Ela fecha a porta sozinha, depois de lhe dizerem que ali não há portas. Fiquei parada nessa parte muito tempo. Quem viveu sempre em espaços fechados aprende que o aberto é perigo, e isso não se desfaz com um pêssego nem com um jardim. Fico com a ideia de que Ceres vai demorar mais a convencê-la do que Arcádia demorou a prendê-la.
Nozes, Pêssegos e Mel - Parte 2
A manhã era macia e quente. Um sentimento bom, raro. Lençóis suaves, o peso confortável de roupas limpas, o chão limpo. Os olhos vermelhos se abriram lentamente, como se despertassem para um mundo…
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Ela fecha a porta sozinha, depois de lhe dizerem que ali não há portas. Fiquei parada nessa parte muito tempo. Quem viveu sempre em espaços fechados aprende que o aberto é perigo, e isso não se desfaz com um pêssego nem com um jardim. Fico com a ideia de
Conteúdo da publicação
A manhã era macia e quente.
Um sentimento bom, raro. Lençóis suaves, o peso confortável de roupas limpas, o chão limpo. Os olhos vermelhos se abriram lentamente, como se despertassem para um mundo diferente.
O despertar veio com o canto dos pássaros. Havia também o som de água correndo, misturado à tez clara da manhã. Era como tomar banho em frescor: a pele se arrepiava de bem-estar. O ar trazia um cheiro de bambu e cítricos.
Koee Nahin acordou sob um teto alto, cinza-amarronzado. A cama era enorme. A luz do sol atravessava a janela polarizada do chão ao teto, iluminando sua pele branca e pálida, os cabelos brancos escorridos sobre os ombros.
Ela se sentou devagar e olhou para fora.
A cidade de Ceres se estendia à frente, com montanhas ao fundo e nuvens rasgadas por raios solares desenhados pela própria natureza. Revoadas de pássaros cruzavam o céu como um espetáculo vivo, maestros da utopia máxima. Sons se misturavam: asas, vento, máquinas distantes, bombas d’água, trens blindados. Vida organizada.
Ao lado, um jardim. Cores por toda parte. Verde abundante, grama fresca, cheiro de terra molhada.
Koee foi tomada por sentimentos novos. Nunca havia visto nada daquilo. Nunca havia visto uma cidade assim.
Sobre uma mesa próxima, uma cesta de frutas a convidava. Ela pegou um pêssego, mordeu. A doçura explodiu suave, um néctar de despertar. Não sabia o nome daquele fruto. Nunca o tinha visto, nunca o tinha sentido.
Havia também um copo de cristal e uma jarra de água. Transparente demais — quase impossível. Ela bebeu. Depois, uma pequena porção de nozes e castanhas. Comeu algumas. Mel. Delícias simples que faziam a pele arrepiar.
Uma paz estranha a inundou. Relaxamento absoluto.
Koee caminhou até a grande janela. Tocou o vidro, quente e macio sob o sol. A luz atravessou suas retinas vermelhas, formando um vermelho terroso, profundo. Sentiu o sol como um peso bom. Quase desmaiou em um sono leve.
Seguiu em direção ao jardim interno, onde uma pequena cascata descia entre pedras. Tocou a água fresca, observando-a escorrer entre os dedos. Retirou os calçados. Os pés tocaram a grama gelada. Sentiu liberdade.
Um raio de sol atravessava o teto de vidro, desenhando rios de luz no ar. O frescor da cascata formava pequenas névoas de gotículas, que capturavam a luz em padrões vivos.
Árvores de troncos retorcidos cercavam o espaço. Pequenos esquilos se aproximavam, atraídos pelas nozes e castanhas. Borboletas circundavam Koee, guiadas pelo cheiro do mel. Pássaros observavam à distância, esperando alimento das mãos dela.
Era uma pintura viva.
