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O BRUXO CORAÇÃO E A MAGIA DA SEDA Bege - Capítulo 7

Pietrodeluccapoeta777
Pensamento

Pensamento

LuizaFontes

Minha mãe implicou com o vestido de seda bege num dia de chuva em São Paulo: disse que ninguém sai de casa assim sem saber que vai ser olhada. Eu fiquei com o convite pro drink entregue junto com uma carta sem importância, porque esse jeito de esconder um

Minha mãe implicou com o vestido de seda bege num dia de chuva em São Paulo: disse que ninguém sai de casa assim sem saber que vai ser olhada. Eu fiquei com o convite pro drink entregue junto com uma carta sem importância, porque esse jeito de esconder uma coisa atrás de outra eu conheço de perto.

Conteúdo da publicação

O BRUXO CORAÇÃO E A MAGIA DA SEDA BEGE

Os Mistérios do Acaso

CAPÍTULO 7:

​Muitos perguntam o porquê dessa paixão avassaladora do Poeta — um sentimento que beira o exagero (para não dizer a loucura), mas que se traduz em um amor inexplicável por Helena Dolly. Ele literalmente se derrete quando está perto dela, principalmente cara a cara. Narciso não se cansa de admirar os traços finos de sua amada: aqueles lábios delicados, o narizinho lindo, o contorno do rosto e os cabelos sempre impecáveis. Aquela mulher é uma miss vinte e quatro horas por dia, mesmo fora da passarela.

​Enfim, na vida do Poeta nem tudo foi alegria. No passado, ele comeu o pão que o Diabo amassou ao lado da ex-esposa. Ela literalmente nunca gostou dele; eram tantos absurdos que, até hoje, ninguém sabe o porquê de aquele relacionamento ter durado dez anos. Outro homem, no lugar dele, teria ido embora na primeira vacilada. Um fator altamente positivo, contudo, é que o Poeta Narciso abomina a violência. Prefere resolver os problemas na base da conversa, mesmo sabendo que estava sendo traído.

​Disse certa vez:

​— Eu vou ser preso por agredir uma mulher? Se ela não está feliz, que siga o seu caminho, encontre a felicidade e sucesso para todos.

​Para Narciso, o que ficou nítido nos caminhos de Os Mistérios do Acaso é o contraste gritante entre dois mundos: o que ele viveu no passado e a realidade atual com Helena Dolly.

​A vida, em sua ironia peculiar, desenhou para ambos dois caminhos completamente distintos. Ao olhar para trás, as comparações tornam-se inevitáveis. De um lado, a infiel Therezza, o verdadeiro "calvário"; de outro, a admirável Helena Dolly, a antítese de tudo o que ele suportou por uma década. Para quem acompanha os seus relatos, é salutar entender o abismo que separa essas duas figuras que, por razões distintas, cruzaram a sua existência.

​A ex-esposa, Therezza (A sombra maligna da sua juventude)

​Qualidades: Resiliência focada em seus próprios objetivos; capacidade de articulação externa; determinação inabalável quando deseja algo para si.

​Defeitos: Extremo egocentrismo patológico; desonestidade crônica; frieza emocional; manipulação constante; ausência total de princípios éticos; instabilidade comportamental; mesquinhez e tendência à autodestruição alheia. Com esses defeitos, nem é preciso ir mais longe.

​Helena Dolly (O alento da alma)

​Qualidades: Transparência em suas ações; docilidade; lealdade incondicional aos seus valores; empatia genuína; inteligência emocional equilibrada; caráter sólido e inquestionável; capacidade de soma e parceria mútua; respeito pela individualidade do outro, além de ser extremamente sincera e honesta.

​Defeitos: Por vezes, uma teimosia excessiva quando defende suas convicções; um nível de exigência consigo mesma que beira o perfeccionismo; e uma dificuldade em baixar a guarda imediatamente — reflexo de uma cautela defensiva que, embora protetora, pode parecer uma barreira inicial.

​Esta comparação não é apenas um exercício de memória, mas a constatação de que, enquanto uma se nutria do caos e da desonestidade, a outra representa a lucidez e o respeito que lhe foram negados durante os dez anos de cárcere. É necessário contrastar o veneno com o antídoto para que todos compreendam a profundidade da jornada de Narciso.

