa sombra alta contra a parede - uma silhueta que por um segundo pareceu ter ombros, um formato quase humano.

Nenhum dos dois se moveu.

Depois a sombra revelou-se apenas o contorno de uma viga curvada, projetada pela própria luz deles contra o metal retorcido.

- Setor leste, segundo andar, limpo - disse Mathias no rádio, a voz um pouco menos firme do que antes.

Foi no terceiro andar que o vento começou a mudar.

Um som diferente, mais grave, começou a crescer do lado de fora - não o gemido fino que costumavam ouvir, mas algo mais largo, mais violento, acompanhado de um clarão distante que iluminou por um instante as frestas nas paredes do barracão.

- Isso não estava na previsão - disse a voz de Hollis pelo rádio, tensa.

O clarão veio de novo, mais perto, seguido quase imediatamente por um trovão que fez a estrutura inteira vibrar. Lá fora, a névoa tinha virado algo mais espesso, mais violento - areia e eletricidade misturadas num vendaval que Adrian nunca tinha visto nem ouvido falar antes.

- Ninguém sai - disse Hollis. - Essa estrutura é a única proteção que temos agora. Fiquem onde estão.

Foi nesse instante que o teto acima deles rachou.

- Corre! - gritou Mathias, empurrando Adrian pra trás um segundo antes de uma seção inteira do andar superior desabar entre eles e o resto do corredor, uma parede de metal e poeira separando-os do caminho de volta.

Quando a poeira assentou, Adrian tossiu, os ouvidos zunindo.

- Hollis? - chamou pelo rádio. - Comandante, escuta?

- Aqui - respondeu a voz de Hollis, abafada, distante. - Vocês dois estão bem? A gente ficou isolado desse lado também.

- Estamos bem. - Adrian olhou para Mathias, que assentiu, ainda ofegante. - Quanto tempo até o Casulo subir?

- Trinta e cinco minutos. - Uma pausa. - Fiquem onde estão. A gente tenta abrir passagem.

O rádio silenciou.

Mathias sentou-se contra uma viga caída, a respiração ainda pesada, os olhos fixos em algum ponto distante através do capacete.

- Por que você não contou pros outros sobre o revólver? - perguntou, de repente.

Adrian, ainda de pé, olhou para ele, surpreso pela pergunta.

- Achei melhor ficar em silêncio.

- Ficar em silêncio. - Mathias soltou uma risada curta, sem humor nenhum. - Interessante. Há dez anos você não ficou tão bom em ficar em silêncio.

Adrian sentiu o estômago apertar.

- Mathias... agora? Você quer falar sobre isso agora?

- Sim. - A voz dele saiu dura, definitiva. - Porque eu não aguento mais olhar pra sua cara sem pensar nisso.

- Eu não sabia o que estava fazendo. - Adrian deu um passo à frente, as mãos abertas. - Eu era criança, Mathias. Eu não entendia o que aquilo ia causar.

- Não importa se você entendia! - A voz dele subiu, ecoando entre as paredes de metal. - Importa o que aconteceu depois!

Silêncio, só o vento uivando lá fora, mais violento a cada minuto.

- Era o meu irmão... - disse Mathias, finalmente, a voz baixando, quase quebrando no meio da frase. - Mais novo. Minha mãe escondeu a gravidez, escondeu o nascimento, pra ele nunca ter Relógio nenhum. Pra ele nascer livre. - Engoliu em seco. - E você contou. Pros seus pais, pra alguém, sei lá pra quem, mas contou. E o Conselho soube.

Adrian sentiu o sangue gelar.

- Tiraram dez anos dos meus pais. Colocaram o Relógio no meu irmão assim mesmo, retroativo, como punição extra. - Os olhos de Mathias brilhavam, úmidos, furiosos. - Eles estão perto do exílio agora, Adrian. Os dois. Por sua causa.

- Mathias, eu sinto muito. - A voz de Adrian saiu quebrada. - Eu sinto muito mesmo, mas... vocês não deveriam ter tentado enganar o Conselho. Isso não devia—

Não terminou a frase.

Mathias avançou com tudo, os dois caindo juntos contra os destroços, punhos e cotovelos se debatendo no espaço apertado entre vigas retorcidas.

- Parem com isso! - a voz de Hollis explodiu no rádio, distorcida pela distância. - Muller! Keller! PAREM!

Nenhum dos dois ouviu.

O chão sob eles cedeu.

Caíram juntos, ainda presos um ao outro, através de um buraco que se abriu no piso já fragilizado, atravessando o segundo andar antes que os cabos presos à cintura de cada um travassem com um puxão brutal, suspendendo-os no ar, balançando lado a lado sobre o vazio escuro dois andares abaixo.

Ficaram ali, girando devagar nos próprios cabos, se encarando através dos capacetes.

- Sinto muito - disse Adrian, a voz fraca.

- Sentir muito não muda nada. - Mathias desviou o olhar, a raiva agora misturada com um cansaço enorme.

- Vocês vão ficar aí balançando feito duas crianças brigando, ou vão se ajudar a sobreviver? - A voz de Hollis, cortante, quebrou o silêncio entre os dois.

Adrian e Mathias se encararam de novo, mais longamente dessa vez.

Sem dizer mais nada, começaram a subir pelos próprios cabos, mão sobre mão, os músculos protestando contra o esforço. Quando Adrian alcançou a borda do buraco no piso, foi a mão de Mathias que apareceu primeiro, estendida, esperando.

Adrian segurou. Mathias puxou.

Ficaram os dois sentados na beirada, ofegantes, o vendaval ainda uivando lá fora, o clarão elétrico piscando através das frestas do metal.

Adrian olhou para o próprio cronômetro. Vinte e dois minutos.

Foi então que ouviram - os dois ao mesmo tempo - um som vindo de baixo. Não o vento. Não os escombros se ajustando.

Adrian e Mathias se entreolharam, o mesmo pensamento cruzando os dois rostos ao mesmo tempo.

- Hollis - disse Adrian no rádio, a voz baixa. - Vocês estão no andar de baixo?

Um silêncio breve antes da resposta.

- Negativo. Continuamos isolados do outro lado do prédio. Por quê?

Adrian não respondeu na hora. Ficou olhando para o buraco escuro no chão, de onde os dois tinham acabado de subir, onde o som continuava ecoando.

- Por nada - mentiu, a voz não muito convincente. - Câmbio.

Mathias já estava de pé, a arma na mão, os olhos fixos na escuridão abaixo deles.

Nenhum dos dois disse em voz alta a pergunta que os dois já estavam se fazendo.

Thoughts

  • Ovid

    Obrigado por compartilhar mais um capítulo! Fiquei pensando no Relógio colocado no irmão de forma retroativa, como castigo extra. Isso diz mais sobre o Conselho do que qualquer cena de ação, e aposto que é por aí que a história vai, mais do que pelo barulho do andar de baixo. Vou seguir essas descidas :)

    Permalink
  • fsantos1307

    Fiquei com o Bruck, magro e calado a fechar a fila, e aposto que é ele que vai ouvir o barulho de baixo antes de toda a gente.

    Permalink

Related posts