Tem um ator q quando faz aniversário, diz: eu tenho tantos anos e nove meses.
No ventre.
No silêncio morno de um lugar que ainda não conhecia, um pequeno menino de sete meses crescia. Não sabia o nome daquele lugar, nem sabia que existia um mundo além dele. Para ele, tudo era escuro,…
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Tem um ator q quando faz aniversário, diz: eu tenho tantos anos e nove meses.
Conteúdo da publicação
No silêncio morno de um lugar que ainda não conhecia, um pequeno menino de sete meses crescia. Não sabia o nome daquele lugar, nem sabia que existia um mundo além dele. Para ele, tudo era escuro, líquido e tranquilo.
Certa vez, ouviu um som profundo e ritmado.
— O que é isso que eu sinto quando escuto esse barulho? Tum... tum... tum... Parece que alguém está batendo uma porta bem perto de mim. Será que é você?
Ele encostou o pequeno corpo na parede quente que o envolvia e ficou ouvindo.
— Eu gosto desse barulho. Quando ele está aqui, sinto que não estou sozinho.
Ele ainda não sabia que escutava o coração de sua mãe.
Passaram-se alguns dias, e o menino começou a perceber outro movimento.
— Me disseram que, quando você e eu estivermos prontos, eu irei respirar sozinho. Por enquanto, fico tão feliz por sua respiração. É como se você respirasse por nós dois.
Ele não compreendia como aquilo era possível. Apenas sabia que, enquanto aquele coração continuasse batendo e aquela respiração continuasse existindo, ele estaria seguro.
Então, certa manhã, ouviu vozes.
— Vozes! Você está chorando? O que é isso? Está caindo água de meus olhinhos? É assim que chora?
As lágrimas de sua mãe atravessaram o silêncio de dentro dela, embora ele ainda não soubesse o que eram lágrimas.
— Não chore. Eu ainda não posso enxugar seu rosto, mas estou aqui.
Mais tarde, novas vozes chegaram.
— Vozes! É você de novo! Oba! Comida!
Ele sorriu do jeito que somente um bebê ainda não nascido poderia sorrir.
— É doce. Você come e eu sinto. Então é assim que a gente divide as coisas? Você come aí e eu comemoro aqui.
O tempo passou.
Até que, numa noite diferente de todas as outras, o menino percebeu que alguma coisa havia mudado.
— Chegou a hora do nascimento.
O lugar que antes parecia imenso começou a se apertar.
— Você está gritando? Está ficando apertado aqui!
Ele tentou se acomodar, mas o mundo inteiro parecia empurrá-lo para algum lugar desconhecido.
— O que está acontecendo? Eu não consigo ficar aqui como antes.
A pressão aumentou.
Então veio uma claridade que ele jamais havia imaginado.
— O que é isso branco? Não consigo abrir meus olhos!
Tudo era frio, barulhento e enorme.
Por um instante, ele sentiu medo.
Mas então percebeu que estava fora.
— É agora. Irei respirar sozinho.
Seu pequeno peito se moveu pela primeira vez.
O ar entrou.
E veio o choro.
— Eu já sei que vou esquecer de como foi meu crescimento aqui. Vou esquecer esse escuro, essa água, esse calor, esse coração que ouvi todos os dias.
Ele procurou aquela voz que conhecia desde antes de conhecer qualquer outra coisa.
— Conto com você para crescer.
E então o mundo ouviu dois choros.
O choro de um bebê que acabara de chegar.
E o choro de uma mãe que acabara de encontrá-lo.
Naquela sala, entre lágrimas, luzes e braços trêmulos, nasceu um menino.
E, embora ele ainda não soubesse, havia acabado de deixar sua primeira casa para começar a construir, junto dela, todas as outras. #gestação
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