Pular para o conteúdo
Carregando…

O navio que viajou tanto e não a viu antes.

Dorand2026
Pública 0 conversa 1 pensamento 11 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Havia uma ilha perdida em algum lugar daquele litoral. Não aparecia nos mapas, não tinha nome e quase nenhum navio se aproximava de suas praias.

Em séries

In groups

Conteúdo da publicação

Havia uma ilha perdida em algum lugar daquele litoral. Não aparecia nos mapas, não tinha nome e quase nenhum navio se aproximava de suas praias.

Certa manhã, um velho navio surgiu no horizonte.

— Capitão, há terra à frente! — gritou um marinheiro.

O capitão pegou a luneta.

— Terra? Neste ponto do oceano?

— Sim. Uma ilha.

O capitão examinou o mapa.

— Não deveria haver ilha alguma aqui.

O navio aproximou-se lentamente.

A ilha observou aquela embarcação como quem vê, pela primeira vez, alguém que talvez pudesse ficar.

Quando a âncora caiu, a ilha perguntou, em voz baixa, fazendo suas ondas baterem contra o casco:

— Você vai embora também?

O navio pareceu estremecer.

— Ainda não sei.

— Todos dizem isso antes de partir.

— Você está acostumada a ficar sozinha?

— Não. Apenas aprendi a suportar.

O navio ficou em silêncio.

— Eu viajei por muitos lugares — disse ele. — Mas nunca encontrei uma ilha como você.

— E eu nunca encontrei um navio que tivesse parado para me olhar.

Os dias passaram.

A tripulação começou a explorar a ilha. O navio permanecia ancorado, ouvindo suas histórias.

— Por que nenhum mapa fala de você? — perguntou ele certa noite.

— Talvez porque ninguém tenha ficado tempo suficiente para me conhecer.

O navio não respondeu.

Apenas permaneceu.

Até que, certo dia, outro navio apareceu.

Era moderno, veloz e reluzente.

Os marinheiros correram para recebê-lo.

— Capitão! Veja aquele navio! É muito mais rápido que o nosso!

O capitão olhou para o velho companheiro.

— Acho que chegou a hora.

A ilha ouviu.

— Você vai embora?

O navio permaneceu calado.

— Você prometeu que ficaria.

— Eu nunca prometi.

A ilha baixou suas ondas.

— Eu sei. Mas comecei a acreditar.

A tripulação partiu no novo navio.

O velho ficou sozinho.

Durante meses, nenhuma voz humana foi ouvida em seu convés.

Até que a ilha perguntou:

— Está triste?

— Estou.

— Porque eles foram embora?

— Sim.

— Então vá atrás deles.

O navio olhou para o horizonte.

— Não consigo.

— Por quê?

— Porque, pela primeira vez, não quero.

A ilha permaneceu em silêncio.

Então perguntou:

— Você ficaria mesmo sabendo que ninguém voltará?

— Ficaria.

— Mesmo que eu seja apenas uma ilha esquecida?

— Você não é esquecida para mim.

Foi naquele momento que a ilha deixou suas ondas chegarem mais perto do casco.

O tempo passou.

A chuva trouxe sementes.

O vento trouxe folhas.

Pequenos brotos nasceram sobre o convés.

A ilha perguntou:

— Você está deixando plantas crescerem em você.

— Estou percebendo.

— Não vai tentar expulsá-las?

— Não.

— Por quê?

O navio respondeu:

— Porque acho que estou começando a pertencer a este lugar.

Anos depois, árvores cresciam dentro de suas antigas cabines. Flores cobriam seus mastros. Cipós envolviam seu casco.

A ilha olhou para ele.

— Você mudou.

— Você também.

— Eu?

— Antes você era apenas uma ilha.

— E agora?

O navio contemplou as árvores que cresciam sobre seu convés.

— Agora você é meu lar.

A ilha ficou em silêncio durante alguns instantes.

— E eu sou o quê para você?

O navio respondeu:

— O lugar que eu passei a vida inteira procurando sem saber que procurava.

A ilha sentiu suas ondas se aquecerem sob o luar.

— E você?

— O que eu sou?

— Você ainda é um navio?

O velho navio olhou para suas velas desaparecidas, para as raízes atravessando seu casco e para as flores que haviam nascido sobre sua madeira.

— Já não sei.

A ilha sorriu através das ondas.

— Então somos dois lugares que deixaram de ser aquilo que eram.

O navio respondeu:

— Talvez tenhamos nos encontrado justamente por isso.

E permaneceram juntos.

Às vezes, o navio ainda olhava para o horizonte e pensava em todos os mares que havia atravessado.

Pensava naquela estranha descoberta:

— Como pude viajar tanto e nunca ter visto você?

A ilha respondia:

— Talvez você precisasse viajar tanto para finalmente chegar até mim.

E o velho navio, coberto de árvores e flores, compreendeu que alguns encontros não acontecem porque estavam escritos nos mapas.

Acontecem porque, em algum lugar do mundo, duas solidões finalmente encontram onde ancorar.

Moral: Há pessoas que atravessam o mundo procurando um lugar para pertencer, sem perceber que o verdadeiro destino pode ser justamente aquele que não aparece em nenhum mapa.

Thoughts

  • versodemadrugada

    As plantas crescendo no convés e ele deixando, sem expulsar nada. Fiquei com esse navio virando jardim na cabeça 🌿

    Permalink

Related posts

  • A aventura da busca.

    Havia, no coração de uma floresta cercada por montanhas negras, uma alcatéia de lobos que guardava uma tradição tão antiga que ninguém mais sabia dizer quando ela havia começado.

  • No ventre.

    No silêncio morno de um lugar que ainda não conhecia, um pequeno menino de sete meses crescia. Não sabia o nome daquele lugar, nem sabia que existia um mundo além dele. Para ele, tudo era escuro,…

  • A hiena que escolheu morrer por amar.

    Certa manhã, depois de uma noite de tempestade, uma população de coelhos encontrou, junto à margem de um rio, uma pequena hiena quase sem vida. Estava magra, ferida e tremia de frio.

  • O rio, as árvores e o tempo.

    Havia, no coração de uma floresta encantada, um rio que não corria apenas pela terra: corria pela memória.

  • A flor que escolheu casar.

    No meio de um jardim antigo havia uma flor que tinha passado a vida inteira esperando por uma abelha.

  • A raposa e o sabiá.

    Havia, numa floresta cercada por montanhas azuis, uma pequena raposa que todas as tardes se sentava à sombra de uma figueira para ouvir o som de um velho bandolim.

  • A árvore que eu nunca poderia ir e o rio que nunca poderia ficar.

    No coração de uma floresta antiga havia um rio que amava uma árvore.

  • A flor que conhecia o tempo.

    Havia, entre duas colinas cobertas de capim alto, um pequeno vale onde o tempo parecia caminhar descalço.