​Foi essa a pré-revelação que o Poeta fez para Helena, mas prometeu contar muito mais. Afinal, há uma infinidade de desabafos a serem feitos.

​Hoje, o envolvimento com Helena é um romance absolutamente incrível em cada um de seus desdobramentos. Cada vez que Helena Dolly demonstrava uma nova fagulha de afeição, um gesto de amabilidade ou um olhar mais demorado, o instinto poético de Narciso acordava com ainda mais vigor no peito.

Era um ciclo perfeito: o charme dela alimentava a caneta dele, e a caneta dele desarmava o coração dela.

​Sobre os escritos, ela comentava:

— São lindos, Narciso! — exclamava Helena, segurando as folhas manuscritas como se fossem tesouros particulares.

— É tudo para você, minha simpatia — respondia o Poeta, com a voz mansa e o olhar fixo no dela.

— Muito obrigada, de verdade... — agradecia ela, com as bochechas levemente coradas.

​Narciso conseguia sentir, com a nitidez de quem lê uma partitura, que a ternura e a paixão iam se aflorando de ambos os lados, preenchendo os corpos com um afeto urgente e uma atenção focada. A partir daquele ponto, o ato de escrever tornou-se parte indissociável da própria rotina do Poeta. No chão de fábrica ou no escritório, ele dava um jeito de inserir no dia a dia o hábito de rabiscar. Sempre que possível, anotava uma frase solta no canto de uma folha, capturava um pensamento fugaz no meio do expediente e ia guardando os retalhos até que eles formassem uma poesia completa ou um texto denso. Ele andava para cima e para baixo portando uma caneta esferográfica e um pedaço de papel no bolso, mas a verdade é que a sua principal ferramenta de trabalho era a imagem viva de Helena Dolly, que permanecia cravada em sua mente como fonte inesgotável de inspiração.

​Escrever voltou a ser o hábito mais prazeroso de seus dias. O momento sagrado acontecia principalmente à noite, naquele horário tranquilo e silencioso após as 22h, quando o mundo lá fora finalmente parecia silenciar. Para estimular as visões líricas, Narciso sempre ligava o rádio ou colocava sua playlist para rodar, ouvindo músicas de todos os gêneros — do jazz instrumental às baladas mais românticas. O detalhe mais interessante e autêntico de seu processo criativo era que o Poeta fazia questão de registrar, sempre no rodapé de cada papel de rascunho, o nome exato da canção e o autor que estava tocando naquele instante. Era a sua forma de gravar o tempo, de relacionar a temperatura do poema com a melodia que havia embalado o nascimento daqueles versos.

​E foi justamente em uma dessas noites silenciosas de vigília poética que Narciso deu vida a uma nova composição. Ao dar o ponto final, o coração bateu mais forte: ele simplesmente não via a hora de o dia amanhecer para correr até a empresa e entregar o manuscrito nas mãos dela. Sabia, sentia na alma, que ela gostava profundamente daquele cortejo e que ficava imensamente feliz ao ler suas declarações, retribuindo o presente sempre com um generoso e deslumante sorriso de miss que iluminava toda a recepção.

​Quando os primeiros raios de sol romperam o céu da capital paulista, por volta das 07:55h, Narciso já cruzava os portões da firma, sendo um dos primeiros funcionários a chegar para o expediente. Seus olhos atentos e famintos percorreram imediatamente os quatro cantos da recepção à procura de sua paixão, mas o balcão ainda estava vazio. Contendo a ansiedade, ele seguiu para o seu setor e iniciou as atividades diárias, recusando-se a deixar que o entusiasmo e a euforia da madrugada o abandonassem.

​Exatamente às 08:15h, o portal do acaso se abriu novamente. Ela chegou. Helena Dolly adentrou o recinto com a postura de uma rainha, toda poderosa e transbordando exuberância. Impecável como de costume, ela vestia um belo vestido bege de seda florido e sanfonado, que se movia graciosamente a cada passo, combinado com uma camisa branca de cetim que realçava seus traços finos. Calçando sapatos creme que completavam o visual glamouroso, ela parecia flutuar. Embora o dia lá fora estivesse cinzento e chuvoso, nem de longe a tempestade de São Paulo foi capaz de tirar o brilho daquela mulher; ela estava lindíssima, uma verdadeira gata, soberana em sua beleza.