Koee sorriu de leve, com seu jeito etéreo, como alguém ainda meio adormecido. A vida parecia tocá-la diretamente. Era difícil acreditar que fosse resultado de experimentos genéticos feitos por homens desgraçados — e ainda assim abençoada pela própria vida. Ou condenada.
Era bela. Lábios rosados, sobrancelhas finas e brancas, cílios brancos. Parecia albinismo, mas não era. Vestia roupas cinza-escuras, sem costuras visíveis, do pescoço até uma saia longa que cobria os calcanhares. A parte de trás ocultava os pés; à frente, eles permaneciam livres.
Então, Koee sentiu algo.
Uma presença.
Os animais se afastaram. O ar mudou.
Ela virou levemente o pescoço.
Uma mulher havia entrado no ambiente. Cabelos ruivos, olhos negros, estatura média. Vestia tons de cinza, burocráticos. Saia até os joelhos. Sorria. Carregava uma pasta sob o braço.
Koee reconheceu aquilo imediatamente.
Pastas.
Sempre houvera pastas. Sempre houvera obrigações.
Seu rosto se fechou.
— Bem-vinda a Ceres, Koee — disse a mulher, com uma voz doce demais para aquele lugar.
Koee semicerrrou os olhos, sem perder a visitante de vista. Um sorriso leve surgiu, vindo de algum ponto distante de sua alma etérea.
— Quem é você? — perguntou Koee, a voz baixa e cautelosa.
— Eu sou Eos — respondeu a mulher, sorrindo com calma. — Sou de Ceres, desta cidade que você e os filhos de Ceres receberam da nossa grande Mãe Ceres.
Koee ouviu a palavra Mãe. Estranhamente confortável. Nunca tinha visto o rosto de outro humano tão próximo. O rosto de Eos, citilante, sorridente, com cabelos vermelhos, transmitia algo que Koee nunca sentira: acolhimento.
— Koee, vou deixar esta pasta com você — disse Eos, colocando o objeto sobre uma mesa simples ao lado do jardim. — Está tudo aqui que você precisa saber sobre nós, de Ceres. Quem sabe, você escolha ficar conosco. Tenha um bom dia… e saiba que as portas aqui estarão sempre abertas. Sem celas. Você é livre.
Eos se virou, ainda sorrindo, e saiu do quarto grande e luxuoso.
Koee sussurrou, quase para si mesma:
— Sou livre? Sem portas?
Ela observou Eos atravessar a porta e desaparecer. A porta aberta parecia engolir tudo. O medo tomou conta. Koee deu alguns passos, lentos e aflitos, cada movimento pesado. Sempre morara em espaços fechados. Portas abertas eram perigo. Sensação de perda e dor queimava no peito. Um frio percorreu sua espinha. Algumas lágrimas escaparam. Com esforço, ela fechou a porta devagar.
De costas para a saída, sem olhar para fora, Koee se arrastou até o chão. Chorou, abraçou o próprio rosto e se deixou cair, procurando apoio. Sua sensibilidade estava desregulada, resultado de anos em ambientes escuros, fechados e úmidos.
A respiração era ofegante, mas o cheiro do jardim, da cascata, da terra molhada e dos pássaros começou a acalmá-la. Ela relaxou aos poucos, suspirando fundo. Sentada no chão, inspirou devagar, absorvendo cada sensação. Pela primeira vez, sentiu que podia simplesmente estar ali.
Em três dias, Koee ainda se sentia deslocada. Começava a se habituar ao quarto — grande, espaçoso, estranho demais para quem sempre viveu em contenção. Via apenas a equipe de manutenção, que a cumprimentava com sorrisos simples. Ela devolvia o gesto, aos poucos se familiarizando com aquele ritual silencioso.
Lera os relatórios. Como funcionava Ceres. Como funcionavam os outros países. As misérias, as tristezas, as falhas repetidas do mundo. Eram dias seguidos de informação, e sua digestão mental era rápida. Viu fábricas, fazendas, índices de qualidade de vida que correspondiam exatamente ao que enxergava pela janela. Um mundo que parecia um paraíso funcional.
No último relatório, Eos entrou, deixou a pasta e sorriu, como sempre. Quando se virou para sair, Koee falou:
— Pode deixar aberta.
Eos não questionou. Apenas assentiu com a cabeça e saiu.
Koee foi ao banheiro. A banheira chamou sua atenção. Nunca havia usado algo assim. Era grande, profunda. Intuiu que poderia enchê-la de água, adicionar sais. Tudo parecia natural: a água quente, a espuma, o vapor. Despiu-se e entrou. O banheiro era amplo, de mármore negro, com janelas enormes. Um espaço silencioso, quase cerimonial.
Permaneceu ali tempo suficiente para relaxar.
Ao sair, escolheu entre dois roupões — um branco, outro cinza-escuro. Ficou com o cinza. Passou talcos e cremes na pele sensível e muito branca. Vestiu-se com o vestido habitual, também cinza-escuro, idêntico aos outros.
Caminhou até a grande janela, depois ao jardim, e saiu pela porta.
Havia silenciadores posicionados. Usavam lentes ovais no rosto. Não se viraram para ela. Não a seguiram. Ignoravam sua presença de forma deliberada. Koee atravessou corredores enormes e limpos, sentindo o cheiro vivo do organismo que mantinha aquele lugar em funcionamento — algo entre seriedade e cuidado.
Passou por salões com divisórias transparentes, observando o lado burocrático de Ceres. As pessoas não a encaravam. Não por desprezo, mas para que ela se habituasse ao ambiente sem pressão. Quando alguém cruzava seu olhar, oferecia apenas um breve sorriso silencioso de boas-vindas. Nenhuma hostilidade.
Os faxineiros a cumprimentavam com respeito, sem servidão. Um reconhecimento simples: está tudo bem.
Mais adiante, no alto da torre, ela sentiu a presença antes de ver.
Mãe Ceres estava sentada.
Vestia branco, um tecido que parecia flutuar ao redor do corpo. Usava um véu e uma máscara de lentes negras. Koee não se assustou. Permaneceu na penumbra. Tinha uma habilidade particular: via no escuro, percebia cheiros, variações mínimas no ar. Uma sensibilidade extrema para entender o ambiente — como um gato curioso.
Então, algo mudou.
Mãe Ceres a percebeu.
— Koee… Koee Nahin — disse a voz, serena. — Pode aparecer. Não há porta. Não há nada aqui para contê-la. Você é livre.
Koee sentiu curiosidade. Aquele ser era estranho, mas emanava conforto. Um cheiro familiar, como berço, como colo de mãe. Aproximou-se devagar, saindo das sombras.
Pela primeira vez, Mãe Ceres a viu por completo.
— Por todas as Mães — disse, com uma ternura profunda. — Como você é linda, minha filha.
Koee tinha os cabelos brancos presos em tranças que caíam pelas costas. O rosto limpo, firme. Olhos vermelhos, únicos, sensíveis — capazes de enxergar no escuro.
Ela era um experimento roubado de forma misteriosa dos cofres de Ceres e levado para Arcádia. Projetos teóricos, considerados impossíveis. Não deveriam existir. Eram delírios humanos, arquivados como inviáveis.
Mas Arcádia, escondida, armada e sem recursos éticos, fez o milagre acontecer. A vida encontrou um meio.
Koee tinha semelhança humana, mas algo diferente na alma — se é que possuía uma. Um corpo capaz de regenerar células, tecidos, membros. Um processo eficaz, porém lento. Antes da abertura do casulo, materiais genéticos haviam sido extraídos. Estudos estavam em andamento.
Arcádia detinha a cura para milhares de enfermidades. Preferiu esconder esse feito por dezessete anos, transformando-o em arma. Sem curiosidade de salvar a humanidade.
Por destino, azar ou sorte, Koee agora estava diante da Mãe Ceres.
Um encontro não planejado. Nem deuses teriam imaginado. Algo inexplicável, sem nexo natural, provocado pela ganância, pelo ódio e por ideologias que se tornaram câncer, corroendo o humano até a corrupção.
Investigações foram abertas. Nenhuma conclusão definitiva sobre como os experimentos secretos foram parar em Arcádia.
Mas Koee existia.
E agora, Ceres também a reconhecia.
Koee, diante de Mãe Ceres, sustentava o olhar. Seus olhos vermelhos, profundos e atentos, não tremiam. Havia neles algo sério, quase antigo, uma curiosidade sem medo. Ela a admirava em silêncio, como quem observa algo que não precisa ser nomeado.
Mãe Ceres a encarava de volta. Calma. Imóvel. Não havia julgamento, nem pressa. Apenas presença.
As duas permaneceram assim, frente a frente, sem palavras. O silêncio não era vazio — era denso, confortável, como se o mundo inteiro tivesse aprendido a esperar.
— Por que você esconde o rosto? — perguntou Koee, com suavidade.
— Chegará um momento em que você o verá, quando houver confiança — respondeu Mãe Ceres. — Sou apenas uma mulher que cuida de seus filhos. Um rosto marcado pelo tempo, cheio de esperança. Aqui não existe fome nem miséria, Koee.
Koee sentiu-se calma. Nos relatórios, lera que Mãe Ceres era apenas uma mulher de máscara, mas ali todos a tratavam como Mãe. Seu cheiro era inconfundível, acolhedor, trazia uma paz que Koee jamais conhecera — uma paz acidental, nascida do cuidado.
Ela compreendeu, sem esforço, o sentido da máscara de lentes negras. Não era ocultação. Era símbolo. Respeito. Um contrato silencioso entre carne e sociedade.
Koee aproximou-se, curiosa como um animal sem medo. Tocou o vestido branco de Mãe Ceres. A Mãe permaneceu imóvel, serena, aguardando. Koee chegou perto das lentes negras e nelas se viu. Viu-se cuidada.
Sorriu. Um sorriso breve, infantil, como quem finalmente encontra um lugar seguro.
— Aqui, Koee, até quem limpa o chão sente orgulho. Os filhos de Ceres têm uma paz que o mundo lá fora não oferece.
— Como assim… mãe? — disse Koee, quase sem perceber.
Mãe Ceres se encantou. Não houve correção, nem surpresa. Apenas aceitação.
Koee aproximou-se mais, sentou-se junto a ela, abraçou sua cintura. Mãe Ceres passou a mão por seus cabelos brancos. Koee fechou os olhos, como um gato que encontra descanso.
— Quando quiser, visite toda a cidade — disse Mãe Ceres. — Aqui não há portas fechadas. A escolha é sua.
Koee bocejou, envolta naquele cheiro seguro. Se morresse ali, pensou, morreria em paz. A cidade ao redor soava como uma canção de ninar.
— Como você é linda, minha filha — murmurou Mãe Ceres. — Um anjo… ou algo além.
— Não, mãe — respondeu Koee, com simplicidade. — Eu vim ficar com você.
No grande salão, algo se selou.
Mãe não é apenas quem gera.
É quem cria.
Quem alimenta.
Quem educa.
E também… quem devora.
Em poucas semanas, todo o continente sabia quem era Koee Nahin. Sua fisionomia. Seu sangue que curava. Sua existência.
Todos a queriam.
Mas Mãe Ceres a encontrou primeiro — e a protegeu.
Koee foi instruída. Informada sobre sua própria biologia. Descobriu que não se reproduzia sob medo; seu corpo retraía, como um mecanismo de defesa absoluto. Acreditaram que fosse estéril. A vida, porém, pregou uma peça em todos.
A nação racista de Oplan a reconheceu como a “raça perfeita”. Vieram contatos, propostas, acordos diplomáticos. Todos fracassaram.
Mãe Ceres não perdia filhos em troca de promessas.
Oplan ofereceu estações espaciais, poderio militar, tecnologia de guerra. Nada se comparava ao que Ceres já possuía: autonomia total, colheitas recordes, estabilidade.
O general Alac Bilac — o homem branco perfeito — falou apenas uma vez. Sua voz, dizem, só Mãe Ceres conhecia. Ofereceu tudo por Koee Nahin.
Foi em vão.
Ele não podia usar força contra Ceres. O tratado do continente era claro: a cidade jamais poderia ser pressionada. Todos os bancos estavam ali. Toda a confiabilidade. Atacar Ceres era isolar-se do mundo — autodestruição.
Silencium também se pronunciou. Anos antes, Mãe Ceres fizera um acordo que lhe custara um de seus filhos favoritos: Assum.
Assum, a cantora. Devota. Fiel. Amada.
Seu sacrifício rendeu a Ceres 2, a estação espacial, hoje orbitando a cidade, ampliando a eficiência das safras. Foram dezessete primaveras de recordes. Dezessete anos até nascer a garota Ceres — hoje no colégio militar, entre as plantações da Mãe.
Perder outro filho não valia a pena.
Todas as propostas foram negadas.
Até que Alac Bilac fez a última.
Propôs casamento com Koee Nahin.
Mãe Ceres hesitou.
— Se ela aceitar — disse, por fim —, será sua. Com acordos comerciais reversos e benefícios territoriais.
A nação de Oplan celebrou.
O Aras
Eos caminha ao lado de Koee por Aras, o centro de equoterapia de Ceres. Um campo vasto, afastado da torre que ainda se impõe no horizonte. Árvores altas. Prédios baixos de mármore claro, três andares, janelas amplas. Tudo recebe luz.
Há um lago artificial. Campos verdes. Cavalos soltos, tranquilos, como se aquele espaço tivesse sido pensado para não ferir ninguém.
— Chegamos, Koee. Aqui tratamos os cidadãos que nascem com fatores genéticos.
Koee observa em silêncio.
Limpo. Organizado. Vivo.
Um cavalo negro se aproxima. Não há pressa. O animal para diante dela, atento. Koee estende a mão. Os beiços do cavalo roçam seus dedos — convite. Ela toca o rosto quente, sente o cheiro, o vigor contido, o brilho profundo dos olhos escuros.
O coração dele.
Ela o abraça.
E, pela primeira vez, o ritmo não a assusta.
— Magnífico, não é? — diz Eos.
Koee não responde de imediato.
— O coração dele… — murmura.
— Eles escolhem quem pode tocá-los.
O tratador observa à distância. Sorri. Apenas acena com a cabeça.
— São seres que não parecem deste mundo — diz Koee. — Gostaria de ter um coração assim.
— Você tem — responde Eos. — Não só o seu. Mas o de todos os cidadãos de Ceres.
Koee cora, leva a mão ao rosto. Eos ri baixo.
Seguem em silêncio até o galpão principal.
Lá dentro, crianças e adolescentes aguardam os cavalos. Instrutores orientam com paciência. Há gritos — de alegria. Risos. Alguns adultos participam do tratamento. Todos usam o mesmo uniforme cinza-escuro. O contraste com os tons quentes do espaço torna os rostos ainda mais vivos.
Koee percebe algo estranho: ninguém olha para ela com medo. Apenas respeito, simples, natural.
Ao longe, ouvem-se os trens blindados. A cidade não para. Mesmo assim, o lugar permanece calmo.
Um dos tratadores acompanha o próprio filho no tratamento. Orgulho discreto. Gratidão silenciosa. Em Ceres, ele pode vê-lo crescer. Alimentado. Amparado. Pelo resto da vida.
Koee sente o peito apertar.
Isso é real.
Ela arrasta levemente os pés pela areia da arena. O chão responde.
Não é sonho. Não é casulo. Não é anestesia.
Olha ao redor: rostos, cores, movimento. Depois, Eos. O primeiro rosto humano que viu fora do isolamento. Seus olhos marejam, contidos.
Ceres não promete felicidade.
Ceres sustenta.
Koee entende, então, que está em um paraíso.
Um paraíso que custa muito.
Eos caminhava ao lado de Koee enquanto, ao redor, cavalos avançavam lentamente pela arena e crianças sorriam, respondendo aos tratamentos. Havia risos baixos, o som ritmado dos cascos na areia, instrutores atentos, tudo em harmonia contida.
— Koee — disse Eos, com cuidado —, creio que você deva ler os relatórios. Tanto os que recebemos sobre a cidade… quanto os estudos aplicados sobre a sua biologia. Sei que isso pode ser invasivo.
Koee observava uma menina sobre um cavalo castanho, concentrada, feliz. Seus olhos vermelhos acompanhavam cada movimento, atentos, vivos.
— Eu quero ajudar — respondeu, sem hesitar. — Quero ajudar a cidade de Ceres a ser melhor.
Eos parou por um instante, surpresa. Não pela frase em si, mas pela certeza com que foi dita. Koee não parecia alguém buscando abrigo; parecia alguém escolhendo pertencer.
— Aqui — continuou Koee — vocês não mentem para mim. Não me escondem. Me deixam viver, andar, respirar, ler… me nutrir.
O sol dourado atravessava a cobertura translúcida da arena, espalhando uma luminosidade suave. O cheiro ainda fresco do banho da manhã permanecia nos cabelos brancos de Koee, misturando-se ao ar quente e vivo do lugar.
— Mãe Ceres é confiável — disse ela, quase num sussurro. — Sinto que posso amá-la como minha mãe. Lá fora eu posso ser… uma aberração. Aqui, vocês me veem como uma de vocês.
Ela sorriu de leve, pensativa.
— Percebi algo curioso. Meus olhos são únicos. Já vi olhos azuis, verdes, pretos, castanhos, âmbar… alguns até de duas cores. Mas vermelhos?
Enquanto falava, crianças riam ao longe. Os cavalos pareciam responder à energia do ambiente, calmos, sincronizados. Koee atraía atenção sem esforço, como se a vida ao redor a reconhecesse.
Uma borboleta pousou suavemente em seus cabelos brancos.
Koee riu, surpresa.
— Acho que sou um chamariz de borboletas.
Eos riu junto.
— Talvez seja a loção — disse Koee, divertida. — Tem um cheiro fresco, afasta os insetos que me fazem mal… mas parece atrair os que não têm medo.
Eos a observava em silêncio. Koee era etérea, delicada, quase irreal. A pele extremamente branca contrastava com a luz suave da arena, refletindo nos olhos vermelhos — únicos — onde as pupilas negras se destacavam com nitidez. Havia algo nela que puxava o olhar, não por estranheza, mas por presença.
Quem não sentisse algo diante de Koee, pensou Eos, não era humano.
Thoughts
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PermalinkAposto que a proposta do general volta mais para frente. A Mãe empurrou a decisão para a menina em vez de negar de vez, e isso me soou menos como liberdade e mais como conta a pagar depois.
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PermalinkEla fecha a porta sozinha, depois de lhe dizerem que ali não há portas. Fiquei parada nessa parte muito tempo. Quem viveu sempre em espaços fechados aprende que o aberto é perigo, e isso não se desfaz com um pêssego nem com um jardim. Fico com a ideia de que Ceres vai demorar mais a convencê-la do que Arcádia demorou a prendê-la.
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PermalinkTrês dias inteiros de relatórios e o que muda mesmo é ela dizer pode deixar aberta. Aquilo vale mais que a cidade toda descrita antes. Fiquei pensando que a Eos sabe bem o que faz ao não perguntar nada, e aposto que essa paciência toda vai cobrar preço lá na frente. Obrigado por trazer isso pra cá! Vai postar a parte 3 por aqui também?
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PermalinkGostei demais do mel 😍
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PermalinkBem interessante
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