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A árvore que eu nunca poderia ir e o rio que nunca poderia ficar.

Dorand2026
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No coração de uma floresta antiga havia um rio que amava uma árvore.

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Conteúdo da publicação

No coração de uma floresta antiga havia um rio que amava uma árvore.

O rio passava por suas raízes todas as manhãs, trazendo consigo folhas, sementes e pequenos peixes prateados. A árvore, por sua vez, inclinava seus galhos sobre a água e deixava que suas folhas tocassem a correnteza.

— Quando você passa por mim — dizia a árvore — parece que a floresta inteira respira.

O rio sorria à sua maneira, fazendo pequenas ondas contra as pedras.

— E quando você se inclina sobre mim, esqueço que estou sempre indo embora.

Durante muitas estações, viveram assim. O rio nunca podia ficar, e a árvore nunca podia partir. Ainda assim, encontravam-se todos os dias.

Até que veio uma seca.

O céu permaneceu sem nuvens durante meses. O rio foi diminuindo. Primeiro deixou de alcançar as raízes mais profundas. Depois transformou-se em um fio estreito entre as pedras.

— Não vá — pediu a árvore.

— Eu não escolho o caminho — respondeu o rio. — A terra me leva para longe.

— Então fique onde está.

— Se eu ficar, morrerei.

A árvore não compreendeu.

Na última manhã, o rio passou diante dela pela última vez.

— Quando você voltar?

O rio demorou a responder.

— Talvez a chuva me traga de volta. Talvez não.

E desapareceu entre as pedras.

A árvore continuou esperando.

Vieram outras chuvas, outros rios, outras criaturas. Novos animais fizeram ninhos em seus galhos. Flores nasceram ao redor de seu tronco. A floresta envelheceu.

Mas a árvore nunca voltou a inclinar seus galhos da mesma maneira.

Certa noite, uma lua enorme iluminou o leito seco.

Um jovem cervo aproximou-se e encontrou a árvore imóvel.

— Por que suas folhas parecem tão escuras?

— Porque guardam uma paisagem que já não existe.

— Você ainda ama o rio?

A árvore ficou em silêncio.

Então uma folha caiu.

— Amar não é necessariamente esperar que alguém volte. Às vezes é carregar dentro de si o lugar onde alguém esteve.

O cervo olhou para o leito vazio.

— Mas isso não dói?

— Dói.

— Então por que não esquecer?

A árvore balançou os galhos.

— Porque esquecer seria apagar também a parte de mim que nasceu enquanto ele passava.

Naquela mesma noite, uma tempestade começou muito longe dali.

A chuva caiu sobre as montanhas.

Pequenos riachos nasceram entre as pedras, correram pelas encostas e encontraram antigos caminhos.

Dias depois, o rio voltou.

Quando alcançou a árvore, suas águas estavam diferentes. Mais profundas. Mais rápidas. Carregavam galhos de outras florestas e o cheiro distante de terras desconhecidas.

A árvore sentiu suas raízes serem tocadas.

Por um instante, nenhuma das duas criaturas disse nada.

Então o rio perguntou:

— Você ainda está aqui?

A árvore respondeu:

— Eu nunca deixei de estar.

Mas não tentou prendê-lo.

E o rio também não prometeu permanecer.

Continuou seu caminho.

A árvore compreendeu, enfim, que algumas criaturas não entram em nossa vida para ficar. Entram para transformar a paisagem e depois seguem seu curso.

E, naquela manhã, suas folhas não pareceram mais negras.

Pareceram apenas folhas.

Porque a lembrança ainda existia, mas já não era uma ferida.

Era uma estação.

E estações, por mais belas ou dolorosas que sejam, foram feitas para passar.

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