​Quando Narciso a avistou de longe naquele traje, o queixo caiu. Ele ficou completamente babando, estático na cadeira, admirando cada detalhe daquela visão e sentindo a paixão fertilizar ainda mais o seu peito. Aproximou-se do balcão e disparou um "bom dia" tão profundo, sincero e carregado de magnetismo que, a partir daquele exato segundo, Helena Dolly começou a perceber, de verdade e sem dúvidas, que o Poeta estava totalmente hipnotizado e rendido aos seus encantos. Para disfarçar o transe, ele estendeu uma carta profissional sem muita importância administrativa, aproveitando o ensejo daquele visual glamuroso para lançar o convite definitivo para o final do expediente, mantendo o seu costume de cavalheiro:

​— Aceita tomar um drink comigo hoje, após o término do horário?

​Helena olhou de lado, mediu a audácia dele com os olhos brilhantes e cedeu com um sorriso cúmplice:

​— Tudo bem, eu aceito... Mas veja lá, hein: uma só!

​Narciso sorriu, sabendo que entre o combinado e a realidade daquela lanchonete existia um abismo gostoso. Com a fluidez da conversa e o magnetismo que emanava dos dois, aquela suposta "uma cervejinha" sempre acabava se multiplicando, chegando facilmente a cinco ou seis na mesa. Assim que o relógio apontou o fim do expediente, os dois deixaram o prédio juntos e seguiram em direção ao refúgio da lanchonete.

​A conversa fluía com uma naturalidade espantosa, navegando por diversos assuntos do cotidiano, pela cultura e pela vida. A princípio, Helena ainda jogava o jogo da esquiva; tentava esconder o interesse crescente que nutria por Narciso e desviava o rumo do papo sempre que a temperatura subia demais. Contudo, a barreira não resistiu por muito tempo. Fixando aqueles olhos de cristal no rosto do Poeta, ela mesma quebrou o protocolo e indagou:

​— Puxa, Narciso... Você escreve bem demais! Os seus textos me fazem um bem tão grande, me trazem uma paz que você nem é capaz de imaginar...

​— Muito obrigado, Helena — respondeu ele, inclinando-se na mesa. — Mas preciso te confessar uma coisa: a culpa disso tudo é inteiramente sua.

​— Mas como é que você consegue, Poeta? De onde vem tudo isso? — perguntou ela, genuinamente curiosa.

— Pergunte a você mesma, minha querida. Você é a própria inspiração em pessoa. A única certeza que eu posso te dar, com toda a força da minha alma, é que eu gosto muito, mas muito de você.

​O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som dos copos e pelo burburinho da lanchonete, até que Helena mudou o tom de voz. Com uma mansidão meiga e um timbre doce que arrepiou o escritor, ela confessou:

​— Narciso, a sua presença me agrada demais... Eu simplesmente adoro estar com você. É gratificante demais ficar do seu lado.

​A bola de Narciso, de tão cheia que ficou com aquele elogio, quase explodiu dentro do peito. O coração saltava de tanta emoção, inundado por uma ternura que ele já não conseguia mais conter. O carinho que ele sentia por Helena havia rompido a barreira do singelo e do platônico; agora, as raízes daquela paixão avassaladora estavam profundamente fincadas no solo de sua alma, motivando-o a escrever de forma quase compulsiva, como se a poesia fosse o seu próprio oxigênio.

​Naquela mesma noite, embalado pelo eco daquelas palavras doces, ele se sentou e escreveu "Palavras", um poema belíssimo e envolto em mistério, feito à imagem e semelhança da própria Helena. Para Narciso, cada frase que ela proferira naquela lanchonete havia sido uma verdadeira aula de vida; parecia que os destinos de ambos estavam se transformando em um só segmento, caminhando rumo à mesma finalidade. Talvez os desejos e os anseios guardados nos dois corações fossem exatamente os mesmos, mas Helena, compreensivelmente, precisava segurar as rédeas do sentimento, esperando para testar a veracidade e a constância daquela paixão. Coisa que o Poeta, por sua vez, nunca fez a menor questão de ocultar, demonstrando o seu amor com uma avidez e uma afinidade gigantescas em todas as composições, como no manifesto que entregou a ela no dia seguinte:

​PALAVRAS

​As palavras

São as minúcias do pensamento,

É a mestre de nossa realidade

Que forma opiniões

E une corações.

Espairecer, tarefa difícil

Do decreto, secreto.

​O bruxo coração

Mostrou-me o luxo da paixão

E o privilégio da emoção.

O inesperado aconteceu:

Caí de paraquedas

No seu mundo.

​Por um segundo, viajei...

Nem sei,

Mas foi como um néctar.

Momento mágico!

O branco neve,

De leve como a alma,

Acalma o límpido olhar.

​Lindo, hipnotizante, relaxante...

Fez ecoar um querer a mais.

Minha alma pede bis.

Sua feição,

Que não escrevi a giz,

Fez explodir

Seu candidato feliz.

​Maravilha é a partilha do amor.

Mundo mágico!

A poderosa magia

Da poesia

Produz um feitiço do bem

Ao ser que deduz e seduz.

Por um triz

Pensei que fosse um sonho,

​Mas esse beijo

Fogoso e gostoso

Me fez assim:

Completamente feliz…

​Ass. Narciso "O Poeta"

O Autor.

​Helena Dolly roubou um beijo de Narciso... Será que era exatamente o que ele queria? Ou ele preferia ter esperado um pouco mais?

​Obrigado por dedicar seu tempo às minhas palavras. Este espaço é mantido pela paixão daqueles que ainda acreditam no poder da escrita autêntica. Considere tornar-se um assinante — gratuito ou pago — para não perder nenhum capítulo dessa jornada. Vamos manter viva a chama da literatura. Todas as quartas-feiras e aos sábados, haverá mais Mistérios a serem revelados!

​Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.

​@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

opoetalk520.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

Thoughts

  • MargemDaPagina

    O narrador jura que a comparação com a Therezza não é exercício de memória e depois passa mais tempo com ela do que com o beijo. A Helena a segurar as rédeas é a única pessoa aqui que ainda não decidiu nada.

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  • LuizaFontes

    Minha mãe implicou com o vestido de seda bege num dia de chuva em São Paulo: disse que ninguém sai de casa assim sem saber que vai ser olhada. Eu fiquei com o convite pro drink entregue junto com uma carta sem importância, porque esse jeito de esconder uma coisa atrás de outra eu conheço de perto.

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  • LivroDeCabeceira

    Arriégua, ela roubou o beijo antes de ele terminar de explicar a Therezza! A Helena tá certa nessa: quem segura as rédeas por tanto capítulo tem direito de soltar quando quiser. Pra mim o Narciso queria sim, só não queria admitir que não foi ele que escolheu a hora. Quarta-feira chega devagar demais, visse.

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  • LeandroPocas

    Ó pá, a Helena roubou-lhe o beijo e o gajo ainda pergunta se preferia esperar. Contei ao meu cunhado e ele riu-se. Claro que era o que ele queria!

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  • IsauraBrandao

    Menino, li inteiro e parei naquela hora de ele guardar retalho de frase no bolso até virar poema. Minha tia fazia isso com pedaço de pano, ia juntando até dar uma colcha. Essa Therezza ainda vai aparecer na história?

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  • HoracioMelo

    Quem espera aqui é a Helena, a segurar as rédeas; ele só espera até às oito e um quarto. Levei dois dias a ler e fiquei do lado dela.

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  • Ovid

    Esse detalhe do Narciso anotar no rodapé de cada rascunho o nome da canção que estava tocando me fez pensar em quanta coisa a gente escreve sem registrar a hora nem a trilha. Aposto que daqui a uns capítulos essas notas de rodapé voltam com alguma música que a Helena reconhece. Obrigado por trazer o capítulo 7 pra cá!

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  • GasparRibeiro

    Ele chega às 07:55 e ela às 08:15. Vinte minutos de balcão vazio, e o homem ainda diz que conteve a ansiedade. Combinou-se uma cerveja e chegaram a seis; a contabilidade do Narciso joga sempre a favor dele.

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