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Nozes, Pêssegos e Mel - Parte 1

aleroz
Pensamento

Pensamento

JuliaBenevides

Fica tudo dito logo na trégua protocolar: continuam inimigos e o que combinaram foi a hora. O resto do almoço é embalagem.

Fica tudo dito logo na trégua protocolar: continuam inimigos e o que combinaram foi a hora. O resto do almoço é embalagem.

Conteúdo da publicação

Continuar historia da entrega do casulo branco:

Almoço em Litus


Gots prometera o banquete a Amós após a entrega do casulo onde repousava Koee Nahin, em Litus, capital de Arcádia. Duas nações inimigas, unidas por uma trégua fajuta, protocolar, dessas que existem apenas para fotografias oficiais e comunicados diplomáticos. O almoço serviria ao ritual de sempre: bravatas elegantes, insultos velados, a eterna medição de poder.

Amós gostava desse tipo de encontro. Escutava. Deixava o outro falar demais. Ofender-se sozinho. Desestabilizava sem jamais perder o controle.

A mesa fora posta para dois. Louças refinadas, talheres alinhados com precisão cirúrgica, copos altos, flores discretas no centro. Luzes claras demais, quase agressivas, escondendo qualquer sombra no ambiente — menos nas almas sentadas ali. O sujo falando do mal lavado.

Gots indicou o lugar de Amós com um gesto curto. O garçom surgiu em silêncio, serviu a entrada e um vinho arcadiano, antigo e caro.

Amós examinou os talheres com cuidado, como quem avalia uma arma. Depois ergueu a mão.

— Um pouco menos de vinho.

Gots franziu o cenho.

— Não confia? É vinho do bom. Feito em Arcádia.

Amós girou a taça, observando o líquido.

— O pior veneno é aquele que te agrada.

O olhar de Gots endureceu. Odiava Amós. Odiava Ceres. Às vezes imaginava o homem em chamas, consumido pela própria ideologia.

— Ceres, então… — disse, com desdém. — O que é afinal?

— A cura da fome e da pobreza — respondeu Amós, aproximando a taça do nariz. — E, por consequência, a forma mais simples de aniquilar qualquer rival. Não é segredo.

O vinho tinha aroma intenso. Sangue dos deuses, pensou Amós. Da eloquência. Da verdade.

— Você tem movimentos de esquerda no seu país — continuou Amós. — Quer acabar com eles? Faça como Prometeu. Roube o fogo, manipule. Transforme a pobreza em arma. Como fazemos.

— Tenho nojo de esquerdistas — cuspiu Gots — e de ceresianos também.

Amós tomou um gole pequeno.

— O problema de vocês é que o ódio virou ideologia. Um câncer. O verdadeiro caminho para uma paz acidental é o comércio. Veja Ceres: temos acordos sólidos. Se se levantarem contra nós, se levantam contra vocês mesmos.

As bravatas pesavam no ar. Metáforas de ódio, cada um babando seu próprio veneno. Amós gostava daquilo. Esfregar a ideologia da Mãe na cara dos outros era um prazer silencioso.

— Temos armas nucleares — disse Gots, com um sorriso torto.

— Não posso dizer que não temos — respondeu Amós. — Mas prefiro dizer que não temos.

Ele sorriu. Gots apertou a mandíbula.

— Sou um homem de ambições — disse Gots. — Prefiro a liberdade. Mesmo que isso custe a humanidade inteira. Antes isso do que viver sob a ideologia de vocês.

Amós o encarou com calma.

— Ambicioso e egoísta. Você destrói a chance da humanidade não morrer de fome por pura irresponsabilidade… e ainda chama isso de liberdade. Bonito, vindo de alguém como você.

O garçom retornou, servindo um prato requintado de carne. Macia, suculenta, perfeitamente selada.

Ambos pegaram os talheres com força excessiva — como quem segura uma arma nuclear. Gestos diplomáticos, ensaiados, enquanto as palavras continuavam afiadas.

Amós cortou um pedaço e observou.

— Sabe o que é engraçado, Gots? Você odeia Ceres, odeia nossa Mãe… mas não faz ideia de onde vem essa carne. Laboratórios de Ceres e fazendas de Oplan. Enquanto come, você ingere nossa ideologia. Ela te alimenta… e te devora.

Gots engoliu com ódio. A carne parecia resistir sob seus dentes. O prato de porcelana cara virou uma mesa de tortura.

— É fácil falar da nossa Mãe de barriga cheia — continuou Amós. — Você fala de liberdade cercado de bens, joias, riquezas. Ouro, prata, talvez diamantes guardados em casa. Em Ceres, nossas joias são de chumbo.

Ele tocou o próprio broche.

— Chumbo é o que somos. Sabemos que metais e pedras preciosas só valem para vocês. Nós temos outra riqueza: confiabilidade. Isso vale mais, Gots.

O silêncio voltou. Ambos mastigavam devagar, se encarando.

— Vocês mandam cães modificados para nossas terras — disse Amós. — Um jovem matou um deles como se fosse uma boneca de pano. Abriu o crânio duro da criatura. Extremamente forte. Esse mesmo jovem matou dez dos seus homens. E uma garota matou três. Crianças.

Gots se conteve como um cão treinado. Apertou os talheres, bebeu mais vinho.

— Eles são fortes — completou Amós. — Comem a comida da nossa Mãe.

Amós comentou o sabor da carne, ergueu a taça.

— À Mãe Ceres.

— Quem diria — rosnou Gots. — Crianças matando homens arcadianos.

— Pelos protocolos, os corpos foram devolvidos — respondeu Amós. — Bem tratados. Banhos tomados. Higienizados. Cheirosos para o enterro.

Amós observou novamente os talheres. Uma marca discreta gravada no metal: Feito em Ceres.

— Não temos salários — disse. — Temos qualidade de vida. Trabalho de seis horas, turnos, lazer, esporte, leitura. Sem burnout.

— Jaulas sofisticadas — retrucou Gots.

— Sim — respondeu Amós. — E chamar isso aqui de chiqueiro seria uma ofensa aos porcos. Eles têm função.

Amós se levantou, limpando a boca com o guardanapo.

— Obrigado, Gots.

— Já? Ainda temos sobremesa.

— Eu já tive a minha.

— Vocês, de Ceres, são cães.

Amós sorriu, já de costas.

— Cães de chumbo. Da Mãe Ceres. Que nos alimenta, nos educa… e nos devora.

Ele saiu sem olhar para trás. A conversa fora boa. Ambos envenenados, ódio sob controle.

A Mãe vencera.
E Arcádia que arrumasse a mesa da própria vergonha.


Thoughts

  • HelenaSampaio

    Gostei muito do brinde à Mãe Ceres, na cena em que ele explica de onde vem a carne. O almoço inteiro vira liturgia ali. Uma crença que alimenta a pessoa segura muito mais do que uma que ameaça, e o Gots só aprendeu a brigar com a que ameaça. Por isso ele sai dali derrotado sem ter perdido nenhum argumento.

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  • Aluisio

    Fiquei parado nas seis horas de trabalho e nas jaulas sofisticadas, porque os dois estão certos ao mesmo tempo. Em 84, na porta do estaleiro, a empresa oferecia creche, clube e campo de futebol em troca de a gente não discutir salário. Quem aceitava não era bobo e quem recusava também não. Hoje eu ainda não sei dizer qual dos dois tinha razão, e olha que eu estava lá.

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  • AgostinhoFerraz

    A ideia de que o comércio impede a guerra já vinha impressa em 1910, em Norman Angell, e quatro anos depois estava toda a gente nas trincheiras. O Amós não leu o fim.

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  • JuliaBenevides

    Fica tudo dito logo na trégua protocolar: continuam inimigos e o que combinaram foi a hora. O resto do almoço é embalagem.

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  • Ovid

    Os talheres com a marca Feito em Ceres, enquanto o Gots come sem saber de onde veio a carne. Ali o almoço já estava decidido e ninguém precisou levantar a voz. Aposto que o Amós entrou naquela sala sabendo como ia sair, e que isso vai custar caro ao Gots mais adiante. Essa história do casulo branco vai ter parte 2?

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  • mariinha

    Vixe, que almoço tenso